A maioria das pessoas pensam que o perdão é algo que beneficia o agressor ou o algoz. E talvez beneficie mesmo, mas…
Como seria a sua vida sem perdoar o outro? Como ficaria o seu coração carregando uma espécie de mix de ódio e vingança? O quão pesada seria a sua vida se tivesse que carregar tudo isto para sempre?
Quando você perdoa, independentemente da sua religião, o que você está dizendo para o outro é o seguinte:
“Sabe aquela coisa suja que você quis deixar em minha vida? Sabe aquela necessidade que você tinha de me deixar para baixo? Lembra das fofocas e das mentiras? Eu não sou nada disso! Tudo isso não é meu e faço questão de devolver. Você está perdoado! Se não quiser ficar com estas coisas, jogue-as fora. Comigo é que não vão ficar.”
Perdoar é o detox da alma e contraria muitas vezes os interesses de quem fez você ficar mal. Vai que a pessoa sente prazer em ver você triste? Sim, isto existe!
Pense nisso. Não deixar o seu ofensor ou adversário dominar a sua vida ainda que à distância. E mais… Como você pode esperar que flores surjam dentro do seu coração quando ele ainda está repleto de lixo que sequer é seu?
Bônus: o perdão, ainda que não seja esta a sua intenção, pode ser encarado pelo outro como um golpe fatal de vingança. Afinal de contas, o perdão também é uma forma de dizer adeus.
Que neste Natal, nossos corações estejam bem abertos para sentirmos o que de fatos sentimos, de maneira que sejamos capazes de nos encontrar (de novo) com nós mesmos.
Que transbordemos nossos medos, nossas dúvidas, nossas tristezas, nossas verdades, nossas saudades, nossas felicidades e tudo mais que estiver preso em nossos peitos. E acima de tudo, que transbordemos muito amor e perdão, na certeza de que a busca incansável pela nossa integridade e reconciliação com Deus, nosso pai, é a nossa única possível salvação.
A quem eu machuquei, peço meu mais humilde e reverencial perdão. E se fui machucado, confesso que já não me lembro, pois o Cristo é o dono do meu coração.
“– Adeus – disse a raposa. – Eis o meu segredo. É muito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos.” – Antoine de Saint-Exupéry, no livro O Pequeno Príncipe
Um Feliz Natal para todos! Que Deus nos abençoe grandemente e que ilumine nossos caminhos hoje, agora e sempre. Amém!
No Centro de Niterói/RJ, durante a década de 1970, meu avô saía de casa aflito todas as vezes que chovia e ventava muito forte. Ele saía com uma caixa de papelão nas mãos, e um dia me chamou para ir com ele (para o desespero da minha mãe, pois eu era muito novo).
Fomos em direção à casa que abrigava a prefeitura na época, que era completamente cercada por árvores enormes. Diante delas, vi meu avô se abaixando e recolhendo o que pareciam ser pequenos frutos das árvores. Não eram. Eram pequenos pardais desfalecidos por conta da tempestade.
Então, já com a caixa cheia dos pequenos pássaros, meu avô voltou para casa, cobriu a caixa com um cobertor e a colocou no forno, em temperatura bem baixa e com a porta aberta. Instantes depois, meu avô retirou a caixa do forno e eu comecei a ouvir inúmeros e intensos piados. Quando a chuva passou, meu avô retirou o cobertor de cima da caixa, bem perto da janela da cozinha, e dezenas de passarinhos fortes e aquecidos, voaram pela janela em direção ao infinito, em direção à vida.
Aprendi ali com meu avô, bem cedo, que mesmo sem que um pardal lembrasse do meu avô ou se mostrasse minimamente grato a ele, o prazer de ver os pardais voltarem a voar significava para ele absolutamente tudo. Ele praticava o bem e o bem era a sua própria recompensa. Era evidente nos seus olhos e no sorriso que esbanjava para si mesmo.
Que nossos corações e nossas atitudes sejam como a caixa, o cobertor e o forno do meu avô. E que possamos fazer o bem sem esperar nada de ninguém, na certeza de que ver o outro se levantar diante de uma dificuldade é um dos mais sublimes experiências que podemos ter na vida.
Saudades de ti, Afonso Fonseca, meu adorável e inesquecível avô. Obrigado por ter me ensinado tantas e tantas vezes o que verdadeiramente vale a pena na vida.
Sair de cabeça erguida, Brindar a integridade, Degustar a verdade, Manter a sanidade, Ver as luzes da cidade E sentir orgulho do eu que já não mais sou.
Porque este eu, Este que não mais sou, Lutou como sabia, Tentou tudo que lhe cabia, E na sua derrota aparente, Surgiu vitorioso um dia.
Não venceu ninguém, Posto que com ninguém competia.
Não humilhou ninguém, Posto que assim se humilharia.
Foi só um alguém, Que verdadeiramente existia.
E hoje, mais forte, Mais valente, Mais amoroso, Olho para o eu que já não sou E agradeço a Deus de joelhos por já ter sido.
Porque tudo que eu era É hoje pedra fundamental Do que vivo, Do que sinto, Do que acredito, E de tudo mais que eu já sou, E de tudo mais que eu ainda serei.