Avatar de Desconhecido

Todo santo dia

Também eu sei falar de coisas tristes,
De tudo de ruim que me aconteceu,
Das dores que me perseguiram inclementes,
Das saudades absurdas que me gelaram o peito,
Das vozes que, delirante, fingi que ouvi,
Das noites em claro e da sensação de quase morte,
Dos fins de tarde que pareciam o fim do mundo,
Do Apocalipse que comia e regurgitava minhas vísceras.

Ninguém por perto.

Medo diserto.

Respirar funesto.

Desenredo decerto.

Até que me dei conta
De que nunca me eximi,
Ou mesmo tentei fugir,
Das catástrofes que a mim –
E em mim –
Cabiam:
Tentar esquecer
Era, pois, a forma mais dissimulada
De me lembrar,
Todo santo dia,
De tudo que ainda me habitava
E de tudo que já me foi tudo um dia.

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Aos trancos e barrancos

Aos trancos e barrancos

Encontrei meu canto

Enquanto meu pranto

Meio que por encanto

Explodiu em sorrisos.

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Baiuca

Entrego-me a teus carinhos de sempre,

Que hoje me tocam como nunca.

Deixa-me repousar em teu ventre,

Com teus dedos em minha nuca.

Livra-me do mal que me espreita,

Cuja dor parece que não caduca.

Rogo tão só a tua presença,

Para que eu não me afogue em alguma reles baiuca.

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Invariavelmente

E no final,

O rastilho falhou.

Dizem que foi obra

De Nosso Senhor

E disso eu não duvido.

Nada explodiu,

Ninguém morreu –

Doeu, mas já passou –

Que fim tudo levou?

Eu não sei

E só quando sei

É que digo.

Talvez haja explicação –

Talvez não –

Mas se esta existe,

Não está de bem comigo.

Vou ser mesmo é trovador

E falar por aí do amor,

Daqueles que ninguém

Nunca sentiu

Ou nem mesmo falou,

E que toda noite,

Invariavelmente,

Dorme comigo

E serve-me de abrigo.

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Hermético

A arte não pode ser silenciada,

Porque o amor urge e grita,

E a vida,

Tão passageira e efêmera

Quanto parece ser,

Está sempre em chamas.

O que eu nego que me aconteça,

Ainda assim não deixa de me acontecer.

E o que eu sinto –

E que só eu sei que verdadeiramente sinto,

Quer seja por anos ou instantes –

Está além de censura

E de toda e qualquer opinião.

Eu existo.

Parece-me o bastante.

Resta me tudo, então:

Apenas viver.

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Inerte

Hoje,

Vou deixar tudo para amanhã.

Porque hoje,

Meu foco é o ontem.

Quero lamentar tudo que não fiz.

Quero sofrer por tudo que não aconteceu.

Hoje,

Vou deixar tudo para amanhã,

E o amanhã será assim também.

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Há esperança

Dizem que os passarinhos,

Em suas gaiolas frias e apertadas,

Cantam porque estão tristes.

Eu já penso que não.

Eles cantam, cantam e cantam,

Porque ninguém consegue

Aprisionar ou calar neles a esperança

De que haverá melhores dias.

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Guarda-me

Guarda-me dentro de ti

Porque é só dentro de ti

Que eu (r)ex(s)isto.

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Você merece!

Se perdoe, vai…

Se perdoe e vá.

Pois a vida é curta

E o tempo é breve.

Mas as memórias e os sentimentos,

O calor e a cor dos momentos,

As nuances dos tempos,

São perpétuos

E transcendem jazigos perpétuos.

Se perdoe, vai…

Você merece.

Simplesmente vá.

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Vitrificado

Fascinam-me os pássaros,
Flutuando ao lado da ponte
Sem precisar bater suas asas
À mercê da magia do vento.

Fascina-me a ponte
Que serve de refúgio aos pássaros
Imponente diante da paisagem
À mercê da magia do tempo.

Fascino-me eu comigo,
Diante dos pássaros e da ponte
Diante do vitrificado horizonte
À mercê de Deus adiante eu sigo.