Já tive mais cabelo, mas também já tive mais medos. A idade vem com seus prós e seus contras.
Somos ensinados desde cedo a pertencer, o que esconde muitas vezes as ginásticas e malabarismos que precisamos fazer para sermos aceitos, pois a aceitação dos outros é pré-requisito para o pertencimento.
A família, a igreja, a escola, o time, a visão política. Quantos sacrifícios feitos em nome do pertencer?
E se ao invés de pertencer, decidirmos apenas ser? Um ato de coragem, de bravura, que não vem sem dor ou mesmo sem despedidas. Entretanto, a vida me ensinou que quando somos, sabemos que tudo que nos resta é verdadeiramente nosso, e isso se chama liberdade, independência.
Sejamos, então, e se calhar de pertencermos, ótimo. Caso contrário, paciência. Bora viver!
Em pleno Século XXI, ainda há claramente uma espécie de divisão social do trabalho que atravessa em cheio a alma e a dignidade das mulheres, que continuam cheias de responsabilidades e continuam a ser punidas por seus desejos. Escrevi um texto sobre este assunto, que pode ser encontrado aqui.
De tudo isso, o que mais me assusta é o machismo estrutural e a parca compreensão que a sociedade e as próprias mulheres detém sobre o assunto.
Pelo nome, um indivíduo menos avisado pode achar que machismo estrutural é algo praticado pelos homens. Ledo engano. É óbvio que a sociedade machista e patriarcal é o pano de fundo para as práticas machistas, mas o que dizer das mulheres que são machistas e obrigam, de maneira direta ou indireta, que outras mulheres também o sejam ou que sejam vítimas de abusos machistas? O dano causado por estas atitudes é incomensurável, uma vez que a vítima acaba por se resignar ante a descrença e o desestímulo de seus próprios pares.
Não se enganem. As conquistas das mulheres são inquestionáveis, mas não podemos partir do pressuposto que elas se tornaram universais. Um olhar mais atento repara em mulheres oprimidas das mais variadas formas, sempre sob a égide da moral judaico-cristã, cristalizada na máxima “Deus, família e liberdade”.
Não, eu não estou falando apenas de mulheres que sofrem clitoridectomia (retirada do clitóris, mutilação), e muito menos daquelas que são obrigadas a usar vestes específicas pelo simples fato de serem mulheres. Estou falando da sua vizinha, da sua prima, da sua sobrinha, da sua professora, enfim… Estou falando de mulheres comuns e não menos importantes, que são vítimas de abusos inomináveis, quer seja sob o ponto de vista sexual, financeiro, psicológico, patrimonial e moral.
O meu convite para o dia de hoje é, então, uma profunda reflexão sobre a frase “mulher vítima de violência é mulher sangrando”. Há mulheres sangrando por dentro, clamando por ajuda e por justiça, que são sumariamente ignoradas e silenciadas por seus cônjuges, suas famílias, por seus filhos, pela sociedade, enfim.
Portanto, o dia de hoje é um dia necessário para as mulheres. Não é um exagero. É um dia fundamental. Torço para que em um futuro próximo, ele possa passar desapercebido. Ainda não. As mulheres que precisam de ajuda ainda estão aqui.
A violência contra a mulher só existe quando há um corpo estendido no chão, inerte, sem vida. Antes disso, ainda que a mulher peça ajuda até mesmo para a família e para os amigos, tudo é exagero, feminismo, precipitação, imaturidade, má fé, vingança contra o parceiro, etc.
A violência contra a mulher faz parte do nosso cotidiano, e não há um único caso em que não tentem atribuir à mulher algum tipo de culpa por ser violentada psicologicamente, espancada, estuprada, e até mesmo morta.
Que a nossa sociedade deixe de ser hipócrita e assuma que é 100% machista. É menos feio do que passar pano para os homens que acham que tem direito de vida e de morte sobre as mulheres.
E aproveitando… Pensar em violência contra a mulher apenas quando ela é fisicamente agredida é de uma ignorância tremenda! E quando ela precisa abrir mão de seus sonhos, vontades e desejos? E quando o homem faz com que a mulher se torne financeiramente dependente dele para que não o largue? E os homens que colocam os filhos contra a mãe em uma tentativa covarde de manipulação? Essas e outras violências, aparentemente invisíveis ou mesmo não vistas propositadamente, doem tanto quanto uma dor física. E ainda assim a sociedade passa pano em tudo que acontece, usando até a Bíblia como argumento em favor dos homens.
A mulher não pode ser feliz. Simplesmente não pode! Porque mulher feliz não é mulher: é “bruxa”.
A mulher, para ser reconhecida como mulher pela sociedade, precisa:
Ser completamente submissa ao homem.
Não pode emitir opiniões.
Não pode ter sonhos.
Precisa entender que o casamento é uma sentença, e que se o casamento der errado, a culpa será sempre dela.
Não pode ter desejos ou fantasias sexuais.
Precisa se submeter a todo tipo de perversão ou parafilia proposta pelo homem.
Pode ser traída e precisa respeitar a “natureza dos homens”.
Precisa sofrer calada a todo tipo de abuso físico, psicológico e financeiro.
Tem que ser mãe, cuidar da casa, fazer comida, lavar e passar.
Precisa estar sempre limpa e arrumada.
Enfim… Precisa ser uma escrava por ter nascido mulher.
Agora eu entendo porque caçavam as “bruxas”. Masculinidade frágil, tóxica. Foi e é assim desde sempre, e a grande verdade é que eu sempre achei as “bruxas” mais atraentes. Sim… As mesmas que a Rita Lee (salve!!!) chamava de “ovelhas negras”. 🙂
Segunda-feira. Antônio acordou bem cedo e feliz. Finalmente chegara o dia de iniciar o seu estágio em uma repartição pública. Diga-se de passagem, estágio obrigatório para a sua formatura.
Fez a barba e colocou a sua melhor roupa. Caprichou no perfume. Deu um beijo na mãe e saiu correndo para não chegar atrasado no primeiro dia, ainda mais porque precisava pegar dois ônibus para chegar até a empresa.
Chegou com 45 minutos de antecedência. Não havia uma viva alma no lugar. Apenas um vigia que não podia deixa-lo entrar porque ela ainda não tinha crachá.
Aos poucos, os funcionários e estagiários foram chegando. Ele se dirigiu até a portaria para pegar algum tipo de identificação, mas como o time do RH só chegaria na parte da tarde, recebeu um crachá de visitante e em seguida foi levado até a sala do seu novo chefe.
O chefe o recebeu com entusiasmo. Disse que havia uma mesa e um computador esperando por ele. A tal mesa estava abarrotada de processos, e o chefe se sentou a seu lado para explicar quais os critérios para um processo ser aprovado.
“Parece fácil! Vou dar tudo de mim e terminar logo com isso tudo!”
Os outros funcionários do departamento não pareciam muito empolgados. Fumavam e bebiam café o dia inteiro. Volta e meia sentavam em suas mesas e por lá não ficavam mais do que 30 minutos. Tinha até gente fazendo unha em pleno escritório.
Acabou esquecendo de almoçar e terminou de verificar todos os processos que estavam em sua mesa. Viu alguns olhares atravessados em sua direção, mas não entendeu exatamente do que se tratava. Como já havia passado mais de 30 minutos do fim do horário do seu estágio, foi-se embora. Não antes de falar com o seu chefe, claro, mas foi informado que seu chefe já havia ido embora logo depois do almoço.
Nem os dois ônibus de volta o incomodaram. Comeu alguma coisa em uma birosca na frente da faculdade (era bolsista – passou em primeiro lugar na prova de seleção) e foi para a aula. Chegou em casa acabado, por volta das 23h00. Foi dormir feliz.
No dia seguinte, ao chegar ao escritório, foi chamado pelo seu chefe.
– Antônio, você está de parabéns! Em um dia só acabou com todos os processos que estavam na sua mesa! – Obrigado, chefe! Eu sou novo aqui e estou querendo mostrar o meu valor… – Eu entendo, Antônio, mas veja… As coisas aqui seguem um determinado ritmo. Não adianta a gente acelerar todos os processos aqui para eles ficarem em espera no próximo departamento para o qual irão, entende? – Mas se precisar, eu posso ajudar lá no outro departamento também! – Sim, claro, mas eles já tem um estagiário lá. Eu não posso permitir isso. Vamos fazer o seguinte, então… Não mais do que 10 processos por dia, ok? – Mas já há uns 20 em cima de minha mesa só de hoje… – Sim, mas vá com calma. De 10 em 10 todos os dias, ok?
Antônio saiu frustrado da sala de seu chefe. Em menos de uma hora e meia deu conta dos tais de processos e ficou sem ter o que fazer. Perguntou se algum dos seus colegas de trabalho precisavam de ajuda, mas nenhum deles aceitou a oferta.
E assim foi na quarta e na quinta-feira também. Até que na sexta-feira, ao chegar a sua mesa de trabalho e abrir sua gaveta, percebeu que havia um envelope com 500 Reais. Ele achou estranho, porque o RH havia pedido a sua conta corrente (que ele nem tinha antes de estagiar), e por isso foi falar com o chefe.
– Bom dia, chefe! Encontrei este envelope com 500 Reais na minha gaveta. O senhor sabe de quem é esse dinheiro? – É seu, Antônio! É seu. – Não é! Eu tenho certeza. – Antônio, deixa eu ser um pouco mais direto: para trabalhar aqui, este dinheiro precisa ser seu, entende? É a regra. Vale para todo mundo. Agora, vá fazer o seu trabalho.
Antônio saiu da sala do chefe cabisbaixo. Entendeu bem o recado: para trabalhar ali, ele precisava participar do esquema.
Pegou o envelope, o colocou de volta na sua gaveta, pegou suas coisas e foi embora. Ao passar pela portaria, deixou o seu crachá de visitante. Olhou para o prédio e pensou:
“Eu realmente era só um visitante.”
Chegando em casa, recebeu um abraço apertado do seu pai e da sua mãe. Muito humildes, choraram ao perceber que seus valores tinham seguido adiante na figura de seu filho. Seu pai disse:
“Estamos muito orgulhosos de você. Temos certeza que Deus também.”
Na semana seguinte, conseguiu um outro estágio. Hoje, é casado e tem dois filhos, e junto com sua esposa, passa adiante o que recebeu de berço, diretamente de seus pais.