Avatar de Desconhecido

Meninando

Menino sentado no muro
Vivendo o futuro
Antes que ele aconteça

Os pés descalços
As mãos para o alto
Tentando pegar uma estrela

E agora que virou adulto
É só mais um vulto
Tentando meninar
Revivendo o passado
Antes que desaconteça.

94c98jato

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Despidas

E nas madrugadas
Nunca, nunca frias
Sentiam-se invisíveis e imunes
Protagonistas de seus próprios dias:
Nada, nada temiam
Pois o medo não lhes reconhecia.

E nas vielas quase escuras
Em retas e curvas
Seus corpos queimavam
E se consumiam
Sem nenhum pudor –
Puro resplendor –
Que em seus corpos flamejantes ardia.

Cegavam olhos curiosos
De pregadores –
Pecadores! –
Zelosos tentando manter ao longe
Aqueles que tinham a galhardia
De ser a soma fecunda e profunda
Do estarrecedor desejo que a eles consumia.

Tendo a Lua como única testemunha
Da sua luxúria e devassidão
Não se importavam
Em fazer ouvir aos outros
Os inúmeros
“Eu te amo”
Ditos entre suas peles e almas despidas.

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Enquanto

Enquanto você vive sua vida

Como se nada estivesse acontecendo,

Eu vou carregando as dores de nós dois.

E até nisso eu me iludo…

Não há dores de nós dois.

Há só a minha dor

E ela dói muito.

P.S.: Poesia antiga, mas a poesia mais dolorosa e real que já senti em minha vida.

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Castigo

Vou me embora

Porque já passou da hora

E eu joguei meus sonhos fora

Em uma lata de lixo.

Vou me embora

Porque na minha memória

Já não há nenhuma história

E meu coração bate fixo.

Mas acima de tudo vou me embora

Porque se apagaram as luzes de outrora

E a única coisa que me revigora

É deitar-me aos pés de um crucifixo.

Fátima – Portugal
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Cuidado com os urubus

Você conhece verdadeiramente as pessoas não quando está no topo, mas quando está atravessando dificuldades.

Quando enfrentei dificuldades, contava nos dedos de uma mão os que estavam do meu lado. Quando estava melhor, vivia cercado de pessoas que eu sequer conhecia e que tentavam se passar por meus amigos.

E talvez o grande segredo da vida esteja no meio do caminho. Ter o suficiente para compartilhar com a familia e os amigos, mas não ter demais ao ponto de atrair os urubus.

Obrigado, Deus, por me ensinar isso. ❤️

P.S.: Nada pessoal contra os urubus. Eu sou flamenguista. 🙂

P.S. 2: Que fique claro que isso não é uma indireta para ninguém.

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P.S. 48

Quem sabe ficar genuinamente feliz diante da felicidade dos outros já zerou a vida e nem se deu conta disso.

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Não inerte

Não é sobre ter

É sobre ser

Porque meu ser

É o que de fato tenho.

Em alguns momentos

Não fui

Em tantos outros

Fui aquém

E também além.

E nestes altos

E nestes baixos

Nas cirandas da vida

Vou me tendo:

Mas sei que o que tenho hoje

É diferente do que tinha ontem

E amanhã será diferente também.

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Muito eu vi(vi)

Eu vi a birra da criança

Eu vi a alegria dos bate-bate

Eu vi os escorregadores e os balanços

Eu vi os cachorros rolando na grama

Eu vi o senhor e seus passarinhos

Eu vi as flores e as cutias

Eu vi o casal se beijando ardentemente

Eu vi o pipoqueiro e seu carrinho

Eu vi o coreto e a igreja matriz

Eu vi o moço que vendia balas e balões

Eu vi o lago e os peixinhos.

E ali, bem ali

Bem no meio daquele campo

Eu revivi a minha infância

Cheio de saudades de quem deste mundo

Já se foi sem mim.

Campo de São Bento – Niterói/RJ
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Me convida para dançar?

Eu convido a vida para essa dança

Mas eu mesmo não sei dançar

 

É que vi nessa foto

Nos cabelos grisalhos

Na leveza trazida pelo passar dos anos

A vida em sua excelência

O futuro onde quero chegar

 

Quero ser a melhor versão de mim mesmo

E se no caminho eu me atrapalhar

Ou mesmo me cansar

Me faz um favor, vida

Me convida para dançar?

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A culpa não era das panelas

Comprei panelas novas,

Porque as panelas da minha falecida avó

Já pareciam muito velhas.

Eu culpava as panelas velhas

Por não conseguir fazer as receitas da minha avó,

Que tinha ido embora bem velha.

Não consegui.

As panelas novas de nada adiantaram.

E foi então que eu percebi

Que nunca foram as panelas:

Nem as novas e muito menos as velhas.

Minha avó conseguiria fazer com as novas

O que ela consegui fazer tantas vezes –

Infinitas vezes! –

Nas panelas velhas.

E então eu chorei.

Choro de neto.

Quero de volta as coisas velhas:

Minha avó e suas panelas.