O inconformismo
Que tantas vezes me bateu à porta
Fez-me bater na porta
Até eu bater a porta
Para nunca mais abri-la.

O inconformismo
Que tantas vezes me bateu à porta
Fez-me bater na porta
Até eu bater a porta
Para nunca mais abri-la.

Toda vez que te procuro,
Saibas que é porque te quero
E te quero muito.
E quando me procuras,
Também sei que é porque me queres
E me queres muito.
Tanta querencia –
Nenhuma sofrência –
Não é este o melhor dos mundos?

Tu és dona das flores
Que trazes quando chegas
E que deixas quando vais.
És o jardim onde quero ser sepultado,
O cálice que faz-me vivo,
E tudo de melhor que tenho desfrutado.
Tu és a dona das flores,
Que rega-me sem pudores,
E até em teus espinhos
Não sangro: me curo.
Tu és a dona das flores,
Que explodem em uma miríade as cores
No meu coração, na minha alma,
Na terra que ofereço fecunda
Para nossos brotos ainda por nascer.

Não era para dependermos das nuvens.
Era para estarmos acima delas,
Onde há sol o ano inteiro.
E ainda assim,
Que a chuva nos lave,
Que nossos lábios se beijem,
E que a água que desagua por entre tuas pernas,
Pelo rio onde navego todo e inteiro,
Leve-me para a foz deste úmido e caudaloso pesadelo.
(sonho)

E não é que a vida é assim?
Dias amargos.
Dias doces.
Seriam amargos os dias amargos
Não fosse o doçura dos dias doces?
Seriam doces os dias doces
Não fosse o amargor dos dias amargos?
O contraste me faz sentir vivo.
É assim que vivo minha vida.
É assim que me aproximo de outras vidas.
Dias amargos e dias doces,
Porque a vida é assim
Tanto para você
Quanto para mim.

Litros do corpo dela em minha boca.
Meus joelhos sangrando litros rente ao chão.

Qual decisão você tomaria se não estivesse com medo?

Entendo pouco ou quase nada de espanhol, mas tenho visto nos detalhes da língua labaredas e estampidos que eu desconhecia.
No meu curriculum, nego-me a dizer que tenho espanhol básico ou algo que o valha. Eu não entendo espanhol. Eu sinto. Em nível mais do que avançado, diga-se de passagem.
Tem a ver com os vinhos e com as poesias que há dentro deles. Com os amores intensos que não duram mais que uma noite. Com a aproximação suave de quem chega de repente e fica. Constrói, cativa.
Em espanhol também choro saudades de quem já fui. Foi preciso ser o que não mais sou para que eu fosse o meu agora. Para que as lágrimas que tanto vi refletidas em uma taça de vinho se transformassem em sorrisos. Para que eu pudesse ver além do cristal.
Mas, sobretudo, em espanhol eu te beijo. Em espanhol sou raso e sou fundo. Sou incêndios, furacões e tormentas. O antes, o durante, o fim do mundo.
O espanhol é todas as línguas. A minha, a tua. Língua dos confessionários que são as camas e os quartos. Teus quartos. Tuas entradas. Não há saída.
Teu cabelo negro e avermelhado diante do sol adentra meus vislumbres de Neruda e rasga meu peito. Teu gozo é em braile e arranha meu pescoço, minha alma. Tira-me o chão. Devolve-me tudo.
O espanhol fez e faz isso por mim todos os dias. Estou ouvindo o teu chamado até quando tu não me chamas. Óleo de macadâmias que não saem das minhas mãos bezuntadas de ti que esfrego em minha face. Estou e vivo rúbio.
Ouça minhas palavras com cautela, pois como disse, não sei falar espanhol. Entretanto, bem sei que tu me conheces mais pelo que não digo. Lonjuras entre nós são puro castigo. É real e iminente o perigo.

Algumas de nossas coisas
Só nos fazem falta
Quando já não são mais nossas coisas.
Que fim levaram?
Para onde vão?
Agora, que já se foram,
Só restou o vão.
