Talvez seja melhor calar-te
Com um pedaço de mim
Ocupa-te
Há trabalhos a fazer
E não aceito
Mal feitos
O pagamento?
Quentes rios:
Invado-te
Conquisto-te
Domino-te
Ocupo-te.

Talvez seja melhor calar-te
Com um pedaço de mim
Ocupa-te
Há trabalhos a fazer
E não aceito
Mal feitos
O pagamento?
Quentes rios:
Invado-te
Conquisto-te
Domino-te
Ocupo-te.

Passei um tempo
Olhando para baixo
Cabeça arriada
Olhos amoados
Sorriso dormente
Peito apertado
Pés no chão
Passei um tempo assim
Tomando coragem
Fazendo cara de paisagem
Com receio de encarar a verdade
Foi um tempo que me dei
Tempo que eu precisava
Para me dar conta
Que o horizonte
Que eu conhecia
Era por mim desconhecido
Eu era uma piada pronta
E de mim só Deus não ria
Salvou-me a fé
E a vida continua
Meus olhos fixos no horizonte
Que ainda hoje desconheço
Mas reconhecer a minha ignorância
Já me parece um grande recomeço.

Olha
Aceita
Encara
Repara!
Repara em quantos dias nós já perdemos
Torcendo para que os dias que já perdemos
Não sejam tão muitos
Repara no que não dissemos
No que não vivemos
No que não mais somos…
Ah, meu amor…
Repara!
Porque a vida não para
Estamos cobertos por escaras
E nossos corações jazem intranquilos.

Eu sou
O que está por detrás
Das portas que não abro
O que não encaro
Nas janelas que embaço
As músicas que não escuto
Os petiscos que não degusto
Os vinhos que não abro
As conversas que não tenho
Os sentimentos que ignoro
E tudo mais que disfarço
Eu estou
Sem sede
Sem fome
Entalado
Mofado
Abismado
Atordoado
Disperso
Possesso
Compresso
Inconfesso
Puto!
E mais nada
Eu estou
O reverso
Eu estou
Ao contrário
E diante
Desse corolário
Eu estou morto
Mas esse óbito –
Valha-me, Deus! –
É temporário.

Todos nós temos histórias tristes para contar, até mesmo os que são felizes. Porque não são as nossas histórias que definem se somos felizes ou não, mas sim como nós contamos (até para nós mesmos) estas histórias.

Quando olho para meu passado
Percebo os momentos exatos
Em que fiz demais
Tentei demais
Falei demais
Demais…
Não mais!
Porque quem eu era
Já não mais sou
Mas ainda sou
E ainda sinto
Sinto muito
Ademais.

Admiro tanto os poetas
Ao ponto de não me considerar um
Leio coisas que me desnudam
Que desnudam os outros
Métricas, rimas
Tudo perfeito
Nem mais, nem menos
As coisas como são
Mas eu não sei como são as minhas coisas
Só sei que são
E talvez ser poeta seja isso –
Não sei –
Falar das coisas como as vejo
Como as sinto
Como com elas pelejo
E esse meu esforço pagão
Há de fazer sentido
Na vida, em algum vão perdido
Das minhas coisas como são
É uma forma de dizer –
E como eu preciso dizer –
Não sou em vão!
A vida não precisa ser dura –
Mas ela será dura –
Enquanto não for madura.

Não consigo entender como uma partida de futebol ou mesmo a decisão de um campeonato justifiquem as aglomerações em casas e bares. Não consigo. Essas atitudes não tem a ver com os políticos. Tem a ver conosco enquanto seres humanos. Qual bem pode ser mais precioso do que a vida? Discutam política. Encontrem culpados. Esbravejem. Só não se esqueçam de se olhar no espelho. Espero que tenham a coragem de fazer isso.
