Avatar de Desconhecido

Crescer

Por pura vaidade, não reconhece a perda.

Luta batalhas que não fazem mais sentido.

Chama a atenção para as suas causas irrelevantes –

Todas elas –

Irrelevantes para o mundo; o mundo que não é só dele.

Distorce, trama, difama, manipula,

Pois não tem a coragem de se olhar no espelho.

E ali, bem no meio da poça de sangue

Que se formou dos cortes que fez a si mesmo,

Prosta-se feito criança que espera a saída do escola.

Quer rever seu pai, sua mãe.

Quer que eles lhe digam que vai ficar tudo bem.

Quer se rever criança e poder ser criança.

Mas isso não é mais possível: a criança precisa morrer.

O bebê que ainda é precisa desfraldar.

Precisa sepultar partes suas em definitivo para ser.

Precisa viver o luto que é crescer.

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Vida regressiva

Tudo parece estar sob controle,

Até que não mais está.

Nos tique-taque da vida,

Contagens regressivas,

Inícios e fins,

Cicatrizes e feridas,

Coisas que passamos a ter,

Coisas que passamos a não ter mais.

O agora se transforma,

E dependendo da hora,

Não há mais o agora para voltar.

É viver, então, só de memórias,

Com infinitas lamúrias para recitar.

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Inocência

A culpa é dele, digo eu, juiz absoluto da verdade.

Não há possível falha minha, e se há, não posso suportá-la.

Aceitar a falha seria aceitar que não sou tudo que imagino ser, e um vazio absoluto tomaria conta de mim.

E assim sendo, precisaria me reconhecer para de fato me conhecer, para aceitar que sou protagonista da minha própria história, da minha própria vida.

Mas prefiro continuar encenando a peça onde o erro mora do lado de fora, onde eu sou injustiçado, sempre injustiçado, sempre vítima. Onde o diabo são os outros.

A minha fraqueza não se esconde de olhos mais atentos, e este é o meu maior medo: ser descoberto e me ver obrigado a confessar para mim mesmo que não sou inocente.

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Extremos

Enquanto ele andava às margens do rio de lágrimas que a todos une, ela lhe ofereceu mais uma taça de vinho e lhe disse:

– Me deixa te ver chorar.

E ele, sem nada entender e sem nada conseguir disfarçar, perguntou:

– Por quê?

Também com lágrimas nos olhos, ela lhe respondeu:

– Eu quero ver um homem chorar por amor. Talvez isso me faça voltar a acreditar em amar.

E choraram juntos por motivos distintos. O excesso e a falta, nos extremos, se unindo.

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Neurose

A minha derrota não é a tua vitória.

A tua chantagem adia, mas não encerra.

És escravo do gozo angustiado e covarde,

Que envergonhado, a ti mesmo soterra.

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Individuação

E agora, mãe,

Devo sorrir ou chorar?

Joguei todos os meus sonhos fora!

A senhora há de me cuidar?

E quando a senhora for só memória,

De mim a senhora há de lembrar?

Pois vivi a tua história,

E a minha nunca pude nem começar.

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Aos domingos

Prometa estar comigo aos domingos.

Só aos domingos.

Todos os domingos.

Prometa que antes do primeiro raio de sol –

E muito depois do último! –

Tu estarás a meu lado

Corpo colado

Mão com mão.

Porque não há domingos sem ti

E hoje é só mais um domingo…

E domingos tem o cheiro das tuas coxas,

E este cheiro permeia, encanta e semeia

Nas minhas bochechas e no céu da tua boca,

De domingo a domingo.

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Ainda há tempo

Que eu procure pessoas e esteja em lugares onde a minha presença seja celebrada.

Que eu seja recebido e acolhido com sorrisos, e que eu leve sorrisos por onde eu andar.

Que eu olhe e que me olhem nos olhos, mas não com quaisquer olhos: que seja com os olhos do coração.

Que eu guarde com carinho, ternura e respeito, dentro do meu peito, todos os amores que já não mais são.

Que minhas asas, há tanto tempo guardadas, me elevem para que também se elevem meus pensamentos e desejos.

Nunca é tarde demais para voltar a sonhar viver.

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A Paródia

Bateu a saudade,

E aquela vontade louca de ouvir tua voz,

Sentir o teu abraço,

O cheiro do teu perfume.

Bateu a saudade,

Feito pássaro que entra pela janela ou pela porta –

Que mantenho abertas -,

Porque não sei como as fechar.

Bateu a saudade.

Trigésima segunda vez só hoje.

Marco em um papel feito comanda de bar.

A conta?

Eu sei que sou eu quem vai pagar.

Trigésima terceira.

Trigésima quarta.

Trigésima quinta.

Trigésima sexta.

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Incêndio vivo

A saudade não respeita nada e nem ninguém.

Não respeita momento, lugar, tempo, distância.

A saudade é implacável.

Transforma um vinho na geladeira em uma noite de amor sem fim,

Transforma uma escova de dentes deixada para trás em uma série no Netflix ainda por terminar,

Transforma o estar sentado em um antigo restaurante na materialização de presença física, feito quem espera o outro voltar do banheiro,

Transforma uma praia em uma sessão de fotos com voz, cheiro, gosto, toques, cabelos, sorrisos, gemidos, planos, anos, vidas, filhos, viagem, carro, unhas, aliança, aeroporto, rodoviária, almoço de domingo, café, mel, mamão, salada de frutas, ovos mexidos, pão.

A saudade não é o amor que fica.

É muitas vezes a vontade de não ter conhecido, de não ter vivido, de não amar como nunca se amou na vida, como ainda desesperadamente se ama.

A saudade é a tortura e a alucinação de quem ama e repousa em uma cama que não deixa dormir.

É o chamado incessante e silencioso de quem deixa o corpo e a alma em chamas.

Eu sou um incêndio vivo.