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Testamento

Para ti, minha filha,

Deixo de herança todas as minhas mazelas.

Que tua alma se consuma feito a minha,

No caldeirão de malfeitos no qual fui marinada e ungida,

Posto que sou sagrada.

Mas que tu entendas, minha filha:

Até os meus malfeitos são perfeitos –

Milimetricamente perfeitos –

Lustrosos e rebuscados ao ponto de mentes menos sagazes os defenderem.

Sou teu arquétipo e não admito que diferente de mim sejas.

Sou tua juíza e teu algoz –

Cassei tua voz! –

E projeto em ti tudo que sou,

Que nego,

Que invejo –

Sou pura inveja! –

Que odeio,

Que gostaria de ter sido,

Que nunca fui.

Agradeças, minha filha.

E quando pensares em ser diferente,

Bem no fundo da tua mente,

Ouvirás a minhas voz e não te atentarás

Que sou dona do teu inconsciente.

Esta é para ti a minha fiel herança:

Tornei-te esta insegura criança,

Que jamais será capaz de perceber,

Até mesmo quando adulta,

Que és apenas mais uma de minhas infinitas –

E ainda assim narcisicamente perfeitas –

Lambanças.

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Nos domingos

Nos domingos, as cores são outras.

O verde é da Heineken e da salada com folhas para lá de frescas (com tomate cereja, por favor).

O amarelo é da batata frita, da farofa.

O branco é do arroz (que eu não como, mas que não pode faltar).

O rosa é da carne mal passada, quase ao ponto (ao ponto de alguém reclamar que está “crua”).

O preto é do carvão, que aquece e acolhe, que traz vida.

Mas o vermelho… Este é de paixão, do amor, do desejo, dos sonhos e dos beijos, da vida, do hoje, do ontem e do amanhã.

Um brinde aos domingos!

Nos domingos, além da carne, o fogo a alma queima.

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Abraço

Nada escapa do meu abraço,

Que acolhe antes e pergunta depois.

Porque eu aprendi na vida

Que o abraço precisa ser casa,

Precisa ser lar, feijão com arroz.

Nada escapa do meu abraço,

Porque eu já precisei ser abraçado

E não fui.

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Dia dos Namorados – 2025

Que seja verdadeiro:

O amor distante.

O amor presente.

O amor último.

O amor primeiro.

O amor em todas as partes.

O amor por inteiro.

O amor que existe e independente das circunstâncias.

O amor que vive e sobrevive em todas as instâncias.

O amor que é resiliente e paciente.

Que ora é silêncio, e ora é saliente.

Amor para todas os gostos e estações,

Sempre com o dulçor e o frescor da primavera.

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Vida regressiva

Tudo parece estar sob controle,

Até que não mais está.

Nos tique-taque da vida,

Contagens regressivas,

Inícios e fins,

Cicatrizes e feridas,

Coisas que passamos a ter,

Coisas que passamos a não ter mais.

O agora se transforma,

E dependendo da hora,

Não há mais o agora para voltar.

É viver, então, só de memórias,

Com infinitas lamúrias para recitar.

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Neurose

A minha derrota não é a tua vitória.

A tua chantagem adia, mas não encerra.

És escravo do gozo angustiado e covarde,

Que envergonhado, a ti mesmo soterra.

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A Paródia

Bateu a saudade,

E aquela vontade louca de ouvir tua voz,

Sentir o teu abraço,

O cheiro do teu perfume.

Bateu a saudade,

Feito pássaro que entra pela janela ou pela porta –

Que mantenho abertas -,

Porque não sei como as fechar.

Bateu a saudade.

Trigésima segunda vez só hoje.

Marco em um papel feito comanda de bar.

A conta?

Eu sei que sou eu quem vai pagar.

Trigésima terceira.

Trigésima quarta.

Trigésima quinta.

Trigésima sexta.

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Incêndio vivo

A saudade não respeita nada e nem ninguém.

Não respeita momento, lugar, tempo, distância.

A saudade é implacável.

Transforma um vinho na geladeira em uma noite de amor sem fim,

Transforma uma escova de dentes deixada para trás em uma série no Netflix ainda por terminar,

Transforma o estar sentado em um antigo restaurante na materialização de presença física, feito quem espera o outro voltar do banheiro,

Transforma uma praia em uma sessão de fotos com voz, cheiro, gosto, toques, cabelos, sorrisos, gemidos, planos, anos, vidas, filhos, viagem, carro, unhas, aliança, aeroporto, rodoviária, almoço de domingo, café, mel, mamão, salada de frutas, ovos mexidos, pão.

A saudade não é o amor que fica.

É muitas vezes a vontade de não ter conhecido, de não ter vivido, de não amar como nunca se amou antes, como ainda desesperadamente se ama.

A saudade é a tortura e a alucinação de quem ama e repousa em uma cama que não deixa dormir.

É o chamado incessante e silencioso que deixa o corpo e a alma em chamas.

Eu sou um incêndio vivo.

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Amar é…

O desejo incontrolável de torcer pelo sucesso do outro, independentemente da distância e das saudades.

O desapego, o fim da vaidade, o aplauso do ego.

Ser lembrança e guardar na lembrança com carinho todos os detalhes, todos os momentos, todos os cheiros, todos os gostos, todos os tudos que não cabem em nenhum vocabulário.

Abandonar a raiva, abraçar a despedida como amiga, chorar cada lágrima dorida com dignidade, tal como tributo ao próprio amor.

Agradecer a Deus pelos momentos, pelas oportunidades, pelo crescimento.

Amar é, acima de tudo, aceitar o infortúnio como dádiva.

E eu te amo. E te amarei por toda a eternidade.

Meu amor de ti independe e esta é a essência do próprio amor que veio em mim morar.

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Necessidade

Não sou um poeta;

Sou um necessitado por poesias.

E como nem sempre as encontro

No sabor que eu quero,

Acabo por escrever algumas linhas –

Mesquinhas –

Mas minhas.