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Sem nós dois

O mundo ficou tão merda sem nós dois.

Não há amanhã. Não há depois.

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Crescer

Por pura vaidade, não reconhece a perda.

Luta batalhas que não fazem mais sentido.

Chama a atenção para as suas causas irrelevantes –

Todas elas –

Irrelevantes para o mundo; o mundo que não é só dele.

Distorce, trama, difama, manipula,

Pois não tem a coragem de se olhar no espelho.

E ali, bem no meio da poça de sangue

Que se formou dos cortes que fez a si mesmo,

Prosta-se feito criança que espera a saída do escola.

Quer rever seu pai, sua mãe.

Quer que eles lhe digam que vai ficar tudo bem.

Quer se rever criança e poder ser criança.

Mas isso não é mais possível: a criança precisa morrer.

O bebê que ainda é precisa desfraldar.

Precisa sepultar partes suas em definitivo para ser.

Precisa viver o luto que é crescer.

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Mundo mudo

Mundo mudo

Mundo de agora

Me diz pelo vento

Que sopra lá fora

O dizer devido

Para esta hora

Quando foi embora

O aroma floral de outrora

Que exalava de dentro de mim.

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Emburrecimento

Queria discutir grandes questões

Falar de Filosofia

Sentir as coisas do mundo.

Mas não…

Eu só vejo televisão

Faço parte de uns grupos de discussão

E tenho uma opinião formada sobre tudo.

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Não precisamos um do outro

Toda vez que te procuro,

Saibas que é porque te quero

E te quero muito.

E quando me procuras,

Também sei que é porque me queres

E me queres muito.

Tanta querencia –

Nenhuma sofrência –

Não é este o melhor dos mundos?

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Mundo meia boca

Vivemos em um mundo onde ser bom e sincero causa espanto e desconfiança.

As pessoas simplesmente não acreditam mais na bondade e na sinceridade, ou mesmo em qualquer traço de pureza desinteressada. Acham que há algum tipo de manipulação envolvida. Algum tipo de toma lá, dá cá. Acham que o outro está materializando algum arquétipo angelical apenas para mostrar suas garras em um momento oportuno.

É um mundo que está conformado com a mediocridade e que acredita que o medíocre é, ao menos, real, possivel. A mediocridade se transformou, então, em uma espécie de pós novo normal.

E assim, o mundo vai se enchendo de relações medíocres, de momentos medíocres e descartáveis, de frases sem significado, de ideologias imbecilizantes e de mentiras que são repetidamente contadas olhos nos olhos, até chegarem ao ponto de serem reconhecidas como pós verdades. E as verdades, agora sim reconhecidas como mentiras, é que devem ser esquecidas e deixadas de lado.

O amor e tudo mais é líquido em um mundo que escorre por entre os dedos dos medíocres que já são o próprio mundo.

Mataram o mundo. Não sei como eu ainda não morri.

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Felicidade é uma escolha

Imagine-se em um salão cheio de portas. Algumas abertas e outras fechadas. As fechadas você tenta abrir e não consegue. Estão trancadas. As abertas, cada uma delas leva a um lugar ou a uma situação diferente da sua vida. Levam a seu passado.

Sem saber o que fazer, você olha na parede do salão e percebe que há algumas instruções em um quadro:

“As portas abertas são o seu passado. Não a totalidade do seu passado, mas assuntos que ficaram pendentes na sua vida, muito embora você tenha feito todo o esforço possível para resolvê-los.

As portas fechadas são o seu futuro e novas realidades que o universo está disposto a lhe oferecer.

Observação: é preciso fechar as portas do passado para que as portas do futuro se abram. Não há uma relação direta entre a quantidade de portas fechadas no passado com as que se abrirão no futuro.”

Você se senta no meio do salão, sem saber o que fazer. Revisita as portas abertas. Há uma mistura de apego com saudade em algumas portas. Em outras, pura frustração.

Decide, então, começar por estas. Lembra-se de situações frustrantes, da sua responsabilidade sobre elas e das variáveis que não podia controlar. Tira destas situações lições, e vai fechando as suas respectivas portas, uma a uma. Você nota, inclusive, que uma porta aberta, depois de fechada, não pode ser mais aberta.

Ainda sem entender muito bem o que está acontecendo, você tenta abrir as portas do futuro. Nenhuma delas se abriu. Desconfiado, você volta até o quadro com as instruções e as relê, percebendo que está seguindo a risca o processo.

As portas que misturam apego e saudade são mais difíceis de serem fechadas. Por mais que você as olhe, sente-se impotente e pensa:

“Nossa… Há tantas coisas boas ali naquelas portas… Não sei se consigo fecha-las. Nesta aqui, por exemplo. Amei tanto… Fui tão feliz… Mas ao mesmo tempo, nada de bom acontece nesta porta há muito tempo. O que me faz mante-la aberta é a pena de que não tenha dado tudo certo como eu planejei e o medo de que nada parecido volte a acontecer comigo.”

E assim você se sente diante de todos as portas do passado que permanecem abertas. Tenta abrir as portas do futuro, até para ver se alguma das portas poderia substituir alguma do passado, mas as portas continuam trancadas.

Você volta ao quadro para reler novamente as instruções, mas percebe que elas mudaram. No quadro está apenas uma frase:

“Tenha fé no futuro.”

Sem saber o que fazer, você para diante de cada uma das portas abertas do seu passado e começa a fecha-las. Não todas. As mais fáceis, talvez. Sente um aperto no peito e lágrimas escorrem pelo seu rosto enquanto faz isso. Instintivamente, você tenta reabrir algumas delas, mas elas não se abrem mais. Estão trancadas.

Você sente um misto de desespero, desconfiança, e se sente um idiota por ter confiado em um quadro que muda aleatoriamente o texto que nele está escrito. Sua alma enche-se de medo. Seu coração dispara. Você sente-se enganado.

E depois de passar um longo período refletindo sobre o seu passado, uma semente de uma planta chamada “não tenho nada a perder” começa a brotar dentro do seu coração. E você volta diante das portas que ainda permanecem abertas e vai fechando-as uma a uma, até que se dá conta de que fechou todas.

Tenta abrir, então, as portas do futuro, mas elas permanecem fechadas. Revoltado, você volta até o quadro que agora diz apenas:

“O futuro é seu.”

E você ouve o barulho de muitas portas se destrancando. Todas as portas, tanto as do passado como as do futuro. Não pensa em reabrir as do passado, entretanto. Você já sabe o que há dentro delas. Tenta, então, abrir a primeira porta do futuro e adentra em uma sala cheia de outras portas, que por sua vez, conduzem à tantas outras portas. Nada muito interessante, e você resolve voltar para o salão.

Curioso, você vai abrindo todas as portas do futuro, uma a uma, e em cada uma delas há algo que você sempre desejou ou sempre quis. Algo que voce sempre achou essencial para a sua felicidade. Em uma delas, por exemplo, estava o parecia ser o emprego dos seus sonhos. Em outra, o possível amor da sua vida. Cada porta continha um aspecto importante e não menos relevante na sua totalidade, ao ponto de você não saber qual delas escolher.

Intrigado, você resolve voltar até a primeira porta que abriu. Afinal de contas, por que somente ela parecia não levar lugar algum? E para a sua surpresa, na porta estava escrito FELICIDADE. Você abre a porta e entra para ver se algo mudou, e se depara com o mesmo mundo em que vivia antes, mas com a certeza de que já não carrega dentro de si o peso e as dores do passado. O passado agora permanece dentro de você como memórias e histórias, que não mais doem ou assustam. E você olha para trás e se dá conta de que já não há mais porta alguma. Não há para onde voltar. E em um outdoor todo iluminado, bem a sua frente, um texto que você já conhecia:

“O futuro é seu.”

E então você começa a entender tudo e fala para si mesmo:

“O mundo não mudou, mas eu mudei. Estou pronto para o futuro. O futuro é meu.”

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Erva-doce

O cheiro da broa de milho
O café sem pressa
Os vizinhos sempre bem-vindos
Era assim quando eu era menino
E acreditava em coisas à beça

O café agora é espresso
Os vizinhos? Desconheço
A porta da rua sempre trancada
A broa de milho é da padaria
E a violência é a notícia do dia

Saudades da época em que eu achava
Que tinha tempo a perder
Do avô, da avó, dos tios, dos primos
Da sensação de não correr perigo
De ver no mundo um grande e acolhedor amigo

E nesse instante –
Agora! –
Enquanto meus pensamentos vão
Para um passado distante
O tempo parou de seguir adiante
E para mim voltou

É que eu ainda sou o menino
Que se inebria
Quando sente o cheio de erva-doce
E que queria que a vida fosse
Sempre uma tarde de domingo.

dill
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Pernas

Sim, eu sinto ciúmes
Das tuas pernas
E da dança que promoves
Quando te deslocas
E a mim sufocas
Com teu caminhar.

É impossível vê-las
E não sentir ciúmes,
Porque que ainda que
Teu coração seja meu –
Ainda que por ora –
Tuas pernas,
A beleza e a leveza delas –
E da tua alma –
Fazem o mundo suspirar.

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Meu mundo

Que tu te lembres que um dia

Eu te segurei pelas mãos

E te dei o meu mundo:

Um mundo que ninguém conhecia.