Faz-se luz na noite do meu dia, Quando desfilas calma, silenciosa, Iluminando os alicerces de minh’alma, Sem saber que o fazes, pois não me conheces, Ainda assim atendes minhas lúgubres preces, Seguindo teu destino que te funde ao meu.
Não sei por onde andas, aonde vais, Pois também não te conheço, Mas é inegável que tenho por ti grande apreço, Pelo simples fato de saber que existes. Dirijo-me para ti, de cabeça em riste, Com meu lábaro manchado de sangue.
Açoitado fui, vítima de escárnio, Mas ainda assim respeito as tiranias Dos que se julgam senhores – pura verborragia! Mesmo quando o desespero assolava meu leito, Sonhava em ti, por ti, para que em teu peito Pudesse alcançar a verdade por detrás.
E tu esperas por mim, sem perceber, Caminhando os nossos turvejantes dias, Para acabar de vez com nossa sentimental anemia. Lembre-se que, quando chegares, nada será como antes, E eu que ainda sou um mero cavaleiro errante, Darei grande brado, para em nossa etérea plaga descansar.
O poema “Se”, do escritor inglês Rudyard Kipling, Prêmio Nobel de Literatura em 1907, é uma jóia de valor espiritual inestimável, que merece profundas reflexões. Desfrutemos agora destas palavras imortais e atemporais:
SE
Se és capaz de manter tua calma, quando, todo mundo ao redor já a perdeu e te culpa. De crer em ti quando estão todos duvidando, e para esses no entanto achar uma desculpa;
Se és capaz de esperar sem te desesperares, ou, enganado, não mentir ao mentiroso, Ou, sendo odiado, sempre ao ódio te esquivares, e não parecer bom demais, nem pretensioso;
Se és capaz de pensar – sem que a isso só te atires, de sonhar – sem fazer dos sonhos teus senhores. Se, encontrando a desgraça e o triunfo, conseguires, tratar da mesma forma a esses dois impostores;
Se és capaz de sofrer a dor de ver mudadas, em armadilhas as verdades que disseste E as coisas, por que deste a vida estraçalhadas, e refazê-las com o bem pouco que te reste;
Se és capaz de arriscar numa única parada, tudo quanto ganhaste em toda a tua vida. E perder e, ao perder, sem nunca dizer nada, resignado, tornar ao ponto de partida.
De forçar coração, nervos, músculos, tudo, a dar seja o que for que neles ainda existe. E a persistir assim quando, exausto, contudo, resta a vontade em ti, que ainda te ordena: Persiste!
Se és capaz de, entre a plebe, não te corromperes, e, entre Reis, não perder a naturalidade. E de amigos, quer bons, quer maus, te defenderes, se a todos podes ser de alguma utilidade;
Se és capaz de dar, segundo por segundo, ao minuto fatal todo valor e brilho; Tua é a Terra com tudo o que existe no mundo, e – o que ainda é muito mais – tu és um Homem, meu filho!
Olho para o menino no sinal vendendo balas, Desviando de carros e motos, Enquanto um grupo de adultos observa tudo.
Uma criança que não é criança, Porque não é possível ser criança sem infância.
Tudo que esse menino conhece é violento: A infância e a educação roubadas, O trabalho obrigatório a mando dos pais.
Tudo! Absolutamente tudo!
E vem um sujeito falar comigo de meritocracia, De quanto a educação pode ajudar na mobilidade social… Coisas eruditas, coisas bonitas, Mas o menino continua no sinal.
Compro uma bala por via das dúvidas, Mas logo sou acusado de “alimentar a pobreza”, Que os tais cheios de mérito fazem questão De manter longe de seus olhos. Afinal de contas, o que não é visto, Não existe.
E agora, já passou a eleição, E o mundo continua um mundo cão.
Pobreza no cu do pobre é refresco! E a massa conservadora vocifera: Eu fui escolhido por Deus, E este menino, não.