Há o que ser comemorado? Estou farto de todos os anos desejar felicidades para as mulheres! Que tipo de hipocrisia é esta de minha parte?
As mulheres precisam de muito mais do que isso.
Vi na Internet outro dia:
“Não nos deem flores. Apenas parem de nos matar!”
Releiam esta frase! Sintam essa frase! Percebem do que estamos falando? Do direito das mulheres de viver.
Recentemente, publiquei um texto dizendo que sou antimachista. Sou mesmo e estou em uma cruzada pessoal neste sentido. Tenho uma filha mulher, o que só agrava a situação, além de em nível pessoal e particular acompanhar situações em que a integridade física e psicológica das mulheres está em xeque.
Que negócio é este? A mulher é vítima de violência e não pode contar com o apoio de NINGUÉM. Repito: NINGUÉM. A família, a igreja, e em alguns casos até o Judiciário/Polícia, passam pano! Fica sempre parecendo que a mulher fez por merecer, e que de alguma forma se justifica a violência sofrida!
Ontem mesmo eu estava lendo os comentários sobre o recente estupro coletivo. Um deles é de arrepiar:
“Coitados desses meninos… Acabaram com suas vidas!” A vítima, a mulher, deixada de fora do comentário. E pior: a frase foi dita por uma mulher.
É hora de decidirmos o que queremos para o nosso futuro. Precisamos entender que a nossa sociedade é estruturalmente machista e misógina. As instituições são machistas e misóginas, as relações são machistas e misóginas, e as pessoas, incluindo algumas mulheres, também o são. Enquanto isso não for trazido para o nível do consciente, vamos achar que é assim porque sempre foi assim e está tudo bem.
NÃO ESTÁ TUDO BEM! ESTÃO MATANDO AS NOSSAS MULHERES! E quando não as estão matando, elas estão sofrendo desamparadas, no mais absoluto silêncio.
CHEGA! CHEGA! CHEGA!
É nosso dever coletivo cuidar disso. Como começar? Repudiando a piadinha sem graça do amigo. Não repetindo frases do tipo “em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher”. Nos colocando ao lado das mulheres quando necessário. Parecem atitudes pequenas, mas a violência contra as mulheres encontra lastro no dia a dia. É nas pequenas atitudes que os canalhas abusadores encontram justificativas para seus comportamentos intimidadores e perversos.
Então, no dia 8 de Março, pode até haver flores e bombons, mas que haja também firmeza e atitude. E que isso seja uma prática constante e não só um post em um blog qualquer.
– Mãe, preciso falar com você. – Já disse para você ir no médico de Uber! – Mas não seria melhor você ir comigo? – Por mim você nem iria! Essa coisa de Psiquiatra é invenção da sua tia! E deixa eu continuar a falar com sua avó!
“Vou tentar meu pai”
– Pai, eu queria que você fosse no médico comigo amanhã… – Eu estou em reunião! Agora não dá! – Mas pai… – Depois a gente conversa!
“Vou tentar minha irmã. É fácil saber que ela está em casa. O cheiro dessa coisa que ela fuma é insuportável!”
– Júlia, você pode ir no médico comigo amanhã? – Sai fora, fedelha! Tenho mais o que fazer! – Mas eu não quero ir no médico sozinha! – E desde quando eu sou sua mãe? Se enxerga!
Carla tinha 13 anos. Foi criada em uma família típica do século XXI. Pai e mãe ausentes, família dispersa. Grande parte do que aprendeu foi com os amigos. Alguns bem intencionados. Outros nem tanto. Gostava de animes e passava grande parte do seu tempo depois das aulas no WhatsApp. Era o que ela tinha para fazer.
Seus pais nunca cobraram dela nada relacionado a seus estudos. Nunca foram em uma apresentação ou evento na escola. O sonho dela era ser bailarina. Ninguém da família sabia que ela tinha esse sonho. Era como se ela não existisse.
No dia seguinte, ao entrar no Uber, o motorista ficou assustado.
– Seus pais sabem que você está aqui? – Foram eles que mandaram eu ir de Uber para o médico. – Você está doente? – Não sei… Não tenho dormido direito. Não sinto vontade de fazer nada. – É melhor ir ao médico mesmo…
E chegando no prédio do Psiquiatra, Carla não sabia qual era a sala. E como era bem baixinha, foi difícil para o porteiro atrás do balcão entender a pergunta dela. Ela era tímida. Falava para dentro e quando se via diante de algum conflito, se calava.
– Carteirinha do convênio e identidade, por favor. – Eu trouxe só minha identidade. Tá aqui. – Vai ser particular? – Não sei. Deixa eu perguntar para a minha mãe.
Ligou uma, duas, três vezes para a mãe e para o pai. Ninguém atendia suas ligações. Resolveu ligar para a tia, que pediu para falar com a atendente.
– Tudo certo. É só aguardar.
Carla ficou vendo TV enquanto esperava. Estava passando uma novela antiga. As pessoas olhavam para ela intrigadas. Afinal de contas, o que uma garotinha tão nova estava fazendo em um consultório de Psiquiatria desacompanhada?
Fez a consulta. A médica perguntou da vida dela em geral. Perguntou porque estava ali sozinha. Ela explicou que os pais trabalhavam muito. Na verdade, ela estava com vergonha de dizer que não tinha qualquer tipo de atenção ou suporte em casa.
A médica receitou dois remédios. Um deles era tarja preta. Entretanto, ela disse que só daria as receitas para algum dos seus responsáveis legais.
– Puta que pariu, Carla! Vou ter que passar aí para para pegar as receitas? Você só me dá trabalho!
O pai foi até o consultório para pegar as receitas e falou com a médica. Enquanto ela explicava a questão da Carla e falava sobre os medicamentos, o pai estava com a cabeça no encontro que teria com uma amante mais tarde. O pai da Carla tinha um amante. A mãe também. Eles não faziam questão alguma de esconder isso. Não se divorciavam apenas por questões financeiras.
– Tá vendo? Treze anos e já tomando remédio! E depois sou eu a filha problemática, né Carlinha? É por isso que eu fumo meu baseado. Fico zen e não tenho nenhuma neura.
– A sua tia adora se meter na sua vida e na vida da sua irmã. Diz que somos pais ausentes! Ela é louca! Na hora de segurar os BOs, desaparece. Bom… Tem comida em cima do fogão. Estou indo para a academia. Depois teu pai explica para você como tomar esses remédios.
Carla não ligou para o pai. Sabia que ele estava ocupado. Ligou para a farmácia e pediu os medicamentos. Teve que preencher um formulário azul e entregar a cópia de uma das receitas. Pagou com o cartão do pai. Ela sabia a senha. Aliás, ela podia comprar tudo que quisesse. Ninguém reclamava. Era como seu o dinheiro fosse infinito. Também sentia que era uma maneira de seus pais tentarem, de alguma forma, suprir as inúmeras ausências que marcaram a sua vida.
Foi procurar na Internet para que serviam os remédios. Deu de cara com termos tipo depressão, bipolaridade, transtorno de personalidade… Não entendeu muito, mas resolveu tomar os medicamentos de acordo com a orientação de médica.
Em pouco tempo, se sentiu sonolenta. Dormiu com a roupa que estava. Esqueceu de colocar o relógio para despertar para ir ao colégio.
Acordou bem disposta. Há tempos não acontecia dela dormir uma noite inteira. Era como se o remédio fosse milagroso. E mesmo sem falar com a médica, descobriu que um dos remédios era perfeito para ela esquecer da vida. Dormindo, ela esquecia de tudo. E passou a se automedicar. Encontrou, finalmente, uma maneira efetiva, rápida e fácil de lidar com seus problemas.
…
– Estamos aqui neste dia diante de Deus pai todo poderoso para sepultar o corpo de Carla…
Os amigos do colégio estavam inconformados. Não aceitavam a possibilidade da Carla ter tirado a própria vida. Muitos se culpavam e diziam que deveriam ter dado a ela mais atenção. Uma cena realmente muito triste.
A tia da Carla chegou aos prantos e não poupou xingamentos aos pais da menina. Tentou agredi-los fisicamente. Foi contida por outros parentes.
Os pais, cabisbaixos, disseram apenas “A gente não sabia que isso estava acontecendo”.
E foi a primeira vez que eles falaram a verdade desde que Carla nasceu.
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E se você chegou até aqui por estar com problemas, lembre-se que você é importante! Há muita gente que te ama mesmo que isso não esteja claro. Você é forte e Deus está a teu lado neste momento. Procure ajuda!