Ficou o perfume
A cama por fazer
Um vinho avinagrado
A vida por acontecer
…
E o amanhecer
Antes terno e doce
Agora um coice
Amargo feito fel
…
Quem sabe um dia
Por pura ironia
A vida nos mostre
Como a vida deveria ser
Ficou o perfume
A cama por fazer
Um vinho avinagrado
A vida por acontecer
…
E o amanhecer
Antes terno e doce
Agora um coice
Amargo feito fel
…
Quem sabe um dia
Por pura ironia
A vida nos mostre
Como a vida deveria ser
Não te assustes, meu bem
Se um dia, ao acordares
Vires o meu lado em nossa cama
Frio e vazio
Fui-me
Precisei ir
Sem aviso formal
É fato
Mas vou-me por não me sentir útil
Vi minha vida por teu amor
Por nosso amor
Por nossos planos
Muitos, muitos anos
Ser rasgada a seco
Deixada ao vento
E com fome e frio
Perdida no tempo
Tudo feito e desfeito
Esforço impróprio
Vida pueril
Vida inútil
Mas declaro
Que fique claro
Que não sou algoz
E muito menos vítima
Mas eu sou fogo
Sou brasa
O combustível
O comburente
Sou a flecha
E o arqueiro
E não cigarro
Ou mero trago
Ou mesmo cinzas de qualquer cinzeiro
Aproveito a oportunidade
Para oferecer-te minhas sinceras desculpas
Não sei exatamente onde errei
Se foi por dar-me como me dei
Ou se foi por sonhar como sonhei
Fato é que agora sei
Que eram meus
E tão somente meus
Os nossos sonhos
E neles nos amávamos
E eu amava
Eu sempre amei
E na solidão agora desacompanhada
De minhas horas
Teu nome em minha memória
Saudade que condena e sufoca
Nevoeiro de lágrimas
Que derramam-se em um livro
De uma só página
Um resumo do nosso amor
“Acabou”
Era só fumaça
Mais nada.

Há noites em que você me chama
E o fogo que arde em seu corpo
Em sua cama
Queira você ou não
Chega até mim
Já respiramos um dentro do outro
Não há limites
Nada de esquisitices
Amor visceral
Que de nós flui
E que nos faz sorrir
E outras coisas mais
Confesso que sinto sua falta
Do seu perfume
Do seu hálito com alucinante
De todos os nossos cheiros
De todos os nossos gostos
Que valem mais que diamantes
Que fluem –
E como fluem! –
E nos afogam
Morremos em nossos braços
Por alguns instantes.
Aliás, você não é mais uma
E por mais tenham existido algumas –
Meu passado eu não renego –
Você é e desde sempre foi
A única de qual não quero
Jamais me despedir
No máximo –
Que fique perfeitamente claro –
Quero com você me despir.

E se você fosse
Deixada aos terrores da noite
Sem nada entender
Em uma encruzilhada da vida?
E se suas respostas
Virassem perguntas
E não houvesse ninguém
Sequer para ouvi-las?
E se aquele delicioso vinho
Suave e inebriante
Ficasse seco de repente
E tivesse que bebê-lo sozinha?
E se a cama vazia
Seca, inerte e nua
Com lençóis gélidos
Fosse unicamente sua?
E se suas lágrimas
Alcançassem o chão
Formando imensas poças
Antes que alguém tentasse entendê-las?
E se o seu grito dorido
Vomitado do peito
Fosse ignorado
Ou mesmo esquecido?
E se o seu nome
Repetido tantas vezes
Em tantos tons e texturas
Fosse completamente esquecido?
E se…
Você pudesse evitar tudo isso?
E se…
Eu não sei
Nem você
Espero que jamais saibamos
Espero que seja só um
E se.

Se eu durmo bem ou mal
A cama acorda revirada
Acalma-te, alma
Tudo não és cama!
Não podes aquietar-te
Durante a madrugada?
Eu sei, não é fácil
Conviver com uma vida revirada.

Mesmo sendo viciado em café
Reconheço:
Nada é tão estimulante quanto
Você.

É na pouca luz do nosso quarto
Que vemos tudo que precisamos
Somos puro tato.
