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Peito aberto

És assim:

A última coisa que penso antes de morrer

Morro todas as noites

Ressuscito todos os dias

E da gaveta do meu necrotério pessoal

Onde permanecem insepultos

Tanto o bem quanto o mal

Levanto-me e não me encontro

No obituário do jornal

E nesse estado de inexistência e torpor

Morto e roto

Liberto do amor

Não sinto tua falta

De fato, nada sinto

Pois lá

Seja lá onde esse lá for

Nem tu nem eu existimos

Dia e noite

Noite e dia

Vida sem sorte

Abraça-me a morte

Nua e fria!

Esquece-me a vida

Sufocante agonia!

Inexistência de tristeza e alegria

Eu diria

Não fosse esse implacável despertador

Que todo santo dia

É meu desfibrilador

E que me lembra de sentir dor

Cirurgia de peito aberto de saudade

Sem nenhuma anestesia.

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O retorno

Meu corpo te diz adeus,
Sem palavras, casualmente,
Sem a força de quem diz que vai
Esperando o momento da volta,
Como corpo que espera o coração bater.

E eu que tanto te quis,
Me olho assustado, surpreso,
Para onde foi todo aquele desejo?
Onde está o nosso último beijo?
Eu não sei. Eu não sei.

Só sei que sou agora o mesmo de antes,
De antes de te conhecer.
Puro, sincero, verdadeiro,
Forte, destemido, louco pelo cheiro
Da vida, do amor, de Deus.

Ah! Meus amigos voltaram,
Voltou a paz da incerteza do destino,
Voltou a luta diária pelo pão de cada dia,
Voltou aquela menina da rua que me sorria,
Voltou tudo, ou melhor, eu voltei.

É, agora eu me pergunto,
Será que por um breve período enlouqueci?
Tenho certeza que não!
Foi coisa do coração:
Coisa que dá e passa.

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Succubus

Eu olho para o céu e vejo
No infinito a minha finitude
Perplexidade diante de coisas tão pequenas
Fraqueza, apesar de plena e total saúde.

Nas sombras eu me escondo aturdido
Quero ver o Sol, mas não quero luz
Cruel e real tua atordoante presença
Que mesmo sem ter cor, muito seduz.

Desejar-te é desafiar todas as barreiras
Vencer o tempo, fugir da cruz
Animalizado instinto, puro sentimento
Revelar meu carrasco, sem tirar seu capuz.

Deixar o fogo queimar a carne
Deixar a alma arder em torpor
Trocar o certo pelo incerto atraente
Trocar o vazio pelo anseio, impávido pavor.

Sucubus real, tangível e sedutor
Filha das trevas, suga o sangue de minhas feridas
Cospe em minha face, sem nenhum valor
Prossegue caminhando para sempre sem vida.

Eu olho para o céu e vejo
Fragmentos de mim, totalidade do teu ser
És agora mais forte que antes
Êxtase alucinante, não me perdoo por te querer.

E depois me calo,
O silêncio tem mais à dizer
Fria pele, passa-me teu calor
Já estou morto, muito antes de morrer.

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Temperados

No calçadão da praia

Olhos nos olhos

Mãos e almas entrelaçadas

Excesso de tudo

Carência de nada

 

Completude de vida

Na acepção mais viva

Da viva palavra

Beijo sem igual

Abraço transcendental

Todo o resto virou pouco

E virou tudo

O que era pouco mais que o nada

 

A declaração de amor

A entrega irrestrita

Os sorrisos que declaram

Muito mais do que as bocas falam

 

E o mar a olhar

O júbilo que nos faz levitar

Nosso amor é a pimenta da terra

Que tempera na medida certa

Que faz rir

E faz chorar

Plenitude do ser

Do viver

Do querer estar.

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Anatomia

Seja

Seja minha

Quero escrever

Um novo tratado sobre

Anatomia

 

Por eu não ser especialista

Espero que não desistas

Talvez leve tempo

Mais tempo do que o necessário

Infinitas eternidades – talvez

Já imaginou o trabalho

Só para parir tal glossário?

 

Até porque sou detalhista…

Não quero só mais um livro

Quero algo digno de um artista!

Dos pés e a teus pés no início

E do fim voltando ao princípio

Em um ofício inevitavelmente sem fim

 

Então

Dispo-te sereno

A esse trabalho me condeno

Quero detalhar os detalhes

Sentir e tocar teus entalhes

Curvas e mais curvas…

Estradas, avenidas…

Vida que se faz presente

Presente que faz parte da vida

 

Ah…

A Anatomia!

Pela ciência

E em nome da ciência

Todos os dias

E como cientista

Aviso-te:

És a minha maior descoberta e conquista!

 

Não, não sou um vigarista

Sou só o toque

O choque

O princípio

Sem fim

Teu Sul

Teu Norte

Sou a tua sorte

E muito além da morte

És a minha vida.

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Chuva-me!

Se é para chover

Que chova-se!

Que minha alma seja lavada

E que o frescor da minha face molhada

Abrande minhas salgadas chagas trovoadas

E que nas curvas dessa infinita e eterna estrada

Entre uma ou outra eventual derrapada

Eu fuja dos atalhos que me conduzem ao nada.

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Exata mente

Pensa, analisa

Faz a conta

Faz de conta

Que nossa vida é exata.

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Felicidade

Já comecei o dia com meu café favorito e agradeci a Deus por estar vivo. E você, o que fez?

Bom dia!!! 🙂

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Espatifou-se

Meu amor hoje são cacos

De um coração

Que espatifou-se

Enquanto procurava

Alguma explicação –

Ainda que mentirosa –

Para tal situação

 

Entregou-se

Dedicou-se

Declarou-se

Perdeu-se

Calou-se

E como era prolixo

Talvez visto como lixo

Cansou-se

Espatifou-se

 

E ainda há quem reclame dos cacos

“Por que não fostes te matar

Em outro lugar?”

Peço desculpas

Não era essa intenção

Era só um coração

Que como eu bem disse

Espatifou-se

 

Não haverá sepultamento

Missa de corpo presente

Porque dele mesmo

Já estava ausente

Discrente

Doente

E mesmo sem querer

Foi-se

Dessa para melhor

Espatifou-se

 

A ironia

É que ressuscitou

Ao terceiro dia!

Coração lazarento

Fez dos cacos poesia

Espatifou-se

Mas voltou mais doce

Como se nunca tivesse

Morrido um dia.

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Vida

Sempre achei que a vida fosse

O oposto da morte

 

Não a vejo mais assim

 

A vida é apenas o que antecede

E como não sabemos

O que a sucede

Melhor aproveitar como der

Como vier

Vivendo de forma incerta

Na certeza inabalável da

Morte.

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