Avatar de Desconhecido

Sem você

Vinho sem você não tem contexto.

Avatar de Desconhecido

Despidas

E nas madrugadas
Nunca, nunca frias
Sentiam-se invisíveis e imunes
Protagonistas de seus próprios dias:
Nada, nada temiam
Pois o medo não lhes reconhecia.

E nas vielas quase escuras
Em retas e curvas
Seus corpos queimavam
E se consumiam
Sem nenhum pudor –
Puro resplendor –
Que em seus corpos flamejantes ardia.

Cegavam olhos curiosos
De pregadores –
Pecadores! –
Zelosos tentando manter ao longe
Aqueles que tinham a galhardia
De ser a soma fecunda e profunda
Do estarrecedor desejo que a eles consumia.

Tendo a Lua como única testemunha
Da sua luxúria e devassidão
Não se importavam
Em fazer ouvir aos outros
Os inúmeros
“Eu te amo”
Ditos entre suas peles e almas despidas.

Avatar de Desconhecido

Castigo

Vou me embora

Porque já passou da hora

E eu joguei meus sonhos fora

Em uma lata de lixo.

Vou me embora

Porque na minha memória

Já não há nenhuma história

E meu coração bate fixo.

Mas acima de tudo vou me embora

Porque se apagaram as luzes de outrora

E a única coisa que me revigora

É deitar-me aos pés de um crucifixo.

Fátima – Portugal
Avatar de Desconhecido

Não inerte

Não é sobre ter

É sobre ser

Porque meu ser

É o que de fato tenho.

Em alguns momentos

Não fui

Em tantos outros

Fui aquém

E também além.

E nestes altos

E nestes baixos

Nas cirandas da vida

Vou me tendo:

Mas sei que o que tenho hoje

É diferente do que tinha ontem

E amanhã será diferente também.

Avatar de Desconhecido

Muito eu vi(vi)

Eu vi a birra da criança

Eu vi a alegria dos bate-bate

Eu vi os escorregadores e os balanços

Eu vi os cachorros rolando na grama

Eu vi o senhor e seus passarinhos

Eu vi as flores e as cutias

Eu vi o casal se beijando ardentemente

Eu vi o pipoqueiro e seu carrinho

Eu vi o coreto e a igreja matriz

Eu vi o moço que vendia balas e balões

Eu vi o lago e os peixinhos.

E ali, bem ali

Bem no meio daquele campo

Eu revivi a minha infância

Cheio de saudades de quem deste mundo

Já se foi sem mim.

Campo de São Bento – Niterói/RJ
Avatar de Desconhecido

A culpa não era das panelas

Comprei panelas novas,

Porque as panelas da minha falecida avó

Já pareciam muito velhas.

Eu culpava as panelas velhas

Por não conseguir fazer as receitas da minha avó,

Que tinha ido embora bem velha.

Não consegui.

As panelas novas de nada adiantaram.

E foi então que eu percebi

Que nunca foram as panelas:

Nem as novas e muito menos as velhas.

Minha avó conseguiria fazer com as novas

O que ela consegui fazer tantas vezes –

Infinitas vezes! –

Nas panelas velhas.

E então eu chorei.

Choro de neto.

Quero de volta as coisas velhas:

Minha avó e suas panelas.

Avatar de Desconhecido

Verão

Que o tempo frio

Sirva de pretexto –

Talvez contexto –

Para unir corpos e almas

Em um só coração.

E então o inverno,

Com seu propósito eterno,

Nas labaredas dos mistérios,

Se tornará verão.

Avatar de Desconhecido

Amor é fogo que arde sem se ver – por Luís de Camões

Amor é um fogo que arde sem se ver,
É ferida que dói, e não se sente;
É um contentamento descontente,
É dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
É um andar solitário entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É um cuidar que ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata, lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?

Avatar de Desconhecido

Lápide – por Ariano Suassuna

Quando eu morrer, não soltem meu Cavalo
nas pedras do meu Pasto incendiado:
fustiguem-lhe seu Dorso alardeado,
com a Espora de ouro, até matá-lo.

Um dos meus filhos deve cavalgá-lo
numa Sela de couro esverdeado,
que arraste pelo Chão pedroso e pardo
chapas de Cobre, sinos e badalos.

Assim, com o Raio e o cobre percutido,
tropel de cascos, sangue do Castanho,
talvez se finja o som de Ouro fundido

que, em vão – Sangue insensato e vagabundo —
tentei forjar, no meu Cantar estranho,
à tez da minha Fera e ao Sol do Mundo!

Avatar de Desconhecido

Vozes d’África – por Castro Alves

Deus! ó Deus! onde estás que não respondes?

Em que mundo, em qu’estrela tu t’escondes

Embuçado nos céus?

Há dois mil anos te mandei meu grito,

Que embalde desde então corre o infinito…

Onde estás, Senhor Deus? …

[…]

Hoje em meu sangue a América se nutre

Condor que se transformara em abutre,

Ave da escravidão,

Ela juntou-se às mais… irmã traidora

Qual de José os vis irmãos outrora

Venderam seu irmão.

Basta, Senhor! De teu potente braço

Role através dos astros e do espaço

Perdão p’ra os crimes meus!

Há dois mil anos eu soluço um grito…

escuta o brado meu lá no infinito,

Meu Deus! Senhor, meu Deus!!…