Repare em mim
Em você
Em nós
Na gente
No que você sente
Por conta de existirmos.
.
Não deixe
Para nos sentir
Na saudade
Porque ela ensina e revela
Mas é professora arrastada
Que geralmente chega muito tarde.

Repare em mim
Em você
Em nós
Na gente
No que você sente
Por conta de existirmos.
.
Não deixe
Para nos sentir
Na saudade
Porque ela ensina e revela
Mas é professora arrastada
Que geralmente chega muito tarde.

A vida passa, meu bem.
Passaremos a vida a deixar
A vida simplesmente apressada passar?

O tempo –
Essa caixa imaterial em que vivemos –
Que vai da ordem ao caos em instantes.
Fascinantes os acham que o tempo é amigo, ou abrigo, ou qualquer coisa do tipo.
O tempo está sempre indo, e com sorte vira memória, história ou arrependimento.
O tempo é a vida indo em direção à morte sem precisar de nenhum consentimento e sem qualquer constrangimento.
E quando damos por nós, foi-se o tempo. Também fomos nós. Não há alento.

Fiz o combinado:
Amei-te para sempre.
.
Nos dias de chuva,
Nos dias ensolarados,
Nos dias nublados,
Nos dias que ainda não chegaram.
.
Sim, amor antecipado.
Por que esperar para amar,
Se esperar para amar
É amar atrasado?
.
Amei-te hoje,
Amei-te amanhã,
Como amei-te no passado.
.
Tempos verbais não tem voz no amor:
Meu coração foi desde sempre por ti antecipado.

O tempo me ensinou
Que para certas coisas
O tempo não passou
E que ainda carrego comigo
Coisas da minha infância.
.
Ainda busco a aprovação –
E muitas vezes o perdão –
Quando me comporto como adulto.
.
Mas há em mim perdão:
Perdoo a mim mesmo.
.
Sou a minha própria consolação
Quem diz o sim ou diz o não
Para os meus medos insepultos.

Tudo parece estar sob controle,
Até que não mais está.
…
Nos tique-taque da vida,
Contagens regressivas,
Inícios e fins,
Cicatrizes e feridas,
Coisas que passamos a ter,
Coisas que passamos a não ter mais.
…
O agora se transforma,
E dependendo da hora,
Não há mais o agora para voltar.
É viver, então, só de memórias,
Com infinitas lamúrias para recitar.

Que eu procure pessoas e esteja em lugares onde a minha presença seja celebrada.
Que eu seja recebido e acolhido com sorrisos, e que eu leve sorrisos por onde eu andar.
Que eu olhe e que me olhem nos olhos, mas não com quaisquer olhos: que seja com os olhos do coração.
Que eu guarde com carinho, ternura e respeito, dentro do meu peito, todos os amores que já não mais são.
Que minhas asas, há tanto tempo guardadas, me elevem para que também se elevem meus pensamentos e desejos.
Nunca é tarde demais para voltar a sonhar viver.

A saudade não respeita nada e nem ninguém.
Não respeita momento, lugar, tempo, distância.
A saudade é implacável.
Transforma um vinho na geladeira em uma noite de amor sem fim,
Transforma uma escova de dentes deixada para trás em uma série no Netflix ainda por terminar,
Transforma o estar sentado em um antigo restaurante na materialização de presença física, feito quem espera o outro voltar do banheiro,
Transforma uma praia em uma sessão de fotos com voz, cheiro, gosto, toques, cabelos, sorrisos, gemidos, planos, anos, vidas, filhos, viagem, carro, unhas, aliança, aeroporto, rodoviária, almoço de domingo, café, mel, mamão, salada de frutas, ovos mexidos, pão.
A saudade não é o amor que fica.
É muitas vezes a vontade de não ter conhecido, de não ter vivido, de não amar como nunca se amou na vida, como ainda desesperadamente se ama.
A saudade é a tortura e a alucinação de quem ama e repousa em uma cama que não deixa dormir.
É o chamado incessante e silencioso de quem deixa o corpo e a alma em chamas.
Eu sou um incêndio vivo.

Não adianta falar sobre o que só o tempo é capaz de dizer.
