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Cegueira

Percebo brutalidade em alguns que me olham

Que veem um eu que não se parece comigo

Um eu que não é meu e só existe em olhos alheios

Cegos pelas projeções que consomem suas próprias vidas.

Se de fato me vissem, penso eu

Se se dessem a chance de me ver

Veriam que o meu eu que de fato sou eu respeitosamente se cala

Diante da cegueira brutal que consome suas próprias vidas.

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Tudo é ponte

Teu livro me espreita da cabeceira, enquanto engulo um farto gole de cerveja.

Comemoro as tuas andanças, as tuas idas e vindas, partidas e chegadas. Você em movimento. Eu em movimento a você.

Os lençóis e a cabeceira ainda estão marcados pelo nosso amor. Testemunhas de gozos incansáveis, de confissões doridas. Coisas inesquecíveis. Coisas feitas e ainda por fazer.

Vejo uma calcinha. O cheiro de menta que emana do aromatizador ecoa pelo quarto e abafa uma única lágrima que desce do meu rosto com fúria no maior estilo “Que porra é essa? Cadê você?”

Saudade. Faz menos de uma hora que você se foi. Foi o tempo de eu dirigir da rodoviária até em casa e ser tragado pela tua ausência. Nem a beleza da Baía de Guanabara vista da Ponte Rio Niterói durante a noite foi capaz de tornar o “eu sei que você já volta” mais palatável. Uma situação indigesta é uma situação indigesta. Não há música que me salve disso.

Passei por duas Operações Lei Seca. Não fui parado em nenhuma delas. Eu deveria ter sido preso por andar embriagado de você, completamente atordoado pelo cheiro do teu perfume que mora no meu carro, na minha pele, nos meus sonhos.

Arrisco um Law & Order: SVU na esperança de ver um episódio novo. Por reflexo, tento alcançar teu corpo a meu lado em uma vã tentativa de me abrigar do mundo e ganhar um coçada nas costas. Você não está aqui como estava pela manhã, como esteve até o nosso “vai com Deus”.

Te espero sabendo que te espero por opção, por amor, por tesão, por teimosia, por esperança. “Tudo é rio”, da Carla Madeira. Capítulo 8. Até você voltar, terminarei de ler o livro.

Durma bem durante a viagem.

P.S.: As panelas que ficaram sobre o fogão eu lavo pela manhã. Volta logo. Quero você.

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Admirável

Peguei a minha perfeição

E comparei com a dos outros.

A dos outros era pior, obviamente.

Entendo que os outros não a entendam.

Era de se esperar.

A minha perfeição não carece de entendimento:

Só de admiração.

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Saturado

Feito oxigênio,

Estás em minhas artérias,

És meu pulmão.

Saturação?

100%.

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Emburrecimento

Queria discutir grandes questões

Falar de Filosofia

Sentir as coisas do mundo.

Mas não…

Eu só vejo televisão

Faço parte de uns grupos de discussão

E tenho uma opinião formada sobre tudo.

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Bolo de nós

O que quer que seja

De morango ou de cereja

Há um pedaço de nós em nós.

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Explosão

Desejo que por mim fala

Que me deixa sem voz

Desejo que me consome

Que me fustiga a alma

Desejo que me faz derrubar paredes

Que me faz criar poças

Desejo que me vasculariza

Que me engrandece

Desejo que nunca me esquece

Que tem nome e dona

Vivo em estado de visceral desejo

É fato

Eu reconheço

Eu já sei

Desejo, desejo,

Beijo, vinho

Queijo, beijo

Explodi!

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Cúmplices

Todas as vezes que penso no amor, inevitavelmente me vejo pensando em você.

Todas as vezes que penso em você, inevitavelmente me vejo pensando no amor.

Você e o amor são uma coisa só.

São cúmplices!

Associação criminosa!

Me sequestraram sem pedir resgate!

O pior é eu estar gostando deste cativeiro…

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Plágio

Tu que és luz da minha luz

Que de mim tudo traduz

Diga-me o que fazer

Com estes versos que nunca escrevi.

Tenho medo da rima que não encontro

Do que já disseram antes de eu ter dito

Fico aflito:

Serão os versos infinitos

Ou é um plágio tudo que sinto?

Sinto que parece ser tudo único

Mas há alguém que já tenha escrito

Sem sentir o mesmo?

Ou será que sou plágio de mim mesmo

Viciado em teu beijo

E só sei falar disso?

Tu que és luz da minha luz

Me traduza em poesias

Pelos teus próprios dedos.

Só assim acreditarei em meus versos

Ainda que todos estes sejam teus.

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Pegadas

Olhei para trás e vi minhas pegadas

Algumas um pouco borradas pelo tempo

Outras tantas ainda vivas apesar do tempo.

Pegadas que viraram poças

De sangue, suor

Esperma, lágrimas,

Vinho, saliva.

Cicatrizes

Momentos felizes

Pegadas que não se repetirão mais

Pegadas que nunca serão esquecidas.

Mas o que são estas minhas pegadas

Senão a minha própria vida?

A elas sou apegado

E eu sou desses

Que criam e vivem histórias

E minhas pegadas sempre serão

Ainda que depois da minha morte

A prova de que eu continuo vivo.