Todos os dias
Com tu ao longe ou perto
Teu rosto eu vejo
Teu amor eu desejo
E mando-te um bom dia
Todos os dias
Pois eu não sei
Quando pode ser o último dia
Que poderei dar bom dia
Todos os dias.

Todos os dias
Com tu ao longe ou perto
Teu rosto eu vejo
Teu amor eu desejo
E mando-te um bom dia
Todos os dias
Pois eu não sei
Quando pode ser o último dia
Que poderei dar bom dia
Todos os dias.

Queria que fosse assim:
Eu não ligo para você
Você não liga para mim
E seríamos ligados assim:
Sem telefonemas
Não apenas um contato
Mas para sempre em contato
Conectados de fato
Sem fim.

És assim:
A última coisa que penso antes de morrer
Morro todas as noites
Ressuscito todos os dias
E da gaveta do meu necrotério pessoal
Onde permanecem insepultos
Tanto o bem quanto o mal
Levanto-me e não me encontro
No obituário do jornal
E nesse estado de inexistência e torpor
Morto e roto
Liberto do amor
Não sinto tua falta
De fato, nada sinto
Pois lá
Seja lá onde esse lá for
Nem tu nem eu existimos
Dia e noite
Noite e dia
Vida sem sorte
Abraça-me a morte
Nua e fria!
Esquece-me a vida
Sufocante agonia!
Inexistência de tristeza e alegria
Eu diria
Não fosse esse implacável despertador
Que todo santo dia
É meu desfibrilador
E que me lembra de sentir dor
Cirurgia de peito aberto de saudade
Sem nenhuma anestesia.

Estava tudo nos detalhes
E você ali…
Estática
Esperando por algo grandioso
Grandiosa agora é a sua saudade
Mas isso para mim é só um detalhe.

Silêncio, dentro de mim.
Sua voz que tanto me dizia,
Que em acordava, me benzia,
Se foi, junto com você,
No último dia que pude ouvir.
Ficaram as palavras mudas,
De quem jurou, prometeu, se entregou,
Amou, seduziu, gozou,
Que fim tudo isso levou?
Não sei, embora precise saber,
Tudo se silenciou.
Sou silêncio agora,
Pois já disse tudo que podia,
Tudo que havia, tudo que sentia,
Nunca, nunca, hipocrisia,
Tudo verdade, tudo perfeito,
O que eu tinha como meu grande direito,
Se apagou, se emudeceu.
Ouço apenas o cantar dos pássaros,
Que levam e trazem minha saudade,
Reafirmam a minha dignidade,
E me mostram em seu vôo
A liberdade, para ir e vir,
Encontrar meu caminho,
Entre pedras e espinhos,
Minha vida, meu prazer.
E mesmo que eu fizesse muita força,
Você, minha boneca de louça,
Se quebrou, se partiu.
Ninguém, ninguém sorriu,
E o mundo imaginou
O que você nunca admitiu:
Quando você se foi, silêncio,
Dentro de mim,
Mas muito mais dentro de você.

E chega a sexta-feira
As taças de vinho
A garrafa na mão
Sento-me
Bebo sozinho
Bebo-te até não sobrar
Uma gota que seja de ti
As unhas vermelhas
O elixir tinto
As lembranças que sinto
Os sonhos vivos
Faíscas e centelhas
É involuntário
Fisiologicamente necessário
A gota de vinho
Que escorre pelo meu peito
Tem teu gosto e cheiro…
Não, não há solidão!
Estou contigo
E não, não há perigo…
Sorrio –
Revejo meus lábios no teu umbigo.

Estamos acostumados a ouvir o “tudo que disser poderá e será usado contra você”.
Garanto que o que não foi dito também, entretanto, também poderá e será usado contra você. Não em tribunais. Não em rodas de amigos. Usado contra você pelo tempo, pela saudade, pela ausência, na forma de chances perdidas, sonhos não realizados.
E vai ficar aquela rombo no peito e a saudade mais amarga de todas: saudade do que nunca foi vivido e de tudo que poderia ter sido.
Incurável. Dilacerante.

E essa coisa de fim de tarde
Que chega sem fazer muito alarde
Mas que queima, rasga e arde?
Saudade de fazer poesia
Que não seja de saudade
E eu sou todo saudade
Assumo sem a menor vaidade
Não poderia ser diferente
Quando deixam no peito da gente
Um coração que não mais bate
E que nem fingindo consegue ser indiferente
Um dia tudo isso passa – eu sei!
Essa saudade frondosa
Esses versos repetitivos
Essa explosão de sentidos
Um dia tudo isso passa – eu sei!
O coração se conforma
E a esperança renasce
De dentro para fora
Um dia eu talvez acredite:
Ela foi embora
Mas por ora…
É só saudade
Que em solo fértil de mim aflora.

O bom dia
O boa noite
O papo furado
A gargalhada
A risada
O sorriso
O interesse genuíno
A vontade
A saudade
A ansiedade
A amizade
O companheirismo
O romantismo
A declaração de amor
O amor
A paixão
A inspiração
A sensação
O suspiro
O gemido
O tesão
A sedução
A comichão
A presença
A alegria
A felicidade
A promessa
A esperança
A crença
Deixo-te tudo de herança
Não
Nenhum de nós morreu
Mas se morreu o “nós”
Que tu fiques com tudo isso
E eu levarei comigo
Como lembrança
Tudo que se tornou coisado
Esquisito.

Sentar ao meu lado
Que eu saiba
Nunca foi pecado
Para falar de poesia
De fotografia
Da vida
Do dia-a-dia
Ou para ficarmos calados
Nunca nos faltou assunto
Nunca
E mesmo assim esse silêncio
Essa distância
Essa falta de abundância
Do básico
Algo quase afásico
Algo que não é nosso
Essa coisa, esse troço
Nunca foi assim
Ainda me flagro
Conversando com seu cheiro
Com seu toque
E acredite…
Quando me toca
Ainda sinto aquele choque
É como se fosse ontem…
É como se fosse…
É como se não tivesse fim
E nada há de apagar
O que foi sentido
O que foi falado
O que foi ouvido
O que foi feito e desfeito
Com a sensação platônica
Do mais que perfeito
Não é pretério
Ou finada
A falta que trago em meu peito
Como se fosse ontem…
Como se fosse…
E se fosse, seria
Mais do que já é
Mais do que sempre
Renascida
Sobrevivida
A cada sol poente.
