E do muito que eu já tinha
Dei-te tudo
Mas é assim que é no amor:
Sempre –
Sempre! –
Se sai com mais
Com muito mais
Do que se tinha antes.

E do muito que eu já tinha
Dei-te tudo
Mas é assim que é no amor:
Sempre –
Sempre! –
Se sai com mais
Com muito mais
Do que se tinha antes.

E sentado rente ao mar
As idéias ali defronte
Indo e vindo em espasmos
Em ondas e ventos
Que se misturam e se atormentam
Distorcendo o horizonte
Jazo imóvel:
Coração que sangra impecável
Diante do destino incerto
E da ferida desnecessária
Ignóbil
E me vejo naufragando
Nas poças que gero eu mesmo
Na esperança
Que se faz de desentendida
Feito quem acredita
E nunca alcança
Mas salva-me o vinho
Meu bom companheiro
E traz-me algum tipo
De ébria pujança
Que faz despir-me de mim mesmo
E perceber que ainda sou
Absoluta verossimilhança
E bem ao fundo
Diante do todo que se cala
Porque se declara mudo
Ouço todos os detalhes
E o quanto
Ainda acredito
Apesar dos pesares
Nas coisas boas deste mundo
E ainda sentado rente ao mar
Eis que as ondas cessam
O sol se abre
E a miudeza desaparece:
Foi só um susto –
Declaro –
E agora já não me desconheço
Porque sou e quero o mesmo de sempre
Por fora
Ou mesmo quando estou do avesso.

Há gente que não vai morrer nunca,
Porque para morrer
É preciso estar vivo.
E você?
Tem vivido?

– E por que você me olha? Já te disse adeus!
– É porque quero me lembrar de ti… É o meu jeito. Eu sou assim.
– Lembrar? Você precisa é esquecer! Deixe de ser ridículo!
– E talvez eu seja drummonicamente ridículo. Não me importo. Preciso te olhar e sentir que não posso mais te amar, mesmo que meu coração por isso grite e chore. Exagerado como sempre, mas real. Preciso ver o tamanho do abismo que me espera após a nossa despedida. Preciso aceitar que não sou mais teu, mesmo que cada partícula da minha existência grite o teu nome. Preciso entender que meu futuro está em outras moças, que até ontem para mim eram completamente invisíveis. Preciso sentir uma última batida do meu coração perto do teu, antes que meu coração mergulhe no mundo do desconhecido, do que eu nunca quis, do que sequer sei que é para mim. Mas acima de tudo, meu amor, minha vida, em lágrimas me despeço dos sonhos. Dos nossos sonhos. Da falta que eles farão em mim… E é por isso que quero me lembrar de ti. Porque te esquecer é também de mim me esquecer. E eu quero te guardar para sempre em alguma gaveta ou prateleira, onde eu possa te ver, e me lembrar de ti, de mim, de nós, e justamente por isso sorrir. Eu só te amo.

Eu não te dei asas;
Tu já as tinha.
Talvez dobradas,
Amarrotadas,
Mas contigo já estavam.
Eu não te dei sorrisos;
Tu já os tinha.
Talvez acabrunhados,
Pensando-se exagerados,
Mas contigo já estavam.
Eu não te dei suspiros;
Só ajudei-te a desengaiola-los.
Eu não te dei prazeres;
Só ajudei-te a vivencia-los.
Eu não te dei nada,
Porque de fato era do nada que precisavas.
Só olhei-te com os olhos e lentes do amor,
E de dentro do teu coração,
Estas e milhares de outras sementes brotaram.

Por ora, moça,
Enxuga teus olhos e vai.
E mais adiante,
Quando estiveres menos ofegante,
Espero que entendas
Que a vida se esvai
Nas pequenas doses de morte
Que ingeres a todo instante.
O sim e o não –
Não ditos –
Mau ditos…
Malditos!
Cansativos
E maçantes.
E teus olhos,
Hoje opacos e distantes,
Sequer relembram os olhos de outrora,
Quando descobriste que eras –
Ainda que por lapidar –
O mais lindo dos diamantes.

Há coisas que são só para os olhos
E há aquelas coisas
Que ousam –
Que pousam! –
No ventre,
No útero,
No nascer,
No adeus,
Em Deus,
Há coisas –
E de todas essas coisas –
Há o grito,
Calmo ou aflito,
Onde te penumbro,
E nunca te ofusco.
Há luz,
Há verdade,
Há claridade
Na cerca que não cerca,
No abraço que não prende,
Na doença que não e moléstia,
Na ausência que é presença
Farta e certa.
E tudo
No momento certo,
Quer seja no coração que sangra,
Ou no que o orgulho lacra –
Aberto! –
Renasce por suas próprias forças,
Posto que o amor
Ressurge e urge
No presente fingido,
Cujo futuro –
Decerto –
É comunhão,
Entrega,
Vida,
Sublime abnegação,
Água no deserto.

Entre tantos parapeitos,
Por que escolheste pousar justo neste?
Justo nestas janelas,
Nas minhas janelas,
Que para mim eram só mais umas janelas –
Entre tantas outras –
De onde eu via o mundo,
E de onde eu não imaginava
Que tu me vias.
Abriste meus olhos –
Sim, as tais janelas –
E enxergou-me por dentro,
Enquanto eu sorria do lado de fora.
Deixei que o fizesse sem pressa –
Mas também sem demora –
Porque eu não saberia descrever
Tudo que dentro de mim ficou
E nunca foi-se embora.
E desde então,
Minhas janelas seguem abertas para o mundo,
Em todo e qualquer segundo,
E de todo e qualquer jeito.
Pois sempre que pousas
No meu parapeito
Convido-te a entrar
Para repousar,
E para te aninhar
Bem dentro –
No centro –
Do meu peito.

Vejo o que não via
E sinto o que eu não queria.
No horizonte que se queima,
Queima a minha fantasia.
Nos copos e bares,
Aldeias e mares,
Restos do que somos,
Apesar dos pesares.
E somos o que somos,
Em todos os lugares,
Presenças indesejadas,
Veias, vasos, capilares.
E no sonho acordado,
Nas esféricas luzes do dia a dia,
Eis que nasce o controle
Do que o controle nada queria.
E nas lembranças secas
De copos e bares,
A libido acesa,
Só olhares… Aqueles olhares…
Entrego-me ou rio?
Vivo ou fantasio?
Nas dores do poente
Ela deságua… Rios.
Deságua, vai…
Finge que me satisfaz,
Mas em meus sonhos é outra a face,
Cuja verdadeira face ficou para trás.

Nem tudo foi como eu esperava.
Nem tudo foi como eu sentia que seria.
Nem tudo foi;
Muita coisa ficou.
Mas aquela esperança que eu tinha,
Que hoje acredito ser só minha,
Aos poucos vai se enfraquecendo,
Dissipando-se na ausência repetida,
No silêncio descomedido,
Na falta de razão ou sentido
E ainda assim,
Aparentemente decidida.
Mas eu aprendi a respeitar,
Pois nunca amei só por amar.
Era algo maior que eu…
E não era só por mim,
E só faz sentido se for assim.
Tudo foi por nós.
Tudo.
Tudo.
Tudo.
Sei e sinto que ainda somos,
Mas o que eu posso fazer agora
Além de desejar que você esteja feliz?
Eu não tenho a chave da porta
Que você fechou por dentro.
E mesmo que a tivesse,
Por nós ela só se abrirá realmente
Se você definitivamente abri-la.
