Não demorou…
Maturou
Cresceu
Vingou
Aconteceu
Refez-se
Fez-se
De novo
Outra vez
Não demorou…
E por isso chegou
De uma vez.

E ela que veio naturalmente
E casualmente se despiu
Ficou nua, nuíssima de alma
Coisa bonita assim nunca se viu
Mas ela insiste em andar vestida
E isso só sabe quem nela já viu
A pujança de seu coração petulante
Que desde sempre me sorriu
E entre as fugas das lembranças
E na presença do que não partiu
Foge de si mesma feito criança
Feito flor que ainda não se abriu
Mas a verdade insiste em mostrar-se
Nos detalhes em que na vida não fingiu
Que rondam sua mente tortuosamente
Na saudade do que ainda nem existiu
E nesses versos sinceros e ritmados
Feitos da sina do qual nunca fugiu
Ri para si mesmo o perspicaz poeta
De quem se foi e nunca partiu.

As pernas –
E que pernas! –
Enlaçam-me em vôo cego,
Sem destino ou pretensão.
Deixo-me ir…
Não me culpo:
Acabei por dizer que sim
Depois de tanto ouvir que não.

E do muito que eu já tinha
Dei-te tudo
Mas é assim que é no amor:
Sempre –
Sempre! –
Se sai com mais
Com muito mais
Do que se tinha antes.

E sentado rente ao mar
As idéias ali defronte
Indo e vindo em espasmos
Em ondas e ventos
Que se misturam e se atormentam
Distorcendo o horizonte
Jazo imóvel:
Coração que sangra impecável
Diante do destino incerto
E da ferida desnecessária
Ignóbil
E me vejo naufragando
Nas poças que gero eu mesmo
Na esperança
Que se faz de desentendida
Feito quem acredita
E nunca alcança
Mas salva-me o vinho
Meu bom companheiro
E traz-me algum tipo
De ébria pujança
Que faz despir-me de mim mesmo
E perceber que ainda sou
Absoluta verossimilhança
E bem ao fundo
Diante do todo que se cala
Porque se declara mudo
Ouço todos os detalhes
E o quanto
Ainda acredito
Apesar dos pesares
Nas coisas boas deste mundo
E ainda sentado rente ao mar
Eis que as ondas cessam
O sol se abre
E a miudeza desaparece:
Foi só um susto –
Declaro –
E agora já não me desconheço
Porque sou e quero o mesmo de sempre
Por fora
Ou mesmo quando estou do avesso.

Há gente que não vai morrer nunca,
Porque para morrer
É preciso estar vivo.
E você?
Tem vivido?

Eu não te dei asas;
Tu já as tinha.
Talvez dobradas,
Amarrotadas,
Mas contigo já estavam.
Eu não te dei sorrisos;
Tu já os tinha.
Talvez acabrunhados,
Pensando-se exagerados,
Mas contigo já estavam.
Eu não te dei suspiros;
Só ajudei-te a desengaiola-los.
Eu não te dei prazeres;
Só ajudei-te a vivencia-los.
Eu não te dei nada,
Porque de fato era do nada que precisavas.
Só olhei-te com os olhos e lentes do amor,
E de dentro do teu coração,
Estas e milhares de outras sementes brotaram.

Por ora, moça,
Enxuga teus olhos e vai.
E mais adiante,
Quando estiveres menos ofegante,
Espero que entendas
Que a vida se esvai
Nas pequenas doses de morte
Que ingeres a todo instante.
O sim e o não –
Não ditos –
Mau ditos…
Malditos!
Cansativos
E maçantes.
E teus olhos,
Hoje opacos e distantes,
Sequer relembram os olhos de outrora,
Quando descobriste que eras –
Ainda que por lapidar –
O mais lindo dos diamantes.

Há coisas que são só para os olhos
E há aquelas coisas
Que ousam –
Que pousam! –
No ventre,
No útero,
No nascer,
No adeus,
Em Deus,
Há coisas –
E de todas essas coisas –
Há o grito,
Calmo ou aflito,
Onde te penumbro,
E nunca te ofusco.
Há luz,
Há verdade,
Há claridade
Na cerca que não cerca,
No abraço que não prende,
Na doença que não e moléstia,
Na ausência que é presença
Farta e certa.
E tudo
No momento certo,
Quer seja no coração que sangra,
Ou no que o orgulho lacra –
Aberto! –
Renasce por suas próprias forças,
Posto que o amor
Ressurge e urge
No presente fingido,
Cujo futuro –
Decerto –
É comunhão,
Entrega,
Vida,
Sublime abnegação,
Água no deserto.

Entre tantos parapeitos,
Por que escolheste pousar justo neste?
Justo nestas janelas,
Nas minhas janelas,
Que para mim eram só mais umas janelas –
Entre tantas outras –
De onde eu via o mundo,
E de onde eu não imaginava
Que tu me vias.
Abriste meus olhos –
Sim, as tais janelas –
E enxergou-me por dentro,
Enquanto eu sorria do lado de fora.
Deixei que o fizesse sem pressa –
Mas também sem demora –
Porque eu não saberia descrever
Tudo que dentro de mim ficou
E nunca foi-se embora.
E desde então,
Minhas janelas seguem abertas para o mundo,
Em todo e qualquer segundo,
E de todo e qualquer jeito.
Pois sempre que pousas
No meu parapeito
Convido-te a entrar
Para repousar,
E para te aninhar
Bem dentro –
No centro –
Do meu peito.
