Despi-me do sonho
Vesti-me da verdade:
No que é invisível aos olhos
Teu gosto
Teu rosto
Os excessos do meu corpo
Corredeiras que jorrro –
Que pedes
E que encaras –
Morro
Esfrego
Puro gozo
E nos teus olhos
Acidentados de alma sanitária
Realizo-me
E nem disfarço.
Arquivo da tag: prazer
De todos os ângulos
Já te vi de todos os ângulos –
E foi com a língua.
Tenta-me de novo – Hilda Hilst
E por que haverias de querer minha alma
Na tua cama?
Disse palavras líquidas, deleitosas, ásperas
Obscenas, porque era assim que gostávamos.
Mas não menti gozo prazer lascívia
Nem omiti que a alma está além, buscando
Aquele Outro. E te repito: por que haverias
De querer minha alma na tua cama?
Jubila-te da memória de coitos e acertos.
Ou tenta-me de novo. Obriga-me.

Eu não te dei nada
Eu não te dei asas;
Tu já as tinha.
Talvez dobradas,
Amarrotadas,
Mas contigo já estavam.
Eu não te dei sorrisos;
Tu já os tinha.
Talvez acabrunhados,
Pensando-se exagerados,
Mas contigo já estavam.
Eu não te dei suspiros;
Só ajudei-te a desengaiola-los.
Eu não te dei prazeres;
Só ajudei-te a vivencia-los.
Eu não te dei nada,
Porque de fato era do nada que precisavas.
Só olhei-te com os olhos e lentes do amor,
E de dentro do teu coração,
Estas e milhares de outras sementes brotaram.

Melada
A maior doçura do mel se sente com os ouvidos
Mel…
Mel…
Mel…
Mel aqui…
Mela aqui…
Doçura em favos
De carne e osso.

Áspera vida
Áspera
À espera
A vida
Quem me dera
Ter-te aqui
Agora
Afinal
Seja como for
Sempre antes
Nunca depois.

Maratonistas
Lembro-me da luz do sol
Invadindo nosso quarto
Por entre a cortina
Iluminando teu corpo nu
Lembro-me do meu corpo
Suado, também nu
Ainda ofegante
No mais completo e extravagante êxtase
Nosso cheiro embolado no ar
Roupa de cama molhada
Evidências incontestáveis
De fatos concretos, consumados
Teus cabelos bagunçados
Tuas pernas torneadas e meladas
Rios que de ti escorriam
Águas que criaste e levaste de mim
Lembro de te puxar-te pelos braços
Jogar-te de volta na cama
Provar novamente os nossos gostos
O mais puro e selvagem absinto
Lembro-me de visitar-te por dentro
Do céu da boca e de todos os outros lugares
E de novos rios intermináveis
Jorrando sobre nossos corpos lisos
Mas de tudo isso
Lembro-me ainda mais
Da delícia que é ser teu homem
E da delícia que é tu seres a minha mulher.

Verossimilhança
Eu sou a sombra dos teus desejos
A parte deles que nunca dorme
A parte que sempre te acompanha
Por mais que o negues quando foges
Tua fuga me agiganta e de nada adianta
Fico mais forte – nunca ausente
Ainda que me renegues repetidas vezes
Faço parte de ti, sempre presente
Tua lógica não me enfraquece
Tua negação me faz rir
Não posso ser descartado, jogado fora
Por que insistes em insistir?
Se soubessem a fúria louca que tens pode dentro
Se soubessem da mulher que finges que não és
Teriam medo de ti como não tenho
Ou achariam isso tudo um grande revés?
Que sorte a minha serem tolos assim!
Deflagro-te ainda que à distância
És parte do que sou em essência
És minha mais pura e devassa verossimilhança
Não se queixes de eu existir
Sou o derradeiro conduíte da tua felicidade
Se impura fores, impura é nossa essência
Da qual nos regozijaremos por toda a só nossa eternidade.

Por ti
Que não seja contigo
Mas é sempre por ti
É sempre em ti
És tudo
Absolutamente nada mais –
Posto que não há nada mais –
Cabe em mim
Tu me transbordas
És enchente
És vida
És o presente
És o ausente
És o nascer
És o poente
És tudo
Estás
Invariavelmente
Inexoravelmente
Nos milissegundos do sempre
Aqui.

Amor de verdade
Entre ósculos e amplexos
De um amor angelical
Puro
Sem igual
Amor apaixonado
Que transcende o conceito
De certo e errado
Fodem
Fodem muito
E levam no dia-a-dia
O prazer como legado
Sempre
Costumeiramente
Abundantemente
Melados
Amam-se
Consomem-se
Fodem-se
Esquentam-se
São fogo
Combustível
Comburente –
Não se deixam amornar
Amor para foder
Foder para amar.
