No tempo que passa,
o instante se pergunta:
prioridades
são pontes invisíveis
entre o ser e o tornar‑se.

No tempo que passa,
o instante se pergunta:
prioridades
são pontes invisíveis
entre o ser e o tornar‑se.

Me desculpa por aquilo que eu não disse,
Quando te amei, virei para o lado, e adormeci.
Eu diria no dia seguinte,
Da mesma forma de sempre,
Com a mesma vontade de sempre,
Em um dialeto que só tu serias capaz de entender.
Me desculpa se, no meu cansaço,
Relaxei nos teus braços, triunfante,
Radiante, eufórico, vitorioso,
Sentindo ainda o torpor do nosso gozo,
Teu cheiro em meu corpo,
Meu coração em tuas mãos.
Me desculpa pela minha verdade,
Pela minha ingênua sinceridade,
Por nunca ter te ocultado nada,
Por ser simples, previsível, correto,
Do meu amor estar sempre certo,
Sempre homem, todo teu.
Me desculpa por não ter te traído,
Por em nenhum momento ter te esquecido,
Por te achar a mais linda de todas,
De todas as que eu nunca quis,
E que diziam, me fariam – quem sabe – feliz!
Mas não eram como eras, como sou.
Agora que fostes embora,
Abraço-me á solidão de minhas horas,
Revelando-me aos poucos, sem pressa,
Para o mundo, que com todas as portas abertas,
Me acolheu, me convidou, me escolheu,
Para ser do amor um eterno aprendiz.

Não acendo por pedido,
não apago por ausência.
Sou carne em brasa,
sou pulso que ruge,
sou presença que rasga o escuro
mesmo quando não sou visto.
Ninguém me desliga.
Eu ardo.

Essa poesia utiliza como pano de fundo e inspiração a música “Missing you”, do ARK. É uma poesia triste, mas a música é triste também.
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Carta Não Enviada
Fiquei na porta, na chuva,
com as mãos vazias de futuro,
como quem aprende tarde demais
que alguns amores não cabem nos planos de ninguém.
Escrevi teu nome em silêncio,
porque a distância responde melhor que a voz;
há palavras que atravessam oceanos,
mas não alcançam um coração fechado.
Sinto falta do que fomos,
e talvez mais ainda
do que poderíamos ter sido.
Carrego tua ausência como quem carrega um inverno dentro do próprio peito.
Hoje te procuro nas estrelas,
não para encontrar respostas,
mas para lembrar que até a luz mais antiga leva anos para chegar.
Às vezes, imagino um dia sem dor,
um horizonte limpo, sem lembranças;
mas o amor não obedece à razão,
e continua aceso onde não deveria.
Meu coração é um hotel abandonado:
corredores longos, quartos sem hóspedes,
um piano coberto de poeira
esperando mãos que não voltam.
E eu sigo pela estrada,
entre o adeus e o recomeço,
com essa verdade simples e teimosa:
há pessoas que partem da nossa vida,
mas demoram muito mais
para partir da nossa alma.

Nos teus braços, chama.
Tudo em mim se incendeia.
O peito desperta.
Ali o amor se revela,
vasto como um céu em brasa.
Rei dos escombros –
festeja a própria sombra
ao pôr do sol.

E o dia amanheceu com gotas de orvalho
(lembranças, momentos, palavras, gostos e cheiros)
Nas pétalas da tua flor.
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