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Antecipado

Fiz o combinado:

Amei-te para sempre.

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Nos dias de chuva,

Nos dias ensolarados,

Nos dias nublados,

Nos dias que ainda não chegaram.

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Sim, amor antecipado.

Por que esperar para amar,

Se esperar para amar

É amar atrasado?

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Amei-te hoje,

Amei-te amanhã,

Como amei-te no passado.

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Tempos verbais não tem voz no amor:

Meu coração foi desde sempre por ti antecipado.

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À sombra

A língua é o chicote da alma.

O deboche é a marca indelével da inveja.

A mentira é a arma preferida do medíocre.

Eis tu:

Tão previsível,

Tão soberbo,

Tão arrogante,

Tão incapaz,

Tão tu mesmo.

E esta é a tua pena:

Ser quem tu és

E viver à sombra

Do que jamais poderias ter sido.

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Poema em Linha Reta – Álvaro de Campos (Fernando Pessoa)

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,

Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,

Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,

Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe — todos eles príncipes — na vida…

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os ouço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?

Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos — mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

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Sem nós dois

O mundo ficou tão merda sem nós dois.

Não há amanhã. Não há depois.

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Medos insepultos

O tempo me ensinou

Que para certas coisas

O tempo não passou

E que ainda carrego comigo

Coisas da minha infância.

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Ainda busco a aprovação –

E muitas vezes o perdão –

Quando me comporto como adulto.

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Mas há em mim perdão:

Perdoo a mim mesmo.

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Sou a minha própria consolação

Quem diz o sim ou diz o não

Para os meus medos insepultos.

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Logopeia – por Túlio Ceci Villaça

Essa poesia é de uma “boniteza” única. Me emocionou.

“No fim, como sempre,

O que nos salvará ou porá a perder

Não serão grandes gestos ou terríveis crimes,

Mas a coisa ordinária que não lembramos ter feito.

A meu favor, o que posso alegar

É que, a qualquer hora do dia ou da noite,

Escolhi sempre o caminho mais longo

Para passar pela praça.”

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Naco

A vida me olhou e disse:

“É chegada a sua hora.”

Fiquei na dúvida:

“Hora de viver ou de ir embora?”

Por via das dúvidas,

Acelerei o passo,

Mudei o compasso,

E permiti que a vida,

Muitas vezes sofrida,

Me desse um abraço.

E do futuro,

Mordi um naco:

Fome do porvir.

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Fora de estação

Não fosse o sol tímido

E a brisa fresca

Lambendo a minha face

Eu nem saberia que é inverno.

Porque no meu coração

É sempre verão

E nele habita aquecido

Tudo que me é eterno.

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Absoluta

Sempre procuro tuas pernas

Quando sinto frio em minhas orelhas.

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Faz de conta que é domingo

Faz de conta que é domingo –

E eu sei que hoje é domingo –

Mas faz de conta que é daqueles domingos

Em que a presença não dava espaço para a saudade

E quando as mínimas coisas eram o máximo.

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Faz de conta que é domingo –

E eu sei que hoje é domingo –

Mas faz de conta que caminhamos na praia

Que tomamos água de coco

E que compramos o pouco que nos faltava.

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Faz de conta que é domingo –

E eu sei que hoje é domingo –

Mas faz de conta que conversamos sem pressa

A garrafa de vinho aberta

Festa em nossos corações.

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Faz de conta que é domingo –

E eu sei que hoje é domingo –

Mas faz de conta que vimos o jogo juntos

Que tomamos café e comemos bolo

Falando inglês e explodindo em risadas abertas.

.

Faz de conta que é domingo –

E eu sei que hoje é domingo –

Assim como sei que eu te amo.