Me conta tudo que eu nunca quis ouvir Me deixa te sentir por completo Em todas as partes do meu corpo Em todas as minhas células Pulsando pelas minhas veias Não tenha dó de mim!
A noite avança Com suas sutis rudezas: Nada é pouco Tudo é muito Talvez mais do que muito Ainda que não seja o bastante Para me fazer desabar em meu leito
O sono… Esse meu amigo traiçoeiro Que de mim foge de vez em quando É também fiel conselheiro: Fatos sobrepõe-se a sentimentos E desmascaram fantasias e luxúrias de noites opacas Rasgadas e devassadas por realidades translúcidas Onde todos os meus tolos e inocentes devaneios São partidos ao meio
Mas também é na madrugada Que sempre sou mais meu E hoje – Mais uma vez – Durmo acompanhado Vamos passar a noite inteira acordados Nus, amarrados e abraçados – Pura honestidade – Só a minha raiva e eu.
Em 2001 ou 2002 (não lembro ao certo), eu alugava uma vaga de garagem que pertencia a Associação Brasileira de Sommeliers. A vaga ficava no mesmo edifício comercial em que eu trabalhava, e como a empresa para a qual eu trabalhava pagava o aluguel, melhor impossível.
Pelo menos uma vez por mês eu tinha que ir até a sala da ABS para pagar o aluguel e depois pedir o reembolso. Numa dessas, me deparei com um coquetel. Como eu estava de terno, parecia um convidado, mas na realidade eu só estava mesmo é cansado e louco para chegar em casa.
Após efetuar o pagamento, um senhor muito educado que eu não conhecia se aproximou de mim com uma taça de vinho, me oferecendo. Eu disse que estava de estômago vazio (não bebo de estômago vazio), e ele me ofereceu uns canapés. Aceitei. Bem gostosos por sinal.
Conversamos não lembro sobre o que, e ele insistiu para que eu provasse o tal vinho. Provei. Sabe quando você acha algo uma bosta? Pois bem… Ele me perguntou o que eu tinha achado, e eu gentilmente disse que não era exatamente algo que eu consumiria habitualmente. E então, ele soltou a seguinte pérola.
“É que seu paladar ainda não está preparado para apreciar bons vinhos.”
Bebi o que restava na taça para não fazer desfeita, e discretamente fui embora. Comprei uma Coca-Cola em uma lojinha que ficava embaixo do prédio e fui para casa.
No trajeto, pensando sobre o acontecido, aprendi a lição: se eu preciso me preparar ou ser preparado para dizer que uma coisa é boa, essa coisa não serve para mim. Eu tenho meus gostos, meus valores, minha personalidade, meu caráter. E se isso significa que devo caminhar sozinho em determinados momentos, estarei em excelente companhia.