Avatar de Desconhecido

Pingos nos is

O travesseiro me chama para ti,

Para teus braços,

Teus abraços,

Teu corpo –

Descompasso! –

E eu ali só com a memória do teu cheiro,

Do teu gosto em minhas mãos.

De que adianta tudo aqui,

Se sem ti eu quase não existo?

Dou risadas falhas,

Conto piadas toscas,

Mas eu mesmo quero um único rosto

Em uma multidão de 10 bilhões!

Tu me pagas… Ah! Se me pagas!

O câmbio?

O mesmo de sempre:

Trocas entre nossos ventres,

Vinhos e beijos,

Queijos,

Desejos,

Ontem, amanhã,

Hoje,

Agora,

Aqui,

Onde for.

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É pela saudade

No café da manhã, enquanto ela lia as notícias e conversávamos sobre elas.

Na hora de dormir, vendo “O mundo visto de cima”.

Sinto falta de tudo que acontecia durante o dia.

Nunca senti uma saudade tão intensa.

Já xinguei Deus por conta disso. Já agradeci a Deus por tudo isso.

Tenho memórias e milhões de histórias.

Tenho sorrisos que aparecem por conta de lembranças. Também tenho lágrimas que aparecem pelo mesmo motivo.

Mas, acima de tudo, sempre muita saudade.

E quero viver com ela mais memórias e milhões de histórias.

Porque se não é pela presença, é pela saudade que eu vivo.

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Anil

Te olhar nem sempre é com os olhos.

Por vezes, sinto minhas entranhas atiçadas, pois és parte delas.

Por vezes, quando as minhas pálpebras fingem que dormem, lá estás, lá vives.

Nenhuma força é maior do que ti, e por isto acabaste com meu estado de natureza.

És o meu estado meu estado civil, e o céu se faz anil todos os dias, até nos dias que não te vejo.

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Natal – 2023

Presente de Natal?

Ter vivido algo

Digno de sair no jornal

(bem longe da seção policial)

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Sem você

Vinho sem você não tem contexto.

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Despidas

E nas madrugadas
Nunca, nunca frias
Sentiam-se invisíveis e imunes
Protagonistas de seus próprios dias:
Nada, nada temiam
Pois o medo não lhes reconhecia.

E nas vielas quase escuras
Em retas e curvas
Seus corpos queimavam
E se consumiam
Sem nenhum pudor –
Puro resplendor –
Que em seus corpos flamejantes ardia.

Cegavam olhos curiosos
De pregadores –
Pecadores! –
Zelosos tentando manter ao longe
Aqueles que tinham a galhardia
De ser a soma fecunda e profunda
Do estarrecedor desejo que a eles consumia.

Tendo a Lua como única testemunha
Da sua luxúria e devassidão
Não se importavam
Em fazer ouvir aos outros
Os inúmeros
“Eu te amo”
Ditos entre suas peles e almas despidas.

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Castigo

Vou me embora

Porque já passou da hora

E eu joguei meus sonhos fora

Em uma lata de lixo.

Vou me embora

Porque na minha memória

Já não há nenhuma história

E meu coração bate fixo.

Mas acima de tudo vou me embora

Porque se apagaram as luzes de outrora

E a única coisa que me revigora

É deitar-me aos pés de um crucifixo.

Fátima – Portugal
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Não inerte

Não é sobre ter

É sobre ser

Porque meu ser

É o que de fato tenho.

Em alguns momentos

Não fui

Em tantos outros

Fui aquém

E também além.

E nestes altos

E nestes baixos

Nas cirandas da vida

Vou me tendo:

Mas sei que o que tenho hoje

É diferente do que tinha ontem

E amanhã será diferente também.

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Muito eu vi(vi)

Eu vi a birra da criança

Eu vi a alegria dos bate-bate

Eu vi os escorregadores e os balanços

Eu vi os cachorros rolando na grama

Eu vi o senhor e seus passarinhos

Eu vi as flores e as cutias

Eu vi o casal se beijando ardentemente

Eu vi o pipoqueiro e seu carrinho

Eu vi o coreto e a igreja matriz

Eu vi o moço que vendia balas e balões

Eu vi o lago e os peixinhos.

E ali, bem ali

Bem no meio daquele campo

Eu revivi a minha infância

Cheio de saudades de quem deste mundo

Já se foi sem mim.

Campo de São Bento – Niterói/RJ
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A culpa não era das panelas

Comprei panelas novas,

Porque as panelas da minha falecida avó

Já pareciam muito velhas.

Eu culpava as panelas velhas

Por não conseguir fazer as receitas da minha avó,

Que tinha ido embora bem velha.

Não consegui.

As panelas novas de nada adiantaram.

E foi então que eu percebi

Que nunca foram as panelas:

Nem as novas e muito menos as velhas.

Minha avó conseguiria fazer com as novas

O que ela consegui fazer tantas vezes –

Infinitas vezes! –

Nas panelas velhas.

E então eu chorei.

Choro de neto.

Quero de volta as coisas velhas:

Minha avó e suas panelas.