Avatar de Desconhecido

Quartos não mentem

Na academia,

As máquinas e os alteres simulam

O que a gente não pode fazer no dia a dia.

Agachamentos?

Exercícios aeróbicos em geral?

Relaxa…

A gente já faz isso todos os dias,

Pela casa, pelos quartos – teus quartos –

E morrem de inveja a tua mãe, irmãs e tias.

Avatar de Desconhecido

Marcapasso

Todos os dias ao acordar
Travo comigo diálogos intensos:
O que se tornou o que seria?
O que se tornou o que calhou de não ser?

E fito o céu e fito o mar
Na esperança de encontrar
Nos tons de azul e cinza
Nas nossas cinzas espargidas
Algo que o fogo do tempo
Inclemente
Não tenha lambido
Não tenha transformado em pó.

E reconto nossas histórias
Nossos dias de incólume glória
Para uma plateia de Deus comigo
Na esperança de que Ele
Da vida o grande diretor
Mude o final do nosso filme.

Eu já não deveria mais
Pensar em dizer que te amo
E por mais que tudo seja profano
Eu te amo, eu te amo, eu te amo!

Pode ser que eu esteja condenado
Mesmo sendo inculpado
A ter que conviver para sempre
Com esse lancinante dessabor
Com esse inclemente ardor
De sentir ainda o calor da tua pele
E do teu retumbante coração
Que marca os passos do meu.

Mas se for esse o preço –
O preço do que não tem preço –
Ainda assim eu teria escolhido viver
Milímetro por milímetro
Toque por toque
Do que foi e do que restou
Do que para mim nunca acabou.

Avatar de Desconhecido

Maldade

A saudade bate forte no peito.
Não avisa quando chega,
Mas chega, dizendo que a distância,
Ou mesmo nossa ignorância,
Não são fortes o suficiente para nos separar.

E procuramos no mundo,
Algo que seja forte o bastante,
Para calar nosso desejo,
Nosso amor, nossos beijos,
Nossa dor, nossa solidão.

Mas o amor é implacável,
Invencível, tenaz, inquebrável,
E insiste em dizer, todo os dias,
Nas manhãs enevoadas e vazias,
Nas noites tão frias e baldias,
Como é viver sem nos ter.

Saudade,
Sim! Muita saudade,
De tudo o que fomos,
Pois o que somos
É pouco, muito pouco,
Quando dizemos que o amor está morto,
Muito antes dele morrer.

publio_siro_ninguem_pode_fugir_ao_amor_e_a_morte_xw6g3k.jpg

Avatar de Desconhecido

Meia culpa

Há um par de meias tuas
Na gaveta de meias minhas.

Não ouso toca-las.
Finjo que não as vejo.

É assim que lido com nossas meias coisas
E tudo mais que ficou pelo meio.

Avatar de Desconhecido

Se algum dia eu deixar de te amar

Se algum dia eu deixar de te amar,
Meu grande amor,
Saibas que serás a primeira a saber.

Dói-me pensar nisso,
Mas é porque contigo penso em tudo,
Por mim e por ti.

Se todo este amor que sinto,
Se toda esta paixão que me aquece,
Um dia for embora, acredite:
Eu serei o primeiro a por isso sofrer.

Porque não está e nem nunca esteve
Nos meus planos mais sinceros
Deixar de te amar, de te ter,
Ainda que isto possa acontecer.

E digo essas palavras
Sem antever nada disto!

Não se trata de um aviso ou algo parecido.

É apenas uma declaração de amor invertida,
Dorida…
Sofrida…

Porque no dia em que eu deixar de te amar,
Não serei mais digno de tua presença,
E serei forçado a me retirar da tua vida,
Mas não sem antes me despedir.

Não fugirei do meu dever de dizer
Que não mais te amo.

Não deixarei que saibas por terceiros
O que sinto ou deixei de sentir.

Porque hoje és a minha vida,
E ainda que um dia deixes de sê-la,
Também eu deixarei de ser
A minha parte que só em ti e por ti existe.

Se algum dia eu deixar de te amar,
É porque parte de mim mataram
Ou parte de mim morreu.

Avatar de Desconhecido

Os versos que te dou – J. G. de Araújo Jorge

Ouve estes versos que te dou, eu
os fiz hoje que sinto o coração contente
enquanto teu amor for meu somente,
eu farei versos…e serei feliz…

E hei de fazê-los pela vida afora,
versos de sonho e de amor, e hei depois
relembrar o passado de nós dois…
esse passado que começa agora…

Estes versos repletos de ternura são
versos meus, mas que são teus, também…
Sozinha, hás de escutá-los sem ninguém que
possa perturbar vossa ventura…

Quando o tempo branquear os teus cabelos
hás de um dia mais tarde, revivê-los nas
lembranças que a vida não desfez…

E ao lê-los…com saudade em tua dor…
hás de rever, chorando, o nosso amor,
hás de lembrar, também, de quem os fez…

Se nesse tempo eu já tiver partido e
outros versos quiseres, teu pedido deixa
ao lado da cruz para onde eu vou…

Quando lá novamente, então tu fores,
pode colher do chão todas as flores, pois
são os versos de amor que ainda te dou.

(Do livro “Meu Céu Interior” – 1934)

Avatar de Desconhecido

Se voltares – por Rogaciano Leite

Como o sândalo humilde que perfuma
O ferro do machado que lhe corta,
Hei de ter a minh’alma sempre morta
Mas não me vingarei de coisa alguma.

Se algum dia, perdida pela bruma,
Resolveres bater à minha porta,
Em vez da humilhação que desconforta,
Terás um leito sobre um chão de pluma.

E em troca dos desgostos que me deste
Mais carinho terás do que tiveste
E os meus beijos serão multiplicados.

Para os que voltam pelo amor vencidos
A vingança maior dos ofendidos
É saber abraçar os humilhados.

Avatar de Desconhecido

Eu, peregrino

Só temos o agora,
Deixa a ansiedade lá fora,
Deixa vir o destino.

Quiçá ele é nosso?
E é justamente por isso
Que eu não procrastino.

Ainda que só por hoje,
Teu ventre é o cálice
Para onde eu peregrino.

Na pior das hipóteses,
Memórias, histórias,
Desvairado desatino.

Avatar de Desconhecido

De centavo em centavo…

Para cada 10 centavos de afeto que dava
Guardava 1 centavo para si
Até que um dia se deu conta –
Pediu as contas –
E disse:
– Meu Deus! Como sou rico!

Avatar de Desconhecido

Euforia

Entre as bolhas que murmuram
Na taça de espumante,
Vejo completamente nua
A minha alma e a tua.

Lembro-me do correr dos hojes:
Dos momentos,
Das conversas,
Do sol,
Dos ventos,
Dos aceites,
Das entregas…

No silêncio,
Ouço as bolhas do espumante
Mais ainda murmurantes,
Explodindo em meus ouvidos,
Chamando-me para aceitar o sentido
De tudo que vem acontecendo.

E agora,
Diante da taça vazia,
Aninho-me a teu corpo
E deixo-me ir
Para o amanhã,
Onde lutaremos pelo pão –
E por tudo mais que nos for
Essencial, verdadeiro e necessário –
De cada dia.

E desta vez, que nem tudo se exploda,
Só do espumante as infinitas bolhas:
Bolhas de alegria, alegria!
Posto que tu és revigorante euforia.