Avatar de Desconhecido

Espelho do banheiro

Me olhei no espelho do banheiro e não te vi a meu lado.
Foi a primeira vez em muito, muito tempo.

Senti uma dor aguda –
Dor de morte.
Nenhuma lágrima –
Estado de choque.

E então me ocorreu que fiz de tudo –
Talvez mais do que devia –
Para evitar este reflexo dorido,
O “nós dois” esquecido,
O caminhar rumo ao desconhecido,
Rumo a outros braços – outro coração.

Agradeci a Deus por tudo.
Somente um obrigado – mudo!
Recordações de todos os tipos –
Paixão, amor, tesão, vício –
E um senso de que nada foi em vão,
Nada mesmo –
Nem as manchas que ficaram no colchão.

Me olhei no espelho do banheiro e não te vi a meu lado.
Foi a primeira vez em muito, muito tempo,
Que eu me vi.

Avatar de Desconhecido

P.S. 54

O que você não está mudando na sua vida, você está escolhendo viver.

(leia novamente)

Avatar de Desconhecido

Não obstante

No teu último pensamento
Nas costuras da fronha do teu travesseiro
Nas dobras do lençol que não rimam com teu corpo
Nas pernas que se movem sem saber para onde ir
É aí que estou.

Porque o dia pode passar sem mim
As risadas podem disfarçar a minha ausência
O trabalho pode abafar as nossas indecências
A música alta pode abafar os gritos da tua alma
Mas é aí que estou.

E não estou aí porque pedi
Não estou aí porque quero
Estou porque me queres
Porque tuas lembranças te inundam
E deixam marcas indeléveis nas tuas coxas.

Estou aí.

No mosaico de pensamentos conflitantes
Na busca interminável e arfante
Por uma droga que possa aplacar
O fogo que dança no meio do teu peito
E que se renova em tuas fugas incessantes.

Estou aí
Continuo aí
Nos teus gozos
Nas tuas cicatrizes
Não obstante.

Avatar de Desconhecido

Reviravolta

Caminho por noites escuras

Sem lua

Sem rumo

Sem porquê

Sem porém.

Caminho porque caminho

E vou sem destino

Esperando chegar

Sabe-se lá onde

E encontrar sei lá quem.

Mas é nessa escuridão

Diante do que sobrou de mim

Que pretendo virar chama

E queimar a língua dos caretas

Que acharam que este era meu fim.

Avatar de Desconhecido

Em busca da verdade

O amor não é a foto no Instagram
É o que faz a foto precisar existir
Não é a mensagem do WhatsApp
Mas a vontade de enviar a mensagem
Não é o coração do Facebook
Mas o sorriso indisfarçável por detrás da tela

O amor é sempre causa
Nunca consequência

Nunca vi um amor sobreviver só de palavras
De declarações
Nunca vi um amor sobreviver só de coisas grandes
Monumentais

O amor se retroalimenta de coisas pequenas
Da intimidade, da cumplicidade
Da atenção aos mínimos detalhes
Da generosidade e da sinceridade
Da desavença e do entendimento
Do perdão, da compreensão

O amor é pai de tudo que é bom
De tudo que na vida faz genuína diferença
E eu, como aprendiz de poeta
Digo que o amor não está nas minhas poesias
Mas no que não mostro
Aceito e sinto
Pois para mim, o amor é invisível
Mas eu sei –
E como sei! –
Que ele de fato existe

O amor é minha única verdade
E em busca da verdade eu sigo.

homem-andando-na-rua-1024x680

Avatar de Desconhecido

P.S. 53

O amor não prende, mas também não deixa solto demais.

Avatar de Desconhecido

Será?

Não sei se era uma ilusão,

Mas aquele abraço me trazia verdades.

E é verdade que sinto falta daquele abraço,

Que talvez de uma ilusão não passasse.

Avatar de Desconhecido

P.S. 52

Avatar de Desconhecido

As Dores do Sono ou The Pains of Sleep

“Long story short”, há uma música do Iron Maiden, do álbum Powerslave, chamada “The Rime of The Ancient Mariner”, que faz 2 citações a um poema homônio escrito por Samuel Taylor Coleriedge, até então apenas um desconhecido por mim.

Como a curiosidade é meu forte, resolvi saber mais sobre esse “doido”. E esse “doido” era nada mais nada menos que um dos mais importantes escritores da literatura romântica inglesa, sendo considerado por muitos o seu “pai”, digamos assim.

E então, saí fuçando suas obras. Como o inglês utilizado é bem complexo, formal e de época, entender as obras dele foi trabalho pesado. Fui lendo, aprendendo, e indo em frente, cada vez mais impressionado com sua maneira de escrever e a beleza de seus textos.

Um belo dia, na sala de espera de um consultório médico, me deparo com uma “tradução”, ou melhor, uma adaptação livre de uma das poesias de STC para o português! E onde estava essa adaptação? Em uma revista “Caras”! Não sei quem é o autor, mas não só capturou a espinha dorsal do poema, como também o fez ficar lindíssimo em português, algo dificílimo em uma tradução.

Então, sem mais delongas, a versão dele em português, seguida da versão em inglês. No final, vou deixar alguns links para os mais curiosos, incluindo um link para a música do Iron Maiden.

UP THE IRONS! (para não perder o costume)

As Dores do Sono

Antes de no meu leito repousar,
Não tem sido meu hábito rezar
Movendo os lábios em genuflexão;
Mas em silêncio, sem afobação,
Disponho o espírito ao Amor aberto,
Na humilde fé as pálpebras aperto,
E com reverencial resignação
Nenhum desejo ou pensamento expresso –
Somente um senso de suplicação;
E, apesar das fraquezas que confesso,
N’alma um senso de benção fica impresso,
Pois sinto dentro, em volta, em tudo mais,
Saber e Força que são eternais.

Ontem à noite, entanto, rezei alto
Com angústia e agonia – uma tortura! –
Sob as formas e idéias em assalto
De multidão diabólica e perjura:
Lúrida luz, tirânica coorte,
Senso de culpa sem qualquer suporte,
E só o que desprezo, sempre forte!
Quer vingança a vontade ineficaz,
Ainda frustrada, ainda a arder sem paz!
Às repulsas misturam-se os anseios,
Fixados em objetos rudes, feios!
Fantásticas paixões! Louco furor!
Tudo no opróbrio, tudo no terror!
Expunha ações que eu ocultar devia,
Sem distinguir sequer, de tão confuso,
Se era eu que as praticava ou as sofria,
Pois tudo era remorso, dor, abuso;
E, meus ou de outros, eis na mesma lida
O pejo que à alma afoga, o horror que afoga a vida.

E assim duas noites: e a melancolia
Com seu torpor contaminava o dia.
O sono, larga benção, era então
A desgraça pior da disfunção.
Dei, na terceira noite, horrendo grito
Que me acordou desse íncubo maldito,
E, em estranha e cruel desesperança,
Chorei como se fosse uma criança;
E tendo assim com pranto conduzido
A minha angústia a um grau menos dorido –
Tal castigo – disse eu – fora adequado
A uma alma mais manchada de pecado,
Que turbilhona sem cessar o centro
Do inferno imensurável que tem dentro;
Que, ao contemplar o horror das ações más,
Sabe e abomina, mas deseja e faz!
Essas dores convêm a uma alma assim;
Mas por que, mas por que caem sobre mim?
Ser amado é-me a só necessidade,
E quem eu amo, eu amo de verdade.

The Pains of Sleep

Ere on my bed my limbs I lay,
It hath not been my use to pray
With moving lips or bended knees;
But silently, by slow degrees,
My spirit I to Love compose,
In humble trust mine eye-lids close,
With reverential resignation,
No wish conceived, no thought exprest,
Only a sense of supplication;
A sense o’er all my soul imprest
That I am weak, yet not unblest,
Since in me, round me, every where
Eternal Strength and Wisdom are.

But yester-night I prayed aloud
In anguish and in agony,
Up-starting from the fiendish crowd
Of shapes and thoughts that tortured me:
A lurid light, a trampling throng,
Sense of intolerable wrong,
And whom I scorned, those only strong!
Thirst of revenge, the powerless will
Still baffled, and yet burning still!
Desire with loathing strangely mixed
On wild or hateful objects fixed.
Fantastic passions! maddening brawl!
And shame and terror over all!
Deeds to be hid which were not hid,
Which all confused I could not know
Whether I suffered, or I did:
For all seemed guilt, remorse or woe,
My own or others still the same
Life-stifling fear, soul-stifling shame.

So two nights passed: the night’s dismay
Saddened and stunned the coming day.
Sleep, the wide blessing, seemed to me
Distemper’s worst calamity.
The third night, when my own loud scream
Had waked me from the fiendish dream,
O’ercome with sufferings strange and wild,
I wept as I had been a child;
And having thus by tears subdued
My anguish to a milder mood,
Such punishments, I said, were due
To natures deepliest stained with sin,–
For aye entempesting anew
The unfathomable hell within,
The horror of their deeds to view,
To know and loathe, yet wish and do!
Such griefs with such men well agree,
But wherefore, wherefore fall on me?
To be beloved is all I need,
And whom I love, I love indeed.

Links interessantes:
https://pt.wikipedia.org/wiki/The_Rime_of_the_Ancient_Mariner
https://pt.wikipedia.org/wiki/Samuel_Taylor_Coleridge
https://www.youtube.com/watch?v=NA2cGy_iDTk
As citações do poema de STC são de 2:32 até 2:50, e de 5:52 até 6:23.

Avatar de Desconhecido

Aprendiz

Me desculpes por aquilo que eu não disse,
Quando te amei, virei para o lado, e adormeci.
Eu diria no dia seguinte,
Da mesma forma de sempre,
Com a mesma vontade de sempre,
Em uma dialeto que só tu serias capaz de entender.

Me desculpes se, no meu cansaço,
Relaxei nos teus braços, triunfante,
Radiante, eufórico, vitorioso,
Sentindo ainda o torpor do nosso gozo,
Teu cheiro em meu corpo,
Meu coração em tuas mãos.

Me desculpes pela minha verdade,
Pela minha ingênua sinceridade,
Por nunca ter te ocultado nada,
Por ser simples, previsível, correto,
Do meu amor estar sempre certo,
Sempre homem, todo teu.

Me desculpes por não ter te traído,
Por em nenhum momento ter te esquecido,
Por te achar a mais linda de todas,
De todas as que eu nunca quis,
E que diziam, me fariam – quem sabe – feliz!
Mas não eram como eras, como sou.

Agora que fostes embora,
Abraço-me a solidão de minhas horas,
Revelando-me aos poucos, sem pressa,
Para o mundo, que com todas as portas abertas,
Me acolheu, me convidou, me escolheu,
Para ser do amor um eterno aprendiz.

bertrand_russel_temer_o_amor_e_temer_a_vida_e_os_que_temem