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Deserto de sal

Admito que não foi fácil.

Havia tantas histórias,
Tantas memórias,
E tudo o que eu mais tentava esquecer
Era justamente tudo que me fazia lembrar.

Aprendi que tentar esquecer
É o mesmo que reconhecer
Que algo é inesquecível.

Desisti.

Vez ou outra,
As lembranças ainda me chegam
Feito ondas do mar,
Que me molham da cabeça aos pés.
Vejo-me em mergulhos profundos no que já fui,
Mas que a vida disse para eu não mais ser.

Talvez um dia o mar seque.
Talvez um dia tudo seque.
Já lamentei tudo isso,
Mas talvez tenha que ser assim:
Um deserto de sal,
Com toneladas e toneladas de sal despejadas
Por mãos que nunca pertenceram a mim.

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Dias à frente

Dias lentos, vagarosos

Dias vividos, sentidos

Dias com sentido

Dias cheios de alento.

Dias em que o vento –

Sempre atento ao tempo –

Sussurra em meus ouvidos

Palavras maravilhosas:

“Não há mais perigo

Agora, é contigo

Siga em frente.”

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Minha memória não anda boa…

Obrigado por me lembrar

De buscar na tua casa

O que eu propositadamente esqueci.

Não deixe na portaria –

Espere-me de porta aberta –

Pois vou subir.

Aproveita e peça uma pizza!

Pode até ser com catupiry.

O vinho eu levo, claro,

E já aviso que novamente vou esquecer

Alguma coisa por aí.

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Realizar

Aos poucos,

Tudo volta a seu lugar.

Os sonhos, os desejos,

O amor e o amar.

E o coração se liberta da culpa,

De não ter sido bom o suficiente,

Porque nunca há de ser suficiente

Aquilo que não se quer receber,

Aquilo que não importa se chegar.

Aos poucos,

Tudo volta a seu lugar.

E eu quero e mereço um lugar

Aonde eu possa estar

Sem meu coração sangrar.

Que eu me livre do engano,

Que morram a esperança,

As expectativas e os planos,

E que meu presente não seja só

Uma eterna lembrança

Dos meus tempos de criança,

Quando tudo que eu sabia fazer era sonhar.

Eu quero,

Eu preciso:

É imperativo realizar.

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Rosas Brancas

Eu exagerava
Nas palavras que te dizia,
Em como te descrevia,
Mas havia um motivo:
Tudo relativo a ti
Era em mim exagerado.

Cada despedida,
Uma morte.
Cada abraço,
Uma ressurreição.

Tu eras um exagero em minha vida,
Daqueles que nunca são suficientes,
Que nunca são o bastante.
E ao mesmo tempo não eras vício,
Mas sim uma opção,
Que eu fazia e refazia,
Todos os dias.

As minhas intenções
E mesmo limitações,
Eram muitas e claras,
Porque eram óbvias
E eram a minha maneira
De dizer que eu –
Todo o meu eu –
Era todo teu.

Amei-te por amar-te,
Sem pensar ou teorizar,
Porque amando-te,
Descobri-me, despi-me,
Como nunca havia feito antes.

E hoje,
Nas andanças do tempo,
Todos os dias,
Guardo-te nos exageros
Também presentes
Nos jardins de minhas memórias,
Onde só brotam rosas brancas.

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Inocência

Há inocência nas palavras do poeta.
Há projeções.
Há idealizações.
Há fantasias.
Há idiossincrasias.
Há crenças.
Há fé.
Há verdades que o tempo se encarrega de mostrar
Que não possuem lastro algum na realidade.

E nesse processo, algumas poesias se apagam,
Outras tantas se perdem,
E o poeta se sente um bobo,
Um contador de histórias ridículas,
Um louco,
Um palhaço de circo
Cercado por hienas famintas.

A plateia dele ri e debocha.
Caçoa-o de forma vil,
Torcendo pela sua morte,
Mal sabendo que é na morte, –
Mais uma entre tantas mortes –
No meio do escárnio e do suplício,
É que o poeta encontra a sua redenção,
Retomando a sua forma mais sublime.

Há inocência nas palavras do poeta,
Posto que a inocência é o seu líquor, sua essência,
De forma que ele apenas lamenta
Por quem em suas palavras
Nada dele viu ou a ele sentiu,
Fustigando o poeta pela sua própria existência.

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Você e eu

É lindo tudo que não fomos
Tudo em que não acreditamos
Tudo que nos venceu

Ando pelas ruas relembrando
Muitas vezes sonhando
Com tudo que não nos aconteceu

E o meu castigo, minha pena
É saber que no meu coração
Tudo de fato ocorreu

As lágrimas de sangue em minha face
São a falta do que nem sei se de fato houve:
O início ou o fim de você e eu.

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Resistência

Houve um tempo

Em que as pessoas diziam

Exatamente o que iriam fazer.

Não havia opção.

Nas mentes e nos corações,

Uma mistura de honra, coragem e integridade,

Que eram então os alicerces do caráter.

Hoje, não mais.

Tudo é líquido,

Tudo muda da noite para o dia

E a única certeza é a mudança.

Palavras não valem mais de nada

E as atitudes são aleatórias.

A sociopatia coletiva não consegue distinguir

Lobos de ovelhas e nem ovelhas de lobos.

As narrativas se formam tendo como base

Os interesses e não mais a verdade.

Não há mais certo ou errado.

Há apenas o conveniente,

O raso, o rasteiro e o sem nexo.

Vivo neste mundo,

Mas não sou deste mudo,

E nunca irei me acostumar com isso.

Eu faço parte da resistência.

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São João

Talvez haja mais na festa do que o quentão,

A canjica, o curau, a pamonha e a paçoca.

Talvez haja mais do que as quadrilhas,

As roupas, as brincadeiras, os balões e as fogueiras.

Fogueiras…

De chamas crepitantes,

De labaredas que se abraçam

Por puro desejo e prazer.

Balões…

Coloridos, ascendentes,

Como são nossos sonhos fulgentes

Dançando no céu desta noite limpa.

Nos olhos de cada um,

O brilho e a esperança de uma vida inteira

Por viver,

Por fazer acontecer.

Hoje é dia de São João,

E no meu coração

Explodem os fogos do amor.

E com eles eu escrevo no céu

O seu nome

Seguido de um eu amo você.

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Silêncios

No silêncio não há verdades ou mentiras.

É tudo subjetivo, opinativo,

E talvez por isso deveras mais dorido.

No silêncio tudo cabe.

Tudo é e não é

Em um piscar de olhos,

Nas memórias que carecem

De algum tipo de sentido ou explicação.

O silêncio cansa,

O silêncio machuca,

O silêncio ensurdece,

Ainda que não seja este o seu objetivo.

Pior do que isso é que sei

Que as respostas que procuro

Estão nestes silêncios

E dentro destes silêncios

Estou eu.