Avatar de Desconhecido

Erva-doce

O cheiro da broa de milho
O café sem pressa
Os vizinhos sempre bem-vindos
Era assim quando eu era menino
E acreditava em coisas à beça

O café agora é espresso
Os vizinhos? Desconheço
A porta da rua sempre trancada
A broa de milho é da padaria
E a violência é a notícia do dia

Saudades da época em que eu achava
Que tinha tempo a perder
Do avô, da avó, dos tios, dos primos
Da sensação de não correr perigo
De ver no mundo um grande e acolhedor amigo

E nesse instante –
Agora! –
Enquanto meus pensamentos vão
Para um passado distante
O tempo parou de seguir adiante
E para mim voltou

É que eu ainda sou o menino
Que se inebria
Quando sente o cheio de erva-doce
E que queria que a vida fosse
Sempre uma tarde de domingo.

dill
Avatar de Desconhecido

Escolhas

Entre você e eu

Nunca fique na dúvida:

Escolha-se;

E talvez assim

Você me escolha

E –

Quiçá! –

Eu escolha você.

Avatar de Desconhecido

O teu cheiro

O teu cheiro era bem mais que teu perfume, que ficava entranhado nas minhas roupas e em todo o meu corpo.

O teu cheiro perfumava o meu quarto, a minha roupa de cama, as minhas toalhas, o meu colchão.

O teu cheiro ficou no meu carro e vai passear e trabalhar comigo.

O teu cheiro era a certeza de que eu tinha encontrado a minha fêmea.

O teu cheiro era como nenhum outro.

E teu cheiro passou a ser o meu cheiro.

E hoje, ainda que distantes, eu te exalo pelos meus poros.

O teu cheiro foi o amor que ficou em mim.

Avatar de Desconhecido

Questão de sobrevivência

Nossas taças de vinho
No frio do inverno,
Nossos corpos nus queimando
Feito mil sóis no verão.

O beijo na boca,
A prisão entre as coxas,
O ritmado ir e vir,
O descompassar do coração.

Lençóis ensopados,
Desejos e impropérios,
Lascívia escancarada,
Peças de roupa pelo chão.

A tontura repetida do gozo,
A entrega sem mistérios,
A respiração ofegante,
Nossos fluidos em ebulição.

Se foi esse o dia mais frio do inverno,
Me diga,
Como sobreviveremos ao verão?

Avatar de Desconhecido

Eu quero

Eu quero fazer a diferença na tua vida,
Mas não quero te mudar.

Quero ser o confidente,
O amor, amante, o amigo,
A válvula de escape diante do desastre iminente.

Quero que saibas que vou lavar a louça,
Fazer compras, fazer faxina e cozinhar,
Lavar roupa e passar,
Porque por nós posso fazer
Tudo que for necessário.

Vou trabalhar e trabalhar muito
E ainda que o dinheiro não seja muito,
Entrega e amor nunca irão faltar.

Quero andar de mãos dadas contigo
Nas infindáveis caminhadas da vida,
Onde o caminho tem mais importância que o destino.

Quero que tenhas orgulho de mim,
Do homem que invariavelmente sou
E da mulher que invariavelmente és quando estás comigo.

Mas de tudo que eu quero,
Nada é mais forte do que o te querer
E nesse querer eu realmente me defino:
Te querer é o que eu sou.

E quero que sejamos bem assim normais,
Casuais e sofisticadamente simples,
E que nosso amor seja simplesmente
A coisa mais importante que existe.

Avatar de Desconhecido

Fica

Não lembro do último toque,
Nem das últimas palavras,
E nem mesmo das datas.
Só lembro das semanas acinzentadas
Que surgiram
E do coração em carne viva
Querendo sair pela boca.

Eu pensei muito no que dizer,
No que confessar
E no que esconder.
Eu pensei muito
E não cheguei à conclusão alguma.

Emudeci.

E hoje mesmo pensei no que diria
Se te visse pela rua,
Se nossos olhares se cruzassem
E nossas almas se flagrassem nuas,
E uma única palavra eu pudesse dizer:

Fica.

E essa palavra diria por mim
Absolutamente tudo.

Rear view of lonely man looking with hope at horizon with sunlight during sunset with effect of light at the end of tunnel
Avatar de Desconhecido

Todo final é triste

Os copos e os pratos ficaram sobre a mesa, porque voltaríamos para terminar o jantar. Nunca mais voltamos.

A comida, agora fria e fedorenta, terá como destino o lixo. Um desperdício diante da fome do mundo, da nossa fome em particular.

Os finais são sempre tristes. Final feliz talvez seja só a morte, porque este acaba de uma vez com toda e qualquer possibilidade de se conviver com outros finais tristes.

Mas ainda assim a morte é um final triste, porque mesmo a vida mais triste de todas, está permeada de momentos que são felizes. Incríveis. Inesquecíveis.

E talvez o amor seja justamente o espaço entre um final triste e outro. O lugar onde a comida ainda está quente e o vinho ainda não virou vinagre. Tudo no ponto e na temperatura certa. Mesa posta e exposta.

E hoje, quando lembro do nosso final triste, lembro dos momentos de amor que foram felizes. Não foram poucos. Eles eram e existem, e insistem em fazer graça, em me fazer sorrir, ainda que seja um sorriso triste.

E vou seguindo em frente, sendo feliz aqui e ali, torcendo para nunca mais ter que viver um final triste, muito embora eu saiba que essa é uma possibilidade que não existe.

Avatar de Desconhecido

Quando o amor vacila – por Antonio Bivar

Eu sei que atrás deste universo de aparências,
Das diferenças todas,
A esperança é preservada.

Nas xícaras sujas de ontem
O café de cada manhã é servido.
Mas existe uma palavra que não suporto ouvir,
E dela não me conformo.

Eu acredito em tudo,
Mas eu quero você agora.

Eu te amo pelas tuas faltas,
Pelo teu corpo marcado,
Pelas tuas cicatrizes,
Pelas tuas loucuras todas, minha vida.

Eu amo as tuas mãos,
Mesmo que por causa delas
Eu não saiba o que fazer das minhas.

Amo teu jogo triste.

As tuas roupas sujas
é aqui em casa que eu lavo.

Eu amo a tua alegria.

Mesmo fora de si,
Eu te amo pela tua essência.
Até pelo que você poderia ter sido,
Se a maré das circunstâncias
Não tivesse te banhado
Nas águas do equívoco.

Eu te amo nas horas infernais
E na vida sem tempo, quando,
Sozinha, bordo mais uma toalha
De fim de semana.

Eu te amo pelas crianças e futuras rugas.

Eu te amo pelas tuas ilusões perdidas
E pelos teus sonhos inúteis.

Amo teu sistema de vida e morte.

Eu te amo pelo que se repete
E que nunca é igual.

Eu te amo pelas tuas entradas,
Saídas e bandeiras.

Eu te amo desde os teus pés
Até o que te escapa.

Eu te amo de alma para alma.
E mais que as palavras,
Ainda que seja através delas
Que eu me defenda,
Quando digo que te amo
Mais que o silêncio dos momentos difíceis,
Quando o próprio amor
Vacila.

Antonio Bivar
Extraído do Programa de Espetáculo do Drama – Luz da Noite – 1973

Avatar de Desconhecido

Simplicidade

É bem simples, meu amor:

Fique nua.

Avatar de Desconhecido

Atormenta

Repousa teus lábios nos lábios meus

E me deixa ver teu infinito.

Mostra os mares que são só teus

E as profundezas que eu agito.

Confessa os desejos que não são só meus

E admita que são infinitos.

Recebe teus mares com os mares meus:

Cala a minha boca, sente meus gritos.