É estranho ver uma estranha Que já foi tão próxima. É estranho não saber nada De quem já se soube tudo. É estranho sentir essa estranheza, Essa completa falta de conexão. É estranho reconhecer as feições, E ainda assim achar que é um vulto. É estranho que tudo seja estranho, Onde o amor já desfilou toda sua grandeza.
É estranho.
Eu, estranho.
Você, estranha.
Nós somos estranhos E ao mesmo tempo, Não somos mais nada: Sequer nos estranhamos.
Os copos e os pratos ficaram sobre a mesa, porque voltaríamos para terminar o jantar. Nunca mais voltamos.
A comida, agora fria e fedorenta, terá como destino o lixo. Um desperdício diante da fome do mundo, da nossa fome em particular.
Os finais são sempre tristes. Final feliz talvez seja só a morte, porque este acaba de uma vez com toda e qualquer possibilidade de se conviver com outros finais tristes.
Mas ainda assim a morte é um final triste, porque mesmo a vida mais triste de todas, está permeada de momentos que são felizes. Incríveis. Inesquecíveis.
E talvez o amor seja justamente o espaço entre um final triste e outro. O lugar onde a comida ainda está quente e o vinho ainda não virou vinagre. Tudo no ponto e na temperatura certa. Mesa posta e exposta.
E hoje, quando lembro do nosso final triste, lembro dos momentos de amor que foram felizes. Não foram poucos. Eles eram e existem, e insistem em fazer graça, em me fazer sorrir, ainda que seja um sorriso triste.
E vou seguindo em frente, sendo feliz aqui e ali, torcendo para nunca mais ter que viver um final triste, muito embora eu saiba que essa é uma possibilidade que não existe.
Há tantas poesias e tantas memórias, Tantas histórias que fazem o fim Não ter fim.
E eu tinha medo disso. Medo de ser consumido pelo passado, Pelas recordações, Pelos momentos muito mais do que felizes Que vivemos juntos.
Hoje, não mais.
Aprendi tanta coisa, Experimentei tanta coisa, Vivi tanta coisa boa, Cresci tanto a teu lado… Como posso ignorar isso?
O fim foi estranho – Sabemos disso. Foi um fim sem fim, E assim, precisei criar um, E nele você foi abduzida por ETs.
Talvez eles estejam fazendo experimentos E estudando o seu DNA, Mas os ETs gostaram tanto de você – Feito eu – Que decidiram não te devolver. Eu também não devolveria, Confesso.
Talvez você esteja me vendo de onde está, Mas isso não importa. A menos que os ETs tenham lavado sua memória, Sei que lembra das coisas como eu me lembro, E isso que é o importante: Mesmo ausente, ser presente na vida de alguém.
Que os ETs cuidem bem de você. Você merece e sim, eu sei: Você não é mais do meu mundo.