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Castigo

Vou me embora

Porque já passou da hora

E eu joguei meus sonhos fora

Em uma lata de lixo.

Vou me embora

Porque na minha memória

Já não há nenhuma história

E meu coração bate fixo.

Mas acima de tudo vou me embora

Porque se apagaram as luzes de outrora

E a única coisa que me revigora

É deitar-me aos pés de um crucifixo.

Fátima – Portugal
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Não inerte

Não é sobre ter

É sobre ser

Porque meu ser

É o que de fato tenho.

Em alguns momentos

Não fui

Em tantos outros

Fui aquém

E também além.

E nestes altos

E nestes baixos

Nas cirandas da vida

Vou me tendo:

Mas sei que o que tenho hoje

É diferente do que tinha ontem

E amanhã será diferente também.

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Muito eu vi(vi)

Eu vi a birra da criança

Eu vi a alegria dos bate-bate

Eu vi os escorregadores e os balanços

Eu vi os cachorros rolando na grama

Eu vi o senhor e seus passarinhos

Eu vi as flores e as cutias

Eu vi o casal se beijando ardentemente

Eu vi o pipoqueiro e seu carrinho

Eu vi o coreto e a igreja matriz

Eu vi o moço que vendia balas e balões

Eu vi o lago e os peixinhos.

E ali, bem ali

Bem no meio daquele campo

Eu revivi a minha infância

Cheio de saudades de quem deste mundo

Já se foi sem mim.

Campo de São Bento – Niterói/RJ
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Me convida para dançar?

Eu convido a vida para essa dança

Mas eu mesmo não sei dançar

 

É que vi nessa foto

Nos cabelos grisalhos

Na leveza trazida pelo passar dos anos

A vida em sua excelência

O futuro onde quero chegar

 

Quero ser a melhor versão de mim mesmo

E se no caminho eu me atrapalhar

Ou mesmo me cansar

Me faz um favor, vida

Me convida para dançar?

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A culpa não era das panelas

Comprei panelas novas,

Porque as panelas da minha falecida avó

Já pareciam muito velhas.

Eu culpava as panelas velhas

Por não conseguir fazer as receitas da minha avó,

Que tinha ido embora bem velha.

Não consegui.

As panelas novas de nada adiantaram.

E foi então que eu percebi

Que nunca foram as panelas:

Nem as novas e muito menos as velhas.

Minha avó conseguiria fazer com as novas

O que ela consegui fazer tantas vezes –

Infinitas vezes! –

Nas panelas velhas.

E então eu chorei.

Choro de neto.

Quero de volta as coisas velhas:

Minha avó e suas panelas.

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Verão

Que o tempo frio

Sirva de pretexto –

Talvez contexto –

Para unir corpos e almas

Em um só coração.

E então o inverno,

Com seu propósito eterno,

Nas labaredas dos mistérios,

Se tornará verão.

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A vida como é

Não há nada de errado:

Não há inocentes,

Não há culpados.

A vida continua doce

Na ira,

Na birra,

Na verdade

E na mentira.

A vida segue como é

E não como se fosse;

E confesso que se talvez fosse,

Não seria tão boa quanto é.

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Insanidade

Insanidade é acreditar
Que o outro é insano
Apenas porque
A insanidade do outro
É diferente da sua.

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Amor é fogo que arde sem se ver – por Luís de Camões

Amor é um fogo que arde sem se ver,
É ferida que dói, e não se sente;
É um contentamento descontente,
É dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
É um andar solitário entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É um cuidar que ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata, lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?

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Lápide – por Ariano Suassuna

Quando eu morrer, não soltem meu Cavalo
nas pedras do meu Pasto incendiado:
fustiguem-lhe seu Dorso alardeado,
com a Espora de ouro, até matá-lo.

Um dos meus filhos deve cavalgá-lo
numa Sela de couro esverdeado,
que arraste pelo Chão pedroso e pardo
chapas de Cobre, sinos e badalos.

Assim, com o Raio e o cobre percutido,
tropel de cascos, sangue do Castanho,
talvez se finja o som de Ouro fundido

que, em vão – Sangue insensato e vagabundo —
tentei forjar, no meu Cantar estranho,
à tez da minha Fera e ao Sol do Mundo!