Sair de cabeça erguida, Brindar a integridade, Degustar a verdade, Manter a sanidade, Ver as luzes da cidade E sentir orgulho do eu que já não mais sou.
Porque este eu, Este que não mais sou, Lutou como sabia, Tentou tudo que lhe cabia, E na sua derrota aparente, Surgiu vitorioso um dia.
Não venceu ninguém, Posto que com ninguém competia.
Não humilhou ninguém, Posto que assim se humilharia.
Foi só um alguém, Que verdadeiramente existia.
E hoje, mais forte, Mais valente, Mais amoroso, Olho para o eu que já não sou E agradeço a Deus de joelhos por já ter sido.
Porque tudo que eu era É hoje pedra fundamental Do que vivo, Do que sinto, Do que acredito, E de tudo mais que eu já sou, E de tudo mais que eu ainda serei.
Entendo pouco ou quase nada de espanhol, mas tenho visto nos detalhes da língua labaredas e estampidos que eu desconhecia.
No meu curriculum, nego-me a dizer que tenho espanhol básico ou algo que o valha. Eu não entendo espanhol. Eu sinto. Em nível mais do que avançado, diga-se de passagem.
Tem a ver com os vinhos e com as poesias que há dentro deles. Com os amores intensos que não duram mais que uma noite. Com a aproximação suave de quem chega de repente e fica. Constrói, cativa.
Em espanhol também choro saudades de quem já fui. Foi preciso ser o que não mais sou para que eu fosse o meu agora. Para que as lágrimas que tanto vi refletidas em uma taça de vinho se transformassem em sorrisos. Para que eu pudesse ver além do cristal.
Mas, sobretudo, em espanhol eu te beijo. Em espanhol sou raso e sou fundo. Sou incêndios, furacões e tormentas. O antes, o durante, o fim do mundo.
O espanhol é todas as línguas. A minha, a tua. Língua dos confessionários que são as camas e os quartos. Teus quartos. Tuas entradas. Não há saída.
Teu cabelo negro e avermelhado diante do sol adentra meus vislumbres de Neruda e rasga meu peito. Teu gozo é em braile e arranha meu pescoço, minha alma. Tira-me o chão. Devolve-me tudo.
O espanhol fez e faz isso por mim todos os dias. Estou ouvindo o teu chamado até quando tu não me chamas. Óleo de macadâmias que não saem das minhas mãos bezuntadas de ti que esfrego em minha face. Estou e vivo rúbio.
Ouça minhas palavras com cautela, pois como disse, não sei falar espanhol. Entretanto, bem sei que tu me conheces mais pelo que não digo. Lonjuras entre nós são puro castigo. É real e iminente o perigo.