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Abraço-me

Descobri que és diferente
Quando tocaste nas feridas
Da minha alma e do meu coração
Sem perguntar se as lesões
Foram autoinfligidas

Sim…
A insistência
A carência
A teimosia
A imaturidade
A inocência
A vaidade
A arrogância
O apego
O desespero
O desamor
O pânico
O medo
A raiva
A humilhação
A solidão

Eu me feri
Eu me machuquei
Tudo doeu
Muito sangrou

Eu me crucifiquei
E nem mesmo de mim me salvei
E agora eu sei:
Dor não se cura com mais dor.

Descobri que és diferente
Porque me mostraste
Que posso lamber minhas feridas
E seguir em frente
Fazer diferente
Porque és diferente
E diferente –
Agora que me lembro
Do que eu já fui –
Eu também já sou.

Eu me perdoo
Eu me abraço
E por isso eu sigo em frente.

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Outro dia

Longe das palavras,
Longe das poesias,
Senti na minha boca
O cheiro
Que somente a ti
Pertencia.

Não me dei conta
Naquele momento,
Naquele lugar,
Que as águas
Que eu estava
A navegar
Eram de fato
De outra fantasia.

Até que ela me perguntou
Se dela eu no futuro
Me lembraria,
E foi aí que me lembrei
De que para ti
Também disse
Que não me esqueceria.

E na inocente sinceridade
Que a ti eu devia
Calei a sua boca
Como pude
Sem qualquer pudor,
Inibição,
Ou hipocrisia.

Talvez eu a ela
Ainda responda
Não hoje –
Defintivamente não hoje –
Posto que o seu mel
Da minha boca
Ainda escorria
Quando fui-me embora
Prometendo voltar
Amanhã
Ou qualquer outro dia.

Entre o esquecer
E o lembrar,
Minha boca
Permaneceu calada,
Mas chocou-me
Não ser mais teu
O cheiro que
Inebriava minha alma
E somente de ti
Verdadeiramente resplandecia.

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Pinga fogo

Na poesia que ora escrevo,
Há o peso de teus fluidos
Nas pontas dos meus dedos.

Descrevo-te,
Escrevo-te
Em palavras,
Que pingam
De mim.

Pinga fogo!
Pinga!

Inundo-te!

Fecundo-te!

És a fêmea…
E que fêmea!

O que de nós
Há de vir?

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Supremo

As partes que não me cabem

São as partes que em ti eu deixo

Quiçá dentro

Ou escorrendo

No teu ventre

No teu leito

No teu peito

No teu queixo –

Não me queixo!

És verdade,

És de verdade:

És-me inalienável

Meu último recurso:

Meu direito.

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Sou do bar

Quando te perguntarem de onde eu sou,
Diga que sou do bar.

Foi lá que nos reencontramos
Depois de nos conhecermos
Em outro bar,
Em algum outro,
Mas é como se fosse lá.

Porque lá é minha casa,
Lá é meu lar,
E você é mais do que bem-vinda
E isso eu nem preciso falar.

E não é por ser especial:
Lá todo mundo é igual,
Todo mundo real,
Todo mundo tem nome,
Tem sobrenome,
Tem histórias para contar –
Derrotas e vitórias –
E está lá a criar histórias,
Histórias nem sempre de lá,
Mas que por lá passam,
Que muitas vezes lá nascem
E muitas vez por lá morrem.

E lá se chora,
Se ri,
Se fica,
Se vai embora,
Se ama,
Se termina,
Se namora,
Se troca o telefone,
Se telefona,
Se desabafa,
Se bate foto,
Se entrega,
Se esquece,
Se perde,
Se escreve,
Se bloqueia,
Se declara,
Se casa,
Se separa,
Se afoga.

Um dia,
Ainda irei de fraque até lá
E ninguém vai reparar,
Porque lá cada um vale
As suas conversas,
Os seus silêncios,
As suas lágrimas –
Com ou sem maquiagens borradas –
As suas gargalhadas,
As suas memórias –
De novo, histórias –
E nada mais.

Quando te perguntarem de onde eu sou,
Diga que sou do bar
E que tenho muito orgulho de ser de lá.

P.S.: Essa poesia foi escrita in loco.

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Quando… (texto e declamação)

Me procure
Quando o álcool tiver se encarregado
De afogar o teu orgulho,
Quando teu coração falar mais alto
Do que todas as grades a tua volta,
Quando sentir que não há saída
Porque a porta era só de entrada,
Quando a verdade transbordar líquida
Pelas linhas do teu rosto,
Quando teu peito ficar apertado
Pela saudade do que nunca foi pouco,
Quando sentir loucamente minha falta
Por dentro e por fora do teu corpo.

Me procure quando quiser se achar,
Quando resolver viver e ser,
Quando decidir se buscar,
Posto que já estou bem longe
Do quão perto já estive
E sozinho, eu já não sei mais voltar.

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Quartos não mentem

Na academia,

As máquinas e os alteres simulam

O que a gente não pode fazer no dia a dia.

Agachamentos?

Exercícios aeróbicos em geral?

Relaxa…

A gente já faz isso todos os dias,

Pela casa, pelos quartos – teus quartos –

E morrem de inveja a tua mãe, irmãs e tias.

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Marcapasso

Todos os dias ao acordar
Travo comigo diálogos intensos:
O que se tornou o que seria?
O que se tornou o que calhou de não ser?

E fito o céu e fito o mar
Na esperança de encontrar
Nos tons de azul e cinza
Nas nossas cinzas espargidas
Algo que o fogo do tempo
Inclemente
Não tenha lambido
Não tenha transformado em pó.

E reconto nossas histórias
Nossos dias de incólume glória
Para uma plateia de Deus comigo
Na esperança de que Ele
Da vida o grande diretor
Mude o final do nosso filme.

Eu já não deveria mais
Pensar em dizer que te amo
E por mais que tudo seja profano
Eu te amo, eu te amo, eu te amo!

Pode ser que eu esteja condenado
Mesmo sendo inculpado
A ter que conviver para sempre
Com esse lancinante dessabor
Com esse inclemente ardor
De sentir ainda o calor da tua pele
E do teu retumbante coração
Que marca os passos do meu.

Mas se for esse o preço –
O preço do que não tem preço –
Ainda assim eu teria escolhido viver
Milímetro por milímetro
Toque por toque
Do que foi e do que restou
Do que para mim nunca acabou.

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Meia culpa

Há um par de meias tuas
Na gaveta de meias minhas.

Não ouso toca-las.
Finjo que não as vejo.

É assim que lido com nossas meias coisas
E tudo mais que ficou pelo meio.

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Se algum dia eu deixar de te amar

Se algum dia eu deixar de te amar,
Meu grande amor,
Saibas que serás a primeira a saber.

Dói-me pensar nisso,
Mas é porque contigo penso em tudo,
Por mim e por ti.

Se todo este amor que sinto,
Se toda esta paixão que me aquece,
Um dia for embora, acredite:
Eu serei o primeiro a por isso sofrer.

Porque não está e nem nunca esteve
Nos meus planos mais sinceros
Deixar de te amar, de te ter,
Ainda que isto possa acontecer.

E digo essas palavras
Sem antever nada disto!

Não se trata de um aviso ou algo parecido.

É apenas uma declaração de amor invertida,
Dorida…
Sofrida…

Porque no dia em que eu deixar de te amar,
Não serei mais digno de tua presença,
E serei forçado a me retirar da tua vida,
Mas não sem antes me despedir.

Não fugirei do meu dever de dizer
Que não mais te amo.

Não deixarei que saibas por terceiros
O que sinto ou deixei de sentir.

Porque hoje és a minha vida,
E ainda que um dia deixes de sê-la,
Também eu deixarei de ser
A minha parte que só em ti e por ti existe.

Se algum dia eu deixar de te amar,
É porque parte de mim mataram
Ou parte de mim morreu.