Amor sem doses de sacrifício e renúncia não passa de efêmera paixão com eventuais toques egóicos de apego.

Amor sem doses de sacrifício e renúncia não passa de efêmera paixão com eventuais toques egóicos de apego.

Não me beijes hoje,
Não me abraces hoje,
Porque posso não estar aqui amanhã,
Porque posso não acordar de novo.
Faz tudo isso –
De novo, e de novo, e de novo,
Porque amanhã sei que me quererás,
Assim como sei que hei de te querer
De novo, e de novo, e de novo,
Feito hoje.

A frase nem sempre precisa ser dita.
Ela existe e insiste em se fazer presente
Nos atitudes e nos simples gestos que se mostram amiúde.
.
A frase escancara e soleniza sem pompa
O que já foi dito no toque corriqueiro,
No desejo que se esvai líquido e infinito,
Tangenciando as curvas cirúrgicas do tempo,
Rumo ao início de tudo que desde sempre deveria ter sido.
.
Não é sobre dizer eu te amo:
É sobre o rio que busca o mar
E sempre, de olhos cerrados, o encontra.
.
Em nosso leito,
Não resta pedra sobre pedra,
Seixo sobre seixo.
Só queixo sobre queixo,
Só eu e você.
.
E para não deixar dúvidas, mais uma vez,
Insisto na frase que nem sempre precisa ser dita –
E que de mim grita:
Eu para sempre te amo.

Que pode uma criatura senão,
Entre criaturas, amar?
Amar e esquecer, amar e malamar,
Amar, desamar, amar?
Sempre, e até de olhos vidrados, amar?
Que pode, pergunto, o ser amoroso,
Sozinho, em rotação universal, senão
Rodar também, e amar?
Amar o que o mar traz à praia,
O que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
É sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?
Amar solenemente as palmas do deserto,
O que é entrega ou adoração expectante,
E amar o inóspito, o áspero,
Um vaso sem flor, um chão de ferro,
E o peito inerte, e a rua vista em sonho,
E uma ave de rapina.
Este o nosso destino: Amor sem conta,
Distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
Doação ilimitada a uma completa ingratidão,
E na concha vazia do amor à procura medrosa,
Paciente, de mais e mais amor.
Amar a nossa falta mesma de amor,
E na secura nossa, amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.
Eu sei que é segunda-feira
Mas todo o meu desejo
Toda falta que me fazes
Tudo que em mim queima e arde
Jaz vivo a meus pés:
Caminho em brasas.
.
Não há nada que possas me dizer
Nesta comum segunda-feira
Que acalme a serpente
Que trafega em minhas veias
E me traz extra sístoles:
Quero inocular-te.
.
Comigo estou em guerra
E isto é um fato
Uma parte de mim vive de lembranças
A outra vive a espera das tuas cheganças
E por um acaso é segunda-feira
Mas assim é todos os dias da semana.

Olho para o mar
E no horizonte,
Vejo o ir e vir das embarcações.
Não vejo a que eu espero.
Não vejo a que sempre estive a esperar.
.
Olho para o mar novamente.
Desta vez com os olhos marejados.
A saudade escorre pelo meu rosto,
Pelo meu peito, até meus pés,
E me deixa de joelhos.
.
Seguro um punhado de areia
E o deixo escorrer por entre meus dedos.
Sou ampulheta viva
E a minha vida
Por mim está a passar.
.
Olho para o mar mais uma vez.
Quem sabe, talvez?
Entre motivos e porquês,
Há um coração que pulsa alto,
Esperando o amor aportar.

No dia que você se foi,
O Sol se pôs para não mais nascer.
Desapareceram as estrelas,
Os planetas,
A Lua,
As marés,
A esperança,
A fé.
Cessou o vento
E todo e qualquer movimento.
Tudo torto,
Tudo roto,
Por fora e por dentro,
Mundo morto.
A noite mais escura
Foi também a última noite.
Depois dela,
Nunca mais vivi
Um dia.

Estremeço e enrijeço quando teu nome pulsa no meu telefone.
