Eu sou assim mesmo
Na base do vai ou racha
Não tenho muito tato
Para lidar com o meio termo
“Como está o seu café?”
Se está meio morno
Está ruim
Se está meio ralo
Está ruim
O meio termo
É meio bom
E tudo que é meio bom
É inteiramente ruim.
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Em boa companhia
Ao andar sozinho
Percebi detalhes do caminho
Fui capaz de ouvir meus passos
Observar minha respiração
E o ritmo do meu coração:
Eu me senti
Ao andar sozinho
Passei por flores e espinhos
Becos, avenidas e praças
Do chão batido ao asfalto
Do sapê ao concreto, do aço à lata:
Eu senti o mundo
Ao andar sozinho
Provei todas as cores e temperos
Beijos e abraços intensos, insossos e acesos
Camas desarrumadas e fartura sobre as mesas
Tudo passageiro com retrogosto definitivo:
Eu senti o passar do tempo
Ao andar sozinho
Nada controlei ou antecipei
Nada esperei e muito recebi
E com o peito inundado pela esperança
Tornei-me da minha vida autor e protagonista:
Eu me reconheci.

Eu rumo
Hoje, reparei nas nuvens
Há tempos não fazia isso
Céu azul de inverno
Nuvens como se fossem de algodão
Sendo levadas pelo vento
Deixou-me curioso a sua leveza
Enquanto nuvem, à mercê do vento
Indo como se soubesse a direção
Ignorando sua própria existência
Seu motivo e razão
Nuvens claras nos dias de sol
Escuras nos dias de chuva
Livres
Felizes
Indo para não se sabe onde
E pensei que eu também gostaria de ser nuvem
Eu queria ir…
Ir…
Mundo afora, sem porque ou motivação
Descobrir aonde o vento faz a curva
E ser insubstancial, nada urgente
No inverno e também no verão
Mas há quem nasça para ser nuvem
E há quem nasça para ser vento
Eu sou vento!
Da brisa suave
Até qualquer grande tormenta
Eu carrego
Eu levo
Eu movo e removo
Eu faço o que tiver que ser feito
Eu simplesmente não me contento.

É Deus
Já não carrego mais lembranças
Levo comigo os esquecimentos
Que insistem em dar seus ares
Vez ou outra
Ressignifiquei momentos
Bati prosas com o espelho
Guardei meu nariz vermelho
Fugi do circo
Ainda carrego certa culpa
De ter gasto tanto tempo
Admitindo o inadmissível
Vivendo a vida sem viver
Mas agora, vida afora
Vida aflora dos cacos de outrora
Aos poucos me reconstruindo
E meu restaurador tudo pode:
Ele é Deus.

Destemendo-me
Longe da presença dos outros
Diante da minha inevitável presença
Tornaram-se inadiáveis os questionamentos
As razões de ser, de viver
Quem sou?
Por que sou?
Por quem sou?
Será que sou por mim?
E em meio ao bombardeio de perguntas
Jorram aos borbotões as respostas
E sobre elas pairam dúvidas:
Será que eu mesmo as forneci
Ou será que só as repeti
Como tantas outras vezes fiz?
Passou da hora de eu mesmo me conhecer
Por mim
Eu devo isso a mim
É corolário para a plenitude da minha vida
Prefiro viver cheio de verdadeiras dúvidas
Do que repleto de falsas certezas
Quero as cartas sobre a mesa
Quero os pés no chão
Quero mudar ou formar opinião
Quero transformar os pesos em leveza
E desfazer todas as ilusões
Estoura-las feito bolhas de sabão
Não é possível fazer isso sem dor
Sem definitivamente me responsabilizar
Sem aceitar as coisas como são
Sem perdoar-me e sem pedir perdão
Não fui nem tão bom e nem tão ruim
Nas mais diversas situações
Eu simplesmente fui o que sabia ser
E toda essa minha derradeira imperfeição
Aqueceu e acendeu meu coração:
Há muito para conhecer
Muito para desaprender
Muito para evoluir
Ainda estou em processo
Não cheguei ao fim
Sequer sei se já cheguei ao começo
Mas, hoje, já posso afirmar:
Um dia, eu já temi a solidão
E só a temia por temer-me.

Mexa-se
Quando cheguei ao topo do monte, pude ver montanhas muito maiores por detrás. Não desanimei. Eu só conseguia ver o monte, e foi por isso que decidi subi-lo. Agora, vou subir montanhas, e só vou subi-las porque um dia eu decidi subir o monte. As montanhas eu simplesmente desconhecia.
Amplie seus horizontes. Comece de algum lugar. A vida só se apresenta em toda sua imensidão quando você estiver disposto a buscá-la. Saia da sua zona de conforto, do seu chão. Nada de novo acontece aonde você está. Mexa-se.

Sorrindo
Diante do inevitável
O que me resta fazer
A não ser sorrir?
Sorrir
Sempre
Sorrir
E sorrindo –
E só rindo –
Eu vou
Para onde eu tiver que ir.
Tudo na medida
Na medida em que tudo se passava
Percebi que tudo se passava na medida
Cada coisa
Cada coisinha
Cada coisícula…
Tudo de propósito
E com propósito
Tudo na medida
Menos os sorrisos, claro:
Para esses não há medida.
Vim trazer verdades 8
O mundo oferece de volta aquilo que você oferece ao mundo. Não é lógico esperar compreensão sem compreender. Esperar empatia sem ser empático. Ser amado sem amar. Há uma relação de causa e efeito no universo que ultrapassa os limites de situações específicas. O bem feito pode retornar de forma inusitada, em uma situação complemente diferente, através de pessoas completamente diferentes. De forma análoga, o mal também.
Portanto, diante de um impasse em sua vida, diante de situações onde você se vê como vítima, procure por outras tantas situações onde você foi algoz. A sua vida, em sua totalidade, é sempre um reflexo direto de quem você realmente é. O universo ignora sumariamente aquilo que você apenas diz ser.
Feito um bom vinho
Que o brinde distante
Se torne apenas
Mais um motivo
Para brindarmos ao vivo
Pelo que achávamos
Que tínhamos
Pelo que achávamos
Que não precisávamos
Tempos difíceis
Corações tristes
Almas amoadas…
Mas eu estou aí
Tu estás aqui
Não percebes?
É tudo temporário
E talvez seja esse
O grande detalhe:
Tudo é temporário
Nada é de fato nosso
Mas o que sentimos
É do mundo
É o próprio mundo
É a nossa vida
É a nossa coragem
E que nossos corações –
Ora desnudos –
Encontrem-se em sonhos
E que acordemos risonhos
Com menos dúvidas
E com algumas –
Ainda que poucas –
Certezas
Que espantem as tristezas
Feito fartos goles
De um bom vinho.