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As Dores do Sono ou The Pains of Sleep

“Long story short”, há uma música do Iron Maiden, do álbum Powerslave, chamada “The Rime of The Ancient Mariner”, que faz 2 citações a um poema homônio escrito por Samuel Taylor Coleriedge, até então apenas um desconhecido por mim.

Como a curiosidade é meu forte, resolvi saber mais sobre esse “doido”. E esse “doido” era nada mais nada menos que um dos mais importantes escritores da literatura romântica inglesa, sendo considerado por muitos o seu “pai”, digamos assim.

E então, saí fuçando suas obras. Como o inglês utilizado é bem complexo, formal e de época, entender as obras dele foi trabalho pesado. Fui lendo, aprendendo, e indo em frente, cada vez mais impressionado com sua maneira de escrever e a beleza de seus textos.

Um belo dia, na sala de espera de um consultório médico, me deparo com uma “tradução”, ou melhor, uma adaptação livre de uma das poesias de STC para o português! E onde estava essa adaptação? Em uma revista “Caras”! Não sei quem é o autor, mas não só capturou a espinha dorsal do poema, como também o fez ficar lindíssimo em português, algo dificílimo em uma tradução.

Então, sem mais delongas, a versão dele em português, seguida da versão em inglês. No final, vou deixar alguns links para os mais curiosos, incluindo um link para a música do Iron Maiden.

UP THE IRONS! (para não perder o costume)

As Dores do Sono

Antes de no meu leito repousar,
Não tem sido meu hábito rezar
Movendo os lábios em genuflexão;
Mas em silêncio, sem afobação,
Disponho o espírito ao Amor aberto,
Na humilde fé as pálpebras aperto,
E com reverencial resignação
Nenhum desejo ou pensamento expresso –
Somente um senso de suplicação;
E, apesar das fraquezas que confesso,
N’alma um senso de benção fica impresso,
Pois sinto dentro, em volta, em tudo mais,
Saber e Força que são eternais.

Ontem à noite, entanto, rezei alto
Com angústia e agonia – uma tortura! –
Sob as formas e idéias em assalto
De multidão diabólica e perjura:
Lúrida luz, tirânica coorte,
Senso de culpa sem qualquer suporte,
E só o que desprezo, sempre forte!
Quer vingança a vontade ineficaz,
Ainda frustrada, ainda a arder sem paz!
Às repulsas misturam-se os anseios,
Fixados em objetos rudes, feios!
Fantásticas paixões! Louco furor!
Tudo no opróbrio, tudo no terror!
Expunha ações que eu ocultar devia,
Sem distinguir sequer, de tão confuso,
Se era eu que as praticava ou as sofria,
Pois tudo era remorso, dor, abuso;
E, meus ou de outros, eis na mesma lida
O pejo que à alma afoga, o horror que afoga a vida.

E assim duas noites: e a melancolia
Com seu torpor contaminava o dia.
O sono, larga benção, era então
A desgraça pior da disfunção.
Dei, na terceira noite, horrendo grito
Que me acordou desse íncubo maldito,
E, em estranha e cruel desesperança,
Chorei como se fosse uma criança;
E tendo assim com pranto conduzido
A minha angústia a um grau menos dorido –
Tal castigo – disse eu – fora adequado
A uma alma mais manchada de pecado,
Que turbilhona sem cessar o centro
Do inferno imensurável que tem dentro;
Que, ao contemplar o horror das ações más,
Sabe e abomina, mas deseja e faz!
Essas dores convêm a uma alma assim;
Mas por que, mas por que caem sobre mim?
Ser amado é-me a só necessidade,
E quem eu amo, eu amo de verdade.

The Pains of Sleep

Ere on my bed my limbs I lay,
It hath not been my use to pray
With moving lips or bended knees;
But silently, by slow degrees,
My spirit I to Love compose,
In humble trust mine eye-lids close,
With reverential resignation,
No wish conceived, no thought exprest,
Only a sense of supplication;
A sense o’er all my soul imprest
That I am weak, yet not unblest,
Since in me, round me, every where
Eternal Strength and Wisdom are.

But yester-night I prayed aloud
In anguish and in agony,
Up-starting from the fiendish crowd
Of shapes and thoughts that tortured me:
A lurid light, a trampling throng,
Sense of intolerable wrong,
And whom I scorned, those only strong!
Thirst of revenge, the powerless will
Still baffled, and yet burning still!
Desire with loathing strangely mixed
On wild or hateful objects fixed.
Fantastic passions! maddening brawl!
And shame and terror over all!
Deeds to be hid which were not hid,
Which all confused I could not know
Whether I suffered, or I did:
For all seemed guilt, remorse or woe,
My own or others still the same
Life-stifling fear, soul-stifling shame.

So two nights passed: the night’s dismay
Saddened and stunned the coming day.
Sleep, the wide blessing, seemed to me
Distemper’s worst calamity.
The third night, when my own loud scream
Had waked me from the fiendish dream,
O’ercome with sufferings strange and wild,
I wept as I had been a child;
And having thus by tears subdued
My anguish to a milder mood,
Such punishments, I said, were due
To natures deepliest stained with sin,–
For aye entempesting anew
The unfathomable hell within,
The horror of their deeds to view,
To know and loathe, yet wish and do!
Such griefs with such men well agree,
But wherefore, wherefore fall on me?
To be beloved is all I need,
And whom I love, I love indeed.

Links interessantes:
https://pt.wikipedia.org/wiki/The_Rime_of_the_Ancient_Mariner
https://pt.wikipedia.org/wiki/Samuel_Taylor_Coleridge
https://www.youtube.com/watch?v=NA2cGy_iDTk
As citações do poema de STC são de 2:32 até 2:50, e de 5:52 até 6:23.

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Aprendiz

Me desculpes por aquilo que eu não disse,
Quando te amei, virei para o lado, e adormeci.
Eu diria no dia seguinte,
Da mesma forma de sempre,
Com a mesma vontade de sempre,
Em uma dialeto que só tu serias capaz de entender.

Me desculpes se, no meu cansaço,
Relaxei nos teus braços, triunfante,
Radiante, eufórico, vitorioso,
Sentindo ainda o torpor do nosso gozo,
Teu cheiro em meu corpo,
Meu coração em tuas mãos.

Me desculpes pela minha verdade,
Pela minha ingênua sinceridade,
Por nunca ter te ocultado nada,
Por ser simples, previsível, correto,
Do meu amor estar sempre certo,
Sempre homem, todo teu.

Me desculpes por não ter te traído,
Por em nenhum momento ter te esquecido,
Por te achar a mais linda de todas,
De todas as que eu nunca quis,
E que diziam, me fariam – quem sabe – feliz!
Mas não eram como eras, como sou.

Agora que fostes embora,
Abraço-me a solidão de minhas horas,
Revelando-me aos poucos, sem pressa,
Para o mundo, que com todas as portas abertas,
Me acolheu, me convidou, me escolheu,
Para ser do amor um eterno aprendiz.

bertrand_russel_temer_o_amor_e_temer_a_vida_e_os_que_temem

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Sirius

Há algo no teu sorriso
Que me inquieta,
Que em mim tudo desperta,
Que me fascina.

Há algo na fumaça que sai da tua boca
Que me atravessa,
Que em mim é promessa,
Que me domina.

Há algo no teu corpo riscado
Que me testa,
Que em mim é festa,
Que me desatina.

Há algo em teus cabelos e olhos negros
Que me cativa,
Que a mim desajuiza,
Que me alucina.

Mas acima de tudo,
Há algo em tua alma
Que se traduz em luz,
Que irradia de teus poros,
E que iluminou
Os becos e vielas
Pelos quais já andei,
Sempre contigo por perto
(de alguma forma)
Ou com você em mim.

És uma estrela
De pujante fulgor
Que cintila em meu caminho,
E quando sigo em tua direção –
Estás em toda e qualquer direção –
És a única direção –
Sei que não estou sozinho.

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Ao amor, a vida

Que nossos encontros não sejam obras do acaso, mas prioridades inadiáveis.

Que nossas problemas não sejam barreiras intransponíveis, mas degraus na escada que estreita nossos laços.

Que nossos corpos não apenas se deitem, mas que se fundam em um só.

E que cada adeus seja apenas um até logo, ainda que no leito de morte.

Ao amor, a vida. A todo o resto, a sorte.

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Mundo mudo

Mundo mudo

Mundo de agora

Me diz pelo vento

Que sopra lá fora

O dizer devido

Para esta hora

Quando foi embora

O aroma floral de outrora

Que exalava de dentro de mim.

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Sete Cidades – Legião Urbana

A melhor música da banda. Só isso.

P.S.: Ainda que você não goste da banda, preste atenção na letra dessa música… Absolutamente fantástica.

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Abusado e insolente

Teu segredo

Se revelou de forma veemente

Quando gritou o teu coração

E tentou ignora-lo a tua mente

 

Não seria de mais valor

Ou talvez mais prudente

Deixares de fingir que é dor

O amor que deveras sente?

 

Ah! O amor…

Essa coisa insistente

Que não pede por favor

E que torna o completo carente!

 

Ah! O amor…

Do qual tu foges bravamente

Mesmo sabendo que não há vida

Quando parte de ti está ausente

 

Ah! O amor…

Não, não estás doente

Já que és tão racional

Que reconheças: estás impotente!

 

Ah! O amor…

Que te rendas a este insistente

Que subjuga-te a seus caprichos

Não se trata de mero acidente

 

E que fique claro que sua existência

Não depende do teu aceite

O amor é o amor

Abusado e insolente.

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Olhos do coração

O não sempre traz consigo

A esperança de que dias melhores virão,

Pois a vida sempre será farta e bela

Quando vista pelos olhos do coração.

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P.S. 51

O mal causado pelo fruto maduro da indiferença e do descaso é muito mais contundente e doloroso do que o mal propositado, vingativo e intencional.

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Inversos

Eis aqui os meus últimos versos para ti: