Hoje Meu amor, minha vida Calhou de me dar a vontade De escrever uma despedida Que depois de duas garrafas de vinho Parece-me a única avenida Ainda que seja um beco sem saída Ou trilhos que levam-me ao nada
Há tempos não ouço de ti Há tempos não toco tua pele Há tempos não sei de nós Há tempos… E parece-me toda uma vida Dada com os burros n’água
E nesse turbilhão de saudades Nessas pequenas e diárias eternidades Por uma última vez Venho aqui dizer que te amo E que te amarei para sempre Todos os dias Até mesmo nos dias Em que eu não amar-te-ei: Dias que não existem
Ad infinitum Esta, pois, é a minha vontade Mantém-se a minha doce santidade Na presença que não se materializa E que me estrangula de tanta saudade Esvai-se a minha sanidade No perfume que deixaste Em tudo por aqui E que todos os dias Pelo vento confirmas e trazes
Amor meu Onde estão os olhos teus? Que tanto me iluminavam Que tanto me diziam A tua voz que me sorria O que sem dizer, dizias…
Eu não sei E de tanto não saber De mim mesmo estou farto
Dei-te meu mundo Cada e todo segundo O que em mim há de mais fecundo De mais profundo Se foi… E sequer sei para onde Eu mesmo me fui: Meu destino é ignorado
Não sinto-me sozinho – Por certo – Estás sempre por perto! – E em meu peito O coração sempre aberto Clama por teu nome Que não repetirei aqui Em memória do que não foi vivido Em nome do respeito e do zelo Que sempre nutri e nutro por ti
Hoje Meu amor, minha vida É só um dia qualquer Onde eu homem E tu que eras Para ser minha mulher Não se encontram E nesse eterno não encontrar Hoje, morri de saudades E ainda assim estou aqui Absorto em minhas flexuosidades
Erguerei outras taças Farei outros brindes Conhecerei outras pessoas Mas, hoje Tudo que me cinge Tem o teu nome E é em memória de ti Por si Em dó Por todas as notas Que por nós são Uma única melodia E só
E a minha faina É todos os dias – Mentir E fingir que nunca – Profunda e absolutamente – Eu te conheci Mas de fato conheço-te… E conheço-te Porque vivo-te E de ti nunca me esqueci.
Passei um tempo Olhando para baixo Cabeça arriada Olhos amoados Sorriso dormente Peito apertado Pés no chão
Passei um tempo assim Tomando coragem Fazendo cara de paisagem Com receio de encarar a verdade
Foi um tempo que me dei Tempo que eu precisava Para me dar conta Que o horizonte Que eu conhecia Era por mim desconhecido
Eu era uma piada pronta E de mim só Deus não ria
Salvou-me a fé E a vida continua Meus olhos fixos no horizonte Que ainda hoje desconheço Mas reconhecer a minha ignorância Já me parece um grande recomeço.