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Besteira

Te amo neste fim de noite

Neste meio fio

Neste precipício

Nesta ribanceira.

Te amo contando trocados

Pedindo fiado

Engolindo poeira.

Tanto faz!

Porque tu és este amor

Que jorra de teu peito

E me fecunda por inteiro.

Te amo porque é o que sei fazer

É o que me faz ser quem sou

E o resto é pura besteira.

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Nossa Sina

Faz-se luz na noite do meu dia,
Quando desfilas calma, silenciosa,
Iluminando os alicerces de minh’alma,
Sem saber que o fazes, pois não me conheces,
Ainda assim atendes minhas lúgubres preces,
Seguindo teu destino que te funde ao meu.

Não sei por onde andas, aonde vais,
Pois também não te conheço,
Mas é inegável que tenho por ti grande apreço,
Pelo simples fato de saber que existes.
Dirijo-me para ti, de cabeça em riste,
Com meu lábaro manchado de sangue.

Açoitado fui, vítima de escárnio,
Mas ainda assim respeito as tiranias
Dos que se julgam senhores – pura verborragia!
Mesmo quando o desespero assolava meu leito,
Sonhava em ti, por ti, para que em teu peito
Pudesse alcançar a verdade por detrás.

E tu esperas por mim, sem perceber,
Caminhando os nossos turvejantes dias,
Para acabar de vez com nossa sentimental anemia.
Lembre-se que, quando chegares, nada será como antes,
E eu que ainda sou um mero cavaleiro errante,
Darei grande brado, para em nossa etérea plaga descansar.

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Apenas pó

Nunca me olhaste nos olhos

Nunca me fizeste perguntas

Nunca ouviste a minha voz.

Me conheces por fotografia

Pelas minhas poesias

E só.

Sabes meu nome e sobrenome,

Mas não se gosto de chocolate

Ou de pão de ló.

Não sabes e prefiro que não saibas,

Pois pelo jeito que de mim falas

De ti só tenho dó:

És apenas pó.

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Se – Rudyard Kipling

O poema “Se”, do escritor inglês Rudyard Kipling, Prêmio Nobel de Literatura em 1907, é uma jóia de valor espiritual inestimável, que merece profundas reflexões. Desfrutemos agora destas palavras imortais e atemporais:

SE

Se és capaz de manter tua calma, quando,
todo mundo ao redor já a perdeu e te culpa.
De crer em ti quando estão todos duvidando,
e para esses no entanto achar uma desculpa;

Se és capaz de esperar sem te desesperares,
ou, enganado, não mentir ao mentiroso,
Ou, sendo odiado, sempre ao ódio te esquivares,
e não parecer bom demais, nem pretensioso;

Se és capaz de pensar – sem que a isso só te atires,
de sonhar – sem fazer dos sonhos teus senhores.
Se, encontrando a desgraça e o triunfo, conseguires,
tratar da mesma forma a esses dois impostores;

Se és capaz de sofrer a dor de ver mudadas,
em armadilhas as verdades que disseste
E as coisas, por que deste a vida estraçalhadas, e refazê-las com o bem pouco que te reste;

Se és capaz de arriscar numa única parada,
tudo quanto ganhaste em toda a tua vida.
E perder e, ao perder, sem nunca dizer nada, resignado, tornar ao ponto de partida.

De forçar coração, nervos, músculos, tudo,
a dar seja o que for que neles ainda existe.
E a persistir assim quando, exausto, contudo,
resta a vontade em ti, que ainda te ordena: Persiste!

Se és capaz de, entre a plebe, não te corromperes, e, entre Reis, não perder a naturalidade.
E de amigos, quer bons, quer maus, te defenderes, se a todos podes ser de alguma utilidade;

Se és capaz de dar, segundo por segundo,
ao minuto fatal todo valor e brilho;
Tua é a Terra com tudo o que existe no mundo, e – o que ainda é muito mais – tu és um Homem, meu filho!

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Falta

Fui ali me encontrar:

Volto já ou nunca mais.

Tanto faz se de mim sentirão falta.

A falta que sinto de mim mesmo nunca me faltará.

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Pintassilgo

Canta, coração!

Canta feito pintassilgo –

Preso –

Na gaiola invisível da paixão.

Canta, coração!

Canta até ficar rouco!

E se for chamado de louco,

Cante mais alto,

Pois o teu cantar

É o pulsar do coração.

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Das coisas do coração

Eu nem sei o motivo,
Muito menos a razão,
Das coisas do coração.

Mas estou vivo,
E por isso deve haver sentido
Tanto no sim como no não.

Mas e toda esta multidão,
Que pula de galho em galho,
Tal como se não houvesse chão?

Disso, não sei, não.

Eu nem sei o motivo,
Muito menos a razão,
Mas confio no meu coração,
E é esta crença que me mantém vivo.

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Em nome de deus

Olho para o menino no sinal vendendo balas,
Desviando de carros e motos,
Enquanto um grupo de adultos observa tudo.

Uma criança que não é criança,
Porque não é possível ser criança sem infância.

Tudo que esse menino conhece é violento:
A infância e a educação roubadas,
O trabalho obrigatório a mando dos pais.

Tudo! Absolutamente tudo!

E vem um sujeito falar comigo de meritocracia,
De quanto a educação pode ajudar na mobilidade social…
Coisas eruditas, coisas bonitas,
Mas o menino continua no sinal.

Compro uma bala por via das dúvidas,
Mas logo sou acusado de “alimentar a pobreza”,
Que os tais cheios de mérito fazem questão
De manter longe de seus olhos.
Afinal de contas, o que não é visto,
Não existe.

E agora, já passou a eleição,
E o mundo continua um mundo cão.

Pobreza no cu do pobre é refresco!
E a massa conservadora vocifera:
Eu fui escolhido por Deus,
E este menino, não.

Que tipo de deus filho da puta é esse, então?

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Mas entenda, meu amor

Não consigo dizer tudo em palavras

E por vezes me perco na urgência de ser compreendido.

Mas entenda, meu amor:

As minhas palavras podem eventualmente me trair,

Mas minhas atitudes jamais te trairão.

Portanto, na dúvida, meu amor,

Repare bem nas minhas atitudes e ações

E também nas minhas reações

Diante das imprevisibilidades da vida.

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Anteparo

Considero uma das poesias mais bonitas que eu já escrevi. Gosto muito, muito desses versos.

Anteparo

Parece que cresce
Que remexe, que tece
Que cria raízes
Mas é fotografia
De álbum antigo
De melancolia

Só que é tão presente
Que quando ausente
Não deixa nem respirar
E quando presente
Faz o não coerente
Para a razão se ausentar

Talvez seja eterno
O jeito mais que doce
De não falar de amor
De um amor tão calado,
Que berra pecados,
Que urra e canta…

A beleza de amar
O que o torpe destino
Não quis coroar
Pois nem coroa apresenta
E seu cetro só ostenta
Lágrimas de um trovador

E nesse império
De luxúria e mistério
Rego com lágrimas o que plantei
Um sopro de vida
Uma divina rotina
De carinhos não meus

Quem sabe outra chance
Outro dia, outro lance,
Com a sorte desnuda
Feito meu peito rasgado
Pelos lábios molhados
Que eu afirmo: são meus.

Que sirva de aviso –
Não há prejuízo
Em amar até morrer
Pois até no desamparo
O amor é o anteparo
Dos males do eu.