Litros do corpo dela em minha boca.
Meus joelhos sangrando litros rente ao chão.

Litros do corpo dela em minha boca.
Meus joelhos sangrando litros rente ao chão.

Entendo pouco ou quase nada de espanhol, mas tenho visto nos detalhes da língua labaredas e estampidos que eu desconhecia.
No meu curriculum, nego-me a dizer que tenho espanhol básico ou algo que o valha. Eu não entendo espanhol. Eu sinto. Em nível mais do que avançado, diga-se de passagem.
Tem a ver com os vinhos e com as poesias que há dentro deles. Com os amores intensos que não duram mais que uma noite. Com a aproximação suave de quem chega de repente e fica. Constrói, cativa.
Em espanhol também choro saudades de quem já fui. Foi preciso ser o que não mais sou para que eu fosse o meu agora. Para que as lágrimas que tanto vi refletidas em uma taça de vinho se transformassem em sorrisos. Para que eu pudesse ver além do cristal.
Mas, sobretudo, em espanhol eu te beijo. Em espanhol sou raso e sou fundo. Sou incêndios, furacões e tormentas. O antes, o durante, o fim do mundo.
O espanhol é todas as línguas. A minha, a tua. Língua dos confessionários que são as camas e os quartos. Teus quartos. Tuas entradas. Não há saída.
Teu cabelo negro e avermelhado diante do sol adentra meus vislumbres de Neruda e rasga meu peito. Teu gozo é em braile e arranha meu pescoço, minha alma. Tira-me o chão. Devolve-me tudo.
O espanhol fez e faz isso por mim todos os dias. Estou ouvindo o teu chamado até quando tu não me chamas. Óleo de macadâmias que não saem das minhas mãos bezuntadas de ti que esfrego em minha face. Estou e vivo rúbio.
Ouça minhas palavras com cautela, pois como disse, não sei falar espanhol. Entretanto, bem sei que tu me conheces mais pelo que não digo. Lonjuras entre nós são puro castigo. É real e iminente o perigo.

Algumas de nossas coisas
Só nos fazem falta
Quando já não são mais nossas coisas.
Que fim levaram?
Para onde vão?
Agora, que já se foram,
Só restou o vão.

Admito que não foi fácil.
Havia tantas histórias,
Tantas memórias,
E tudo o que eu mais tentava esquecer
Era justamente tudo que me fazia lembrar.
Aprendi que tentar esquecer
É o mesmo que reconhecer
Que algo é inesquecível.
Desisti.
Vez ou outra,
As lembranças ainda me chegam
Feito ondas do mar,
Que me molham da cabeça aos pés.
Vejo-me em mergulhos profundos no que já fui,
Mas que a vida disse para eu não mais ser.
Talvez um dia o mar seque.
Talvez um dia tudo seque.
Já lamentei tudo isso,
Mas talvez tenha que ser assim:
Um deserto de sal,
Com toneladas e toneladas de sal despejadas
Por mãos que nunca pertenceram a mim.

Dias lentos, vagarosos
Dias vividos, sentidos
Dias com sentido
Dias cheios de alento.
Dias em que o vento –
Sempre atento ao tempo –
Sussurra em meus ouvidos
Palavras maravilhosas:
“Não há mais perigo
Agora, é contigo
Siga em frente.”

Obrigado por me lembrar
De buscar na tua casa
O que eu propositadamente esqueci.
Não deixe na portaria –
Espere-me de porta aberta –
Pois vou subir.
Aproveita e peça uma pizza!
Pode até ser com catupiry.
O vinho eu levo, claro,
E já aviso que novamente vou esquecer
Alguma coisa por aí.

Aos poucos,
Tudo volta a seu lugar.
Os sonhos, os desejos,
O amor e o amar.
E o coração se liberta da culpa,
De não ter sido bom o suficiente,
Porque nunca há de ser suficiente
Aquilo que não se quer receber,
Aquilo que não importa se chegar.
Aos poucos,
Tudo volta a seu lugar.
E eu quero e mereço um lugar
Aonde eu possa estar
Sem meu coração sangrar.
Que eu me livre do engano,
Que morram a esperança,
As expectativas e os planos,
E que meu presente não seja só
Uma eterna lembrança
Dos meus tempos de criança,
Quando tudo que eu sabia fazer era sonhar.
Eu quero,
Eu preciso:
É imperativo realizar.

Entre ferir e ser ferido, eu prefiro…
Ir à praia e tomar água de coco.
Diante de qualquer dilema, lembre-se que as opções mais óbvias podem não ser as únicas disponíveis.

Eu exagerava
Nas palavras que te dizia,
Em como te descrevia,
Mas havia um motivo:
Tudo relativo a ti
Era em mim exagerado.
Cada despedida,
Uma morte.
Cada abraço,
Uma ressurreição.
Tu eras um exagero em minha vida,
Daqueles que nunca são suficientes,
Que nunca são o bastante.
E ao mesmo tempo não eras vício,
Mas sim uma opção,
Que eu fazia e refazia,
Todos os dias.
As minhas intenções
E mesmo limitações,
Eram muitas e claras,
Porque eram óbvias
E eram a minha maneira
De dizer que eu –
Todo o meu eu –
Era todo teu.
Amei-te por amar-te,
Sem pensar ou teorizar,
Porque amando-te,
Descobri-me, despi-me,
Como nunca havia feito antes.
E hoje,
Nas andanças do tempo,
Todos os dias,
Guardo-te nos exageros
Também presentes
Nos jardins de minhas memórias,
Onde só brotam rosas brancas.

Há inocência nas palavras do poeta.
Há projeções.
Há idealizações.
Há fantasias.
Há idiossincrasias.
Há crenças.
Há fé.
Há verdades que o tempo se encarrega de mostrar
Que não possuem lastro algum na realidade.
E nesse processo, algumas poesias se apagam,
Outras tantas se perdem,
E o poeta se sente um bobo,
Um contador de histórias ridículas,
Um louco,
Um palhaço de circo
Cercado por hienas famintas.
A plateia dele ri e debocha.
Caçoa-o de forma vil,
Torcendo pela sua morte,
Mal sabendo que é na morte, –
Mais uma entre tantas mortes –
No meio do escárnio e do suplício,
É que o poeta encontra a sua redenção,
Retomando a sua forma mais sublime.
Há inocência nas palavras do poeta,
Posto que a inocência é o seu líquor, sua essência,
De forma que ele apenas lamenta
Por quem em suas palavras
Nada dele viu ou a ele sentiu,
Fustigando o poeta pela sua própria existência.
