na madrugada
a saudade é açoite –
insistente
insolente
inclemente –
que quase mata
e nunca morre

na madrugada
a saudade é açoite –
insistente
insolente
inclemente –
que quase mata
e nunca morre

acordei a teu lado
sem saber que estava
apenas dormindo
para todos os efeitos
morto
roto
escroto
amônia
teu corpo
revivi

Também eu sei falar de coisas tristes,
De tudo de ruim que me aconteceu,
Das dores que me perseguiram inclementes,
Das saudades absurdas que me gelaram o peito,
Das vozes que, delirante, fingi que ouvi,
Das noites em claro e da sensação de quase morte,
Dos fins de tarde que pareciam o fim do mundo,
Do Apocalipse que comia e regurgitava minhas vísceras.
Ninguém por perto.
Medo diserto.
Respirar funesto.
Desenredo decerto.
Até que me dei conta
De que nunca me eximi,
Ou mesmo tentei fugir,
Das catástrofes que a mim –
E em mim –
Cabiam:
Tentar esquecer
Era, pois, a forma mais dissimulada
De me lembrar,
Todo santo dia,
De tudo que ainda me habitava
E de tudo que já me foi tudo um dia.

Se perdoe, vai…
Se perdoe e vá.
Pois a vida é curta
E o tempo é breve.
Mas as memórias e os sentimentos,
O calor e a cor dos momentos,
As nuances dos tempos,
São perpétuos
E transcendem jazigos perpétuos.
Se perdoe, vai…
Você merece.
Simplesmente vá.

Não me importei com as falas,
Muito embora eu as sentisse.
Mas as perversões em riste,
Eram em mim cilícios lancinantes.
Saí de cena,
Emudeci-me,
Resignei-me.
Tomei rumo,
Prumo,
Vodka,
Gin,
Whisky,
Cerveja.
Mas quando a alma é pequena –
Se é que existe –
Nada de fato vale a pena,
Nem mesmo uma merda de poema.

Toda vez que te procuro,
Saibas que é porque te quero
E te quero muito.
E quando me procuras,
Também sei que é porque me queres
E me queres muito.
Tanta querencia –
Nenhuma sofrência –
Não é este o melhor dos mundos?

Tu és dona das flores
Que trazes quando chegas
E que deixas quando vais.
És o jardim onde quero ser sepultado,
O cálice que faz-me vivo,
E tudo de melhor que tenho desfrutado.
Tu és a dona das flores,
Que rega-me sem pudores,
E até em teus espinhos
Não sangro: me curo.
Tu és a dona das flores,
Que explodem em uma miríade as cores
No meu coração, na minha alma,
Na terra que ofereço fecunda
Para nossos brotos ainda por nascer.

Como o sândalo humilde que perfuma
O ferro do machado que lhe corta,
Hei de ter a minh’alma sempre morta
Mas não me vingarei de coisa alguma.
Se algum dia, perdida pela bruma,
Resolveres bater à minha porta,
Em vez da humilhação que desconforta,
Terás um leito sobre um chão de pluma.
E em troca dos desgostos que me deste
Mais carinho terás do que tiveste
E os meus beijos serão multiplicados.
Para os que voltam pelo amor vencidos
A vingança maior dos ofendidos
É saber abraçar os humilhados.

Deixa eu te dar um beijo de despedida,
Porque eu vou ali viver a vida
Como a gente sonhou.
Vou suar minha camisa,
E vou contar minhas moedas,
Vou procurar nos bolsos das calças
Se necessário for.
Mas não, não vou falar de saudade,
Só de felicidade, de noites viradas,
E de histórias de amor.
E só quero que quem esteja ao meu lado
Tenha o cuidado de amar não o que tenho,
Mas o homem que eu sou.

Não me esqueci do nosso último beijo.
Não me esqueci dos nossos beijos.
Não me esqueci de você.
Procuro-o e não o acho
Em outras bocas que sentem
Que não sei o que estou fazendo ali.
Não era a mecânica:
Era a foda no beijo
Ou o beijo que virava foda
Não sei…
Acho que ninguém sabe.
Só sei que toda vez que penso em beijo –
Nos meus sonhos eu ainda te beijo –
Na minha boca só cabe você.
