na madrugada
a saudade é açoite –
insistente
insolente
inclemente –
que quase mata
e nunca morre

na madrugada
a saudade é açoite –
insistente
insolente
inclemente –
que quase mata
e nunca morre

acordei a teu lado
sem saber que estava
apenas dormindo
para todos os efeitos
morto
roto
escroto
amônia
teu corpo
revivi

Até que ponto o teu padrão de consumo e a tua maneira de viver são realmente teus? Até que ponto tua roupa, teu carro, tuas palavras, teu olhar, tuas felicidades e tuas dores pertencem a ti? Até que ponto te reconheces quando olhas de cara limpa para um espelho?
És o que és ou és o que esperam que tu sejas? És ou estás? Quem és tu, afinal?
Pergunto porque também já não soube quem eu era, e foi um esforço tremendo achar-me em mim.
Já fui minha sombra revirada e retorcida por viver o que eu não era. Nenhuma penumbra. Nenhum atenuante. Puro breu.
Não houvesse espelhos, eu até hoje não saberia de mim. Não houvesse espelhos, até hoje eu acreditaria que eu era só ausência de luz. Sombra e nada mais.
Hoje, sou sol, mas só me tornei sol quando não me reconheci na minha sombra, e isso era algo que ninguém poderia fazer por mim.

Hoje, olhei e admirei muitas flores
De todas as cores
Que encontrei pelo meu caminho.
E hoje, certeza que de meu rosto
Foi-se embora o sorriso tosco
De quem se via caminhando sozinho.
Deus é comigo até o fim.

Também eu sei falar de coisas tristes,
De tudo de ruim que me aconteceu,
Das dores que me perseguiram inclementes,
Das saudades absurdas que me gelaram o peito,
Das vozes que, delirante, fingi que ouvi,
Das noites em claro e da sensação de quase morte,
Dos fins de tarde que pareciam o fim do mundo,
Do Apocalipse que comia e regurgitava minhas vísceras.
Ninguém por perto.
Medo diserto.
Respirar funesto.
Desenredo decerto.
Até que me dei conta
De que nunca me eximi,
Ou mesmo tentei fugir,
Das catástrofes que a mim –
E em mim –
Cabiam:
Tentar esquecer
Era, pois, a forma mais dissimulada
De me lembrar,
Todo santo dia,
De tudo que ainda me habitava
E de tudo que já me foi tudo um dia.

Aos trancos e barrancos
Encontrei meu canto
Enquanto meu pranto
Meio que por encanto
Explodiu em sorrisos.

Entrego-me a teus carinhos de sempre,
Que hoje me tocam como nunca.
Deixa-me repousar em teu ventre,
Com teus dedos em minha nuca.
Livra-me do mal que me espreita,
Cuja dor parece que não caduca.
Rogo tão só a tua presença,
Para que eu não me afogue em alguma reles baiuca.

E no final,
O rastilho falhou.
Dizem que foi obra
De Nosso Senhor
E disso eu não duvido.
Nada explodiu,
Ninguém morreu –
Doeu, mas já passou –
Que fim tudo levou?
Eu não sei
E só quando sei
É que digo.
Talvez haja explicação –
Talvez não –
Mas se esta existe,
Não está de bem comigo.
Vou ser mesmo é trovador
E falar por aí do amor,
Daqueles que ninguém
Nunca sentiu
Ou nem mesmo falou,
E que toda noite,
Invariavelmente,
Dorme comigo
E serve-me de abrigo.

A arte não pode ser silenciada,
Porque o amor urge e grita,
E a vida,
Tão passageira e efêmera
Quanto parece ser,
Está sempre em chamas.
O que eu nego que me aconteça,
Ainda assim não deixa de me acontecer.
E o que eu sinto –
E que só eu sei que verdadeiramente sinto,
Quer seja por anos ou instantes –
Está além de censura
E de toda e qualquer opinião.
Eu existo.
Parece-me o bastante.
Resta me tudo, então:
Apenas viver.
