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O retorno

Meu corpo te diz adeus,
Sem palavras, casualmente,
Sem a força de quem diz que vai
Esperando o momento da volta,
Como corpo que espera o coração bater.

E eu que tanto te quis,
Me olho assustado, surpreso,
Para onde foi todo aquele desejo?
Onde está o nosso último beijo?
Eu não sei. Eu não sei.

Só sei que sou agora o mesmo de antes,
De antes de te conhecer.
Puro, sincero, verdadeiro,
Forte, destemido, louco pelo cheiro
Da vida, do amor, de Deus.

Ah! Meus amigos voltaram,
Voltou a paz da incerteza do destino,
Voltou a luta diária pelo pão de cada dia,
Voltou aquela menina da rua que me sorria,
Voltou tudo, ou melhor, eu voltei.

É, agora eu me pergunto,
Será que por um breve período enlouqueci?
Tenho certeza que não!
Foi coisa do coração:
Coisa que dá e passa.

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Succubus

Eu olho para o céu e vejo
No infinito a minha finitude
Perplexidade diante de coisas tão pequenas
Fraqueza, apesar de plena e total saúde.

Nas sombras eu me escondo aturdido
Quero ver o Sol, mas não quero luz
Cruel e real tua atordoante presença
Que mesmo sem ter cor, muito seduz.

Desejar-te é desafiar todas as barreiras
Vencer o tempo, fugir da cruz
Animalizado instinto, puro sentimento
Revelar meu carrasco, sem tirar seu capuz.

Deixar o fogo queimar a carne
Deixar a alma arder em torpor
Trocar o certo pelo incerto atraente
Trocar o vazio pelo anseio, impávido pavor.

Sucubus real, tangível e sedutor
Filha das trevas, suga o sangue de minhas feridas
Cospe em minha face, sem nenhum valor
Prossegue caminhando para sempre sem vida.

Eu olho para o céu e vejo
Fragmentos de mim, totalidade do teu ser
És agora mais forte que antes
Êxtase alucinante, não me perdoo por te querer.

E depois me calo,
O silêncio tem mais à dizer
Fria pele, passa-me teu calor
Já estou morto, muito antes de morrer.

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Temperados

No calçadão da praia

Olhos nos olhos

Mãos e almas entrelaçadas

Excesso de tudo

Carência de nada

 

Completude de vida

Na acepção mais viva

Da viva palavra

Beijo sem igual

Abraço transcendental

Todo o resto virou pouco

E virou tudo

O que era pouco mais que o nada

 

A declaração de amor

A entrega irrestrita

Os sorrisos que declaram

Muito mais do que as bocas falam

 

E o mar a olhar

O júbilo que nos faz levitar

Nosso amor é a pimenta da terra

Que tempera na medida certa

Que faz rir

E faz chorar

Plenitude do ser

Do viver

Do querer estar.

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Caleidoscopização

Há algo neste teu olhar

Que me faz ficar te olhando

 

E de tanto te olhar

E teus olhos buscar

Cego fui ficando

 

Já não tenho olhos

Para mais ninguém

E mesmo sem te ver –

É fato –

Estou te amando

 

Caleidoscopizaste minha vida

Refletiste minha alma

 

Hoje,  sou fractal de mim

História sem fim

Mutatis mutandis

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Ouvindo o silêncio

Silêncio, dentro de mim.
Sua voz que tanto me dizia,
Que em acordava, me benzia,
Se foi, junto com você,
No último dia que pude ouvir.

Ficaram as palavras mudas,
De quem jurou, prometeu, se entregou,
Amou, seduziu, gozou,
Que fim tudo isso levou?
Não sei, embora precise saber,
Tudo se silenciou.

Sou silêncio agora,
Pois já disse tudo que podia,
Tudo que havia, tudo que sentia,
Nunca, nunca, hipocrisia,
Tudo verdade, tudo perfeito,
O que eu tinha como meu grande direito,
Se apagou, se emudeceu.

Ouço apenas o cantar dos pássaros,
Que levam e trazem minha saudade,
Reafirmam a minha dignidade,
E me mostram em seu vôo
A liberdade, para ir e vir,
Encontrar meu caminho,
Entre pedras e espinhos,
Minha vida, meu prazer.

E mesmo que eu fizesse muita força,
Você, minha boneca de louça,
Se quebrou, se partiu.
Ninguém, ninguém sorriu,
E o mundo imaginou
O que você nunca admitiu:
Quando você se foi, silêncio,
Dentro de mim,
Mas muito mais dentro de você.

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Sonhos

Faço de minha vida um livro aberto,
Pois de ti sempre estou certo.
Palavra por palavra, ato por ato,
Disfarçando minha dor, meu cansaço,
Revelo cada dia mais meu amor.

Se fui cego, agora vejo,
Na solidão, meu desejo
De me superar, me redimir,
De viver tudo o que é bom
De te viver sempre, mais forte
Mais dona de si, como sempre te quis.

Nas coisas mais simples da vida
Nas esquinas, ruas, avenidas
Percebo a razão de tudo
De todo tempo que não foi em vão
E nas batidas do meu coração
Teu sorriso, tua estrela brilha.

Que Deus faça de mim, desse homem,
Que te quer muito mais do que feliz,
Que sempre, sempre te quis,
Poço de sabedoria,
Para suportar nossa cama tão vazia
Quando chega a hora de dormir.

E que Deus também dê razão,
E força as coisas do coração,
Pois não receber e viver
O teu, nosso amor,
É viver em um vazio,
Onde a felicidade não se encontra,
Onde os anjos choram e nos questionam,
Pois sabem que podemos ser tudo,
Muito mais do que um casal feliz.

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Adeus

Se tu leres o que escrevo,
Saberás que é para ti
Este polido e fiel recado,
Notório, mas nunca por mim revelado,
Escrito com o puro sangue
Que jorra de minha cruz sem peso.

Que se diga, portanto, toda verdade,
Este jugo ao qual me submeto,
Esta poesia que canto ardentemente,
No centro de qualquer esquecido coreto,
Faz de meu corpo sacro púlpito,
De onde todos meus pecados confesso.

E se com lágrimas profanas,
Minha dor eu manifesto,
Reservo-me o direito de querer,
Muito mais do que te quero,
Que todos os meus desvairados devaneios,
Por ti e em ti se encerrem.

Não te direi adeus jamais,
Um louco não carece de loucura,
Simplesmente peço que te vás,
E com tua empáfia procure algures,
Outro coração que possas empalar,
E que tua redenção, não obstante, procures.

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Contramão

Abra seus braços

Estenda sua mãos

E nos nevoeiros da vida

E nas estradas traiçoeiras

Vamos juntos, então

 

Mas se a sua opção

For esquecer o inesquecível

Dividir o indivisível

Achando ser possível

Fugir na contramão…

 

Para essa porra de carro, então!

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Arco Reflexo

E chega a sexta-feira

As taças de vinho

A garrafa na mão

Sento-me

Bebo sozinho

Bebo-te até não sobrar

Uma gota que seja de ti

 

As unhas vermelhas

O elixir tinto

As lembranças que sinto

Os sonhos vivos

Faíscas e centelhas

 

É involuntário

Fisiologicamente necessário

 

A gota de vinho

Que escorre pelo meu peito

Tem teu gosto e cheiro…

 

Não, não há solidão!

Estou contigo

E não, não há perigo…

Sorrio –

Revejo meus lábios no teu umbigo.

beijo-no-umbigo

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Eu sei…

E eu sei que se toda a minha tristeza se transformar em alegria, serei o homem mais feliz do mundo.