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Açoite

Quando a noite chega, chega também o açoite

Chega a saudade que mato no álcool

Chega nos canais de TV que evito ver

Chega no desejo que nego

Chega no saber que estás sei lá onde

Quando o dia chega, chega também o açoite

Mais uma noite que passei sem ti

Meu corpo sem teu cheiro

Os lençóis arrumados e ilesos

Mais um café sem gosto

Queria eu ter o poder de voltar no tempo

Para refazer ou reescrever o momento

Que confesso, desconheço

Em que nos perdemos um do outro

Queria eu ter o poder avançar o tempo

Até viver ou sentir por um momento

Que te esqueci e não me lembro

Que não sei viver sem ti

Açoite

Noite e dia

Dia e noite

Açoite

Açoite

Açoite

Açoite

Açoite

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Destemido

Já tive medo de perdê-la

Até que me dei conta

Que cada dia sem perdê-la

Vale por toda uma vida

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Aleatoridades

Segundos
Minutos
Horas
Dias
Semanas
Meses
Anos

O tempo passa indiferente

A senhora passeia com o cachorro
A mãe vai buscar o filho na escola
“Mais uma cerveja!”, grita o homem no bar
A neta da vizinha respirou pela última vez
Pedro perdeu o emprego e foi assaltado no mesmo dia
E até o final do ano, não há mais feriados nacionais para emendar

O que vai ser da gente?

Segundos
Minutos
Horas
Dias
Semanas
Meses
Anos

O tempo passa indiferente
(e é nítido que caçoa da gente)

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Vai que…

Vai que eu vou embora

E jogo nossos sonhos fora

Mesmo sem saber para onde ir?

Vai que eu tomo tento

E dou ouvidos ao vento

Que insiste em me fazer seguir?

Vai que acabam as maçãs

As noites e as manhãs

E eu me vou sem me despedir?

Vai que eu vou,

Vai que eu não fico?

Vale a pena arriscar,

Vale a pena deixar

A pressão chegar ao pico?

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Todo santo dia

Repara nos meus olhos.

Não me denunciam?

O meu desejo que explode e inunda

Não faz de mim réu confesso?

Devo pedir perdão

Pelo que quero de novo?

A dureza dos meus dias

Só se aplaca em tuas entranhas,

E o gosto e o cheiro das tuas partes nuas

São a verve de todas as minhas fantasias.

Declaro-me orgulhosamente culpado

Por não ser na tua vida um santo:

Meu corpo pulsa e esguicha por ti

Verdades táteis e aromáticas

Todo santo dia.

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Qualquer lugar

Tenho medos infantis

Coragens imensas

Defeitos singulares

Qualidades intensas

Tudo faz de mim o que sou

Tenho uma sensibilidade aguçada

Percebo coisas mesmo sem querer

Não sou capaz de sorrir quando estou triste

Não sou capaz de fingir o que não sei ser

E assim, deste jeito ímpar

Disponho-me a ser seu par

Nos piores e nos melhores momentos

Em todas as dimensões do que é amar

Nas lágrimas e nas risadas

Nas faxinas e nos pratos por lavar

Nos boletos e nas mancadas

Nos olhos fechados do beijar

Por isso beija-me

Porque não estou de passagem

Cheguei para contigo seguir viagem

Rumo a todo e qualquer lugar

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Intolerância

A multidão fazia o que sabia:

Acusava

Julgava

Apedrejava

Matava

E ria!

E depois ia embora

A moral e os bons costumes

Defendidos no meio da via

Crueldade

Maldade

Hipocrisia

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Paradoxal

Ficou o perfume

A cama por fazer

Um vinho avinagrado

A vida por acontecer

E o amanhecer

Antes terno e doce

Agora um coice

Amargo feito fel

Quem sabe um dia

Por pura ironia

A vida nos mostre

Como a vida deveria ser

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Negue-se

Me negue teus beijos

Me puna por me amar

Reclame da tua vulnerabilidade

Da tua fragilidade

Do teu coração descompassado

Das tuas pernas trêmulas

Do teu desejo que tudo queima

Quando teus lábios

Encontram os meus

Me negue teus beijos:

Negue-se

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Nadar

Não quero ir

Só até aonde dá pé

Eu quero é me afogar

No teu mar

Te beber

Te brindar

Bem no fundo

Das tuas profundezas

Nadar no raso

Na superfície

É tolice

Não é verdadeiramente

Nadar