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Mandala

Não me beijes hoje,

Não me abraces hoje,

Porque posso não estar aqui amanhã,

Porque posso não acordar de novo.

Faz tudo isso –

De novo, e de novo, e de novo,

Porque amanhã sei que me quererás,

Assim como sei que hei de te querer

De novo, e de novo, e de novo,

Feito hoje.

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Infinito

As marcas indeléveis das suas ondas nos rochedos da minha alma mudaram por completo a minha percepção de mundo. Minha vida, que antes parecia plana e suave, hoje é escarpada e imprevisível.

Confesso que ainda travo intensas batalhas internas quando comparo o meu eu antigo com o novo. O antigo, antes de você, parecia mais seguro e previsível. Os dias eram repetições e mais repetições. Pareciam roteiros enlatados, e que (hoje) considero enfadonhos. O novo, o com você, me assusta. Sinto-me em uma espécie de montanha russa sem fim, que me leva de sorrisos esfuziantes até lágrimas de sangue. É tudo visceral. É tudo com um pé no chão enquanto o outro pé flerta com um precipício.

Já pensei em desistir de tudo, e ir de volta para o meu antigo mundo, onde você era apenas um desejo, um tesão, uma ideia, um momento, um instante. Só que já não sei mais voltar. Dentro de mim há esta certeza velada, que volta e meia nego e renego, de que esqueci o caminho de volta propositadamente, na certeza de que cada dia a seu lado desperta em mim sensações, emoções, explosões, amores e paixões que meu eu antigo jamais seria capaz de experimentar.

Tudo com você é diferente. Absolutamente tudo. Do rir ao chorar. Do ouvir ao falar. Do confessar ao desabafar. Do pedir ajuda ao ajudar. Do amar ao odiar. Da briga ao abraço que sela a paz. Da taça de vinho ao beijo na boca. Dos gostos aos cheiros. Da textura da pele até o último fio de cabelo. Das mãos dadas ao passear pelas ruas e avenidas aos orgasmos inundantes e estarrecedores. Do carinhoso beijo de boa noite ao sexo sem barreiras, pudores ou limites, que invade nossa cama diante dos primeiros raios de sol, quando quase todo mundo ainda está dormindo.

E agora, neste exato instante, na medida em que leio releio o que escrevi, me dou conta que este texto é uma espécie de despedida respeitosa de tudo que me preparou para sermos o que somos. O meu eu antigo tinha um propósito, e o responsabilizo diretamente por eu, meu eu de hoje, ter chegado até aqui. Ele se foi e não deixa saudades mas sim uma miríade de possibilidades. Ao seu lado, meu amor, sinto-me parte do infinito.

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Alice

Eram umas 4 horas da manhã. Eu tinha acabado de deixar a Alice na casa dos parentes. A nossa noite tinha sido para lá de especial. Eu estava feliz e ela também. O ano era 1995.

Eu estava voltando do Rio para Niterói dirigindo. Sempre gostei de dirigir na Ponte durante a noite. Não lembro qual rádio eu estava ouvindo, mas me lembro bem da música: “See you on the other side”, do Ozzy Osbourne. Até achei estranho ouvir a tal música na rádio, mas achei que era um presente de Deus ou algo assim. Apenas a senti e continuei a admirar a paisagem. Eu dirigia devagar. Eu queria que aquilo tudo que eu estava sentindo durasse para sempre.

A Alice morava em Goiânia/GO. Vinha para o Rio de 15 em 15 dias com os pais. Eles não sabiam que a gente se encontrava. Ela dizia que saía com as amigas, mas lá estava eu religiosamente buscando-a. Carro emprestado por um amigo. Eu mal tinha dinheiro para a gasolina, mas dava meu jeito digitando textos, programando… Eu fazia um pouco de tudo para poder comer uma pizza com a Alice, tomar um sorvete e coisas do tipo. Acima de tudo, eu gostava muito da companhia dela e achava o seu sotaque delicioso, envolvente, diferente.

Eu não tinha celular e nem ela. Ela tinha o número da minha casa e eu tinha o número da casa dela. Apesar disso, eu nunca tinha ligado para a sua casa. Afinal de contas, os pais não sabiam e era algo que eu respeitava. Era sempre a Alice que me ligava (e tenho certeza que os pais dela deveriam se tocar das fortunas gastas com o DDD).

Quando chegava de volta em Goiânia, a Alice me ligava. Algumas vezes era só para dizer que tinha chegado bem. Coisa de minutos. E naquela segunda-feira, ela não me ligou. Somos “criaturas de hábitos” e aquilo me deixou de orelhas em pé. Preferi ignorar. Me ligaria mais tarde. Certeza.

A segunda-feira foi embora sem nenhum telefonema. Tive dificuldades para dormir e ao mesmo tempo a certeza de que ela me ligaria no dia seguinte. E ela não ligou. Cheguei até a testar o meu telefone para ver se estava funcionando e de fato estava. Pensei em ligar para a casa dela e me lembrei de seus pais. Lembrei do nosso beijo de despedida e tive a certeza de que não havia nada de errado entre nós. Havia de fato algo de errado, só que eu não sabia o que era.

Não dormi de terça para quarta-feira. Antes do meio dia da quarta, resolvi ligar para a casa dela. Pensei nos pais e resolvi ligar mesmo assim. Sei lá… Eu diria que era um amigo ou algo do tipo.

– Bom dia! Eu poderia falar com a Alice, por favor?

Uma voz masculina me respondeu.

– É o Fábio quem está falando?

Eu estremeci. Não sabia o que dizer ao certo.

– Sim, sou eu. É o pai dela quem está falando?

Silêncio do outro lado da linha. Ouvi um suspiro profundo.

– Sim, Fábio. Sou eu… Ela me falou de vocês durante o voo de volta para Goiânia.

– Olha… O senhor me desculpe… Eu queria contar, mas ela achou melhor deixar para depois…

Novo silêncio, até que a voz embargada de um homem me respondeu.

– Ela faleceu, Fábio. Morreu em um acidente de carro terrível enquanto ia para a faculdade.

Eu explodi em lágrimas. Não era possível! Será que eu tinha ligado para o número errado? Será que estávamos falando da mesma Alice?

– Eu ia te ligar para dar a notícia, mas imagino que saiba o quanto está sendo difícil para nós lidar com isso tudo…

Eu não conseguia dizer nada. Só chorava… E ele complementou.

– Ela tinha dito que queria se mudar para o Rio… Que queria continuar os estudos aí… Ela me disse que estava apaixonada… E era por você, Fábio. E eu não te conheço, rapaz… Mas saiba que ela se foi assim, com você no coração…

Não lembro do que falamos depois disso. Nada. Nem uma palavra. Sei que desliguei o telefone e fui para a rua. Enchi a cara. Nem sei como cheguei em casa. Só sabia que a Alice tinha ido embora.

E então me lembrei da música e a música se tornou uma prece. E a Alice sabe, onde quer que ela esteja, que mais de 25 anos depois não há uma única vez em que eu ouça essa música sem lembrar dela, sem lembrar de nós, e novamente explodir em lágrimas.

Não sei se daria certo. Éramos muito jovens, mas também era fato que estávamos apaixonados. E foi com a Alice que eu aprendi que tudo que importa é o hoje, porque o amanhã de fato pode não existir.

Dedico essa música a ela e peço a quem me lê: ame como se fosse o último dia, porque de fato pode ser.

I will see you on the other side, Alice.

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Crisol

O que eu procurava
Em mim já existia
E se transformava em poesia
A todo instante

Um universo inteiro
A lua e o sol
Na vida um crisol
De tudo que é verdadeiro

Vivos e gritantes
Os abraços e os beijos
As paixões e os desejos
As taças que já bebi

Todas as minhas vísceras
As tristezas e os medos
As confissões e os segredos
O amálgama de mim

Era essa a minha loucura
Procurar o que eu já tinha
O que em mim se aninha
O que estou disposto a oferecer

É tudo gratuito
Pois nada tem preço
Porque tudo que ofereço
É porque só sei ser assim.

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Ubíquo

Mesmo sem estar aí,
Aí estou.
Mesmo não estando nem aí,
Aí estou.
Mesmo aqui,
Aí estou.

Estou e sou
Aí e aqui
Todo teu.

E daí,
Me diz aqui:
E aí?

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O depois é feito de agoras

Há dias em que a manhã parece chegar cedo demais. Há dias em que a noite parece chegar tarde demais. Há momentos que eu não quero que acabem, e que são eternidades que não duram mais do que alguns poucos segundos. Há momentos que parecem durar para sempre, e que eu gostaria que se fossem em um piscar de olhos.

Do alto dos cumes, muitas vezes sem perceber, preparei a minha queda. Da profundeza dos vales, muitas vezes sem perceber, preparei a minha ascensão. Curiosamente, já confundi cumes com vales, vales com cumes, e só me dei conta disso no depois. Depois, tudo ficou claro. Depois, tudo fez sentido. Depois, só depois.

Hoje, quero trazer o depois para o durante, para o agora. Quero entender que há vales e cumes, cumes e vales, mesmo sem saber ao certo o que são, e vivê-los como se não houvesse um depois. Como se só houvesse o agora.

Dei-me conta que não faz sentido dizer que serei isso ou aquilo depois. Depois da promoção, depois da minha filha se formar, depois de eu amar de novo. Não. O agora já é o depois de algum outro agora, de um agora que ficou para depois. Cume ou vale, vale ou cume. Agora é agora. Tanto faz.

Quando olhei para minha vida e a despi sem pudores, me dei conta dos muitos agoras que desperdicei esperando por algum depois. Não quero mais isso. Tudo que tenho é o agora e não vou deixar nada para depois. Nada.

O tempo é uma ilusão: é infinito, algo que eu não sou.

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Muitíssimo

Estou em busca de coisas brutas.

Sentimentos brutos, melhor dizendo,

Daqueles que não são processados ou raciocinados,

Daqueles sobre os quais não se tem domínio,

Daqueles que carecem de razão,

Daqueles que são porque são,

E isso é o que neles basta.

 

Quero o sorriso que não se consiga conter.

Quero gargalhadas agudas,

Daquelas que fazem cuspir farofa.

Quero lágrimas de tanto rir,

E rir de sentir dor na barriga.

E quero me lembrar disso depois,

E recontar a história ou o “causo”

Só para rir mais ainda.

 

Quero o toque que fique,

E que fique com o cheiro do meu perfume.

Quero tocar e ficar com outro perfume,

Só para criar um terceiro perfume

Que surge quando os outros dois se misturam.

Quero chamar esse cheiro de “nosso”,

E achar que é este mesmo cheiro que sinto

Quando passo em frente a uma perfumaria.

 

Eu quero lembrar,

E lembrar para sempre.

Eu quero que cada segundo seja único,

E quero repeti-lo sempre,

E tentando repeti-lo,

Criar outros tantos segundos únicos.

Quero que tudo seja inesquecível,

Guardado com carinho e orgulho,

Para não ser contado para quase ninguém.

 

Haverá desentendimentos –

Eu sei –

Porque sempre haverá a necessidade de entender.

Haverá dias ruins, ruins demais,

E que irão passar,

Pois tudo que for ruim irá passar

Para dar lugar a tudo que for bom.

 

Eu não quero muito.

Eu quero o mínimo necessário que me baste.

Mas eu sou muito…

E acabo querendo muito, sim.

Muito…

Sempre muito,

Na certeza de que tudo é e pode ser muitíssimo.

Abundance-mindset

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Não vou passar

A tempestade vai passar

 

Eu não

 

Não sou passageiro

Não sou

E não vim

De passagem

 

Sou atemporal

O infinito

No infinitivo

 

E ante o rugido

E o clarão dos trovões

Dou passagem

 

E é nesse ponto que a vida se engana:

Quando acredita que me conjuga.

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Inexclicáveis

De todos os clicks e likes que já recebi

Quantos tantos outros deixei de receber

Por serem inexclicáveis?

Quantos foram sorrisos?

Quantos foram saudade?

Quantos foram desejos?

Quantos foram vontades?

Quantos foram orgasmos?

Quantos foram queijos e vinhos?

Quantos foram café?

Quantos foram eus desobrigados?

Quantos foram paixão?

Quantos transbordaram?

Quantos foram o infinito?

Quantos foram liberdade?

Quantos foram amor?

Quantos ainda hoje são

Quantos simplesmente são

Independentemente do que se diz que é?

Quantos…

Quantos…….

Quantos………….

Tudo é tão inexplicável

E a vida assim

Seguindo

Morrendo

E vivendo

Em verdades

Inexclicáveis.

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Amo feito uma criança

Todos os dias

Faço escolhas

Dos mais variados tipos

A vida é minha

E as consequências de minhas escolhas

Também

 

Por isso

Ando em busca de sorrisos

Inteiros

Verdadeiros

Em busca de certezas

De atitudes

Não de dúvidas

 

Em busca do que agora sou

E não mais do quem eu era

Em busca do imperecível

Do não descartável

Do que não possa ser apagado

Do que deixa rastros

Do que não se esconda

Do que escolha ficar

Do que nem pense em ir

Do infinito

 

Eis que o pejo da experiência

Cobra e recobra seu preço:

Amo com a pureza de uma criança

Mas viver de brincadeira

Só se for em uma outra vida

Já foi-se

Infelizmente

A minha infância.

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