Me perdoes por não olhar-te Como se fosses o prato do dia.
A minha fome não é de comida: Eu preciso alimentar meu coração Dar de comer a minha alma E nada disso se dá Em uma só refeição.
Somos incompatíveis Não porque nos falte afinidade – Que mais do que há, diga-se de passagem – Mas porque o que tens para me oferecer É justamente o que não preciso E o que tenho para te oferecer Soa-te como completa falta de juízo.
Não é uma crítica – Que fique claro – São duas almas buscando um caminho Que vamos seguir como se entre nós Nada tivesse acontecido Até – quem sabe? – tudo acontecer de novo E de novo, e de novo, e de novo, e de novo…
Não preciso de ti para nada E sei que não precisas de mim para nada também.
Somos despretensiosamente voluntários Das longas conversas, Das longas caminhadas, Dos longos abraços, Dos longos beijos, Dos corpos em chamas, Das nossas almas em chamas também.
Sei que tens receio de dizer: “Eu te amo”, E eu tenho também.
Mas se houver verdade nisso, Diante de todos os indícios, Saiba apenas que eu também.
Descobri que és diferente Quando tocaste nas feridas Da minha alma e do meu coração Sem perguntar se as lesões Foram autoinfligidas
Sim… A insistência A carência A teimosia A imaturidade A inocência A vaidade A arrogância O apego O desespero O desamor O pânico O medo A raiva A humilhação A solidão
Eu me feri Eu me machuquei Tudo doeu Muito sangrou
Eu me crucifiquei E nem mesmo de mim me salvei E agora eu sei: Dor não se cura com mais dor.
Descobri que és diferente Porque me mostraste Que posso lamber minhas feridas E seguir em frente Fazer diferente Porque és diferente E diferente – Agora que me lembro Do que eu já fui – Eu também já sou.
Eu me perdoo Eu me abraço E por isso eu sigo em frente.
Longe das palavras, Longe das poesias, Senti na minha boca O cheiro Que somente a ti Pertencia.
Não me dei conta Naquele momento, Naquele lugar, Que as águas Que eu estava A navegar Eram de fato De outra fantasia.
Até que ela me perguntou Se dela eu no futuro Me lembraria, E foi aí que me lembrei De que para ti Também disse Que não me esqueceria.
E na inocente sinceridade Que a ti eu devia Calei a sua boca Como pude Sem qualquer pudor, Inibição, Ou hipocrisia.
Talvez eu a ela Ainda responda Não hoje – Defintivamente não hoje – Posto que o seu mel Da minha boca Ainda escorria Quando fui-me embora Prometendo voltar Amanhã Ou qualquer outro dia.
Entre o esquecer E o lembrar, Minha boca Permaneceu calada, Mas chocou-me Não ser mais teu O cheiro que Inebriava minha alma E somente de ti Verdadeiramente resplandecia.
Quando te perguntarem de onde eu sou, Diga que sou do bar.
Foi lá que nos reencontramos Depois de nos conhecermos Em outro bar, Em algum outro, Mas é como se fosse lá.
Porque lá é minha casa, Lá é meu lar, E você é mais do que bem-vinda E isso eu nem preciso falar.
E não é por ser especial: Lá todo mundo é igual, Todo mundo real, Todo mundo tem nome, Tem sobrenome, Tem histórias para contar – Derrotas e vitórias – E está lá a criar histórias, Histórias nem sempre de lá, Mas que por lá passam, Que muitas vezes lá nascem E muitas vez por lá morrem.
E lá se chora, Se ri, Se fica, Se vai embora, Se ama, Se termina, Se namora, Se troca o telefone, Se telefona, Se desabafa, Se bate foto, Se entrega, Se esquece, Se perde, Se escreve, Se bloqueia, Se declara, Se casa, Se separa, Se afoga.
Um dia, Ainda irei de fraque até lá E ninguém vai reparar, Porque lá cada um vale As suas conversas, Os seus silêncios, As suas lágrimas – Com ou sem maquiagens borradas – As suas gargalhadas, As suas memórias – De novo, histórias – E nada mais.
Quando te perguntarem de onde eu sou, Diga que sou do bar E que tenho muito orgulho de ser de lá.
Me procure Quando o álcool tiver se encarregado De afogar o teu orgulho, Quando teu coração falar mais alto Do que todas as grades a tua volta, Quando sentir que não há saída Porque a porta era só de entrada, Quando a verdade transbordar líquida Pelas linhas do teu rosto, Quando teu peito ficar apertado Pela saudade do que nunca foi pouco, Quando sentir loucamente minha falta Por dentro e por fora do teu corpo.
Me procure quando quiser se achar, Quando resolver viver e ser, Quando decidir se buscar, Posto que já estou bem longe Do quão perto já estive E sozinho, eu já não sei mais voltar.