Avatar de Desconhecido

A Paródia

Bateu a saudade,

E aquela vontade louca de ouvir tua voz,

Sentir o teu abraço,

O cheiro do teu perfume.

Bateu a saudade,

Feito pássaro que entra pela janela ou pela porta –

Que mantenho abertas -,

Porque não sei como as fechar.

Bateu a saudade.

Trigésima segunda vez só hoje.

Marco em um papel feito comanda de bar.

A conta?

Eu sei que sou eu quem vai pagar.

Trigésima terceira.

Trigésima quarta.

Trigésima quinta.

Trigésima sexta.

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Incêndio vivo

A saudade não respeita nada e nem ninguém.

Não respeita momento, lugar, tempo, distância.

A saudade é implacável.

Transforma um vinho na geladeira em uma noite de amor sem fim,

Transforma uma escova de dentes deixada para trás em uma série no Netflix ainda por terminar,

Transforma o estar sentado em um antigo restaurante na materialização de presença física, feito quem espera o outro voltar do banheiro,

Transforma uma praia em uma sessão de fotos com voz, cheiro, gosto, toques, cabelos, sorrisos, gemidos, planos, anos, vidas, filhos, viagem, carro, unhas, aliança, aeroporto, rodoviária, almoço de domingo, café, mel, mamão, salada de frutas, ovos mexidos, pão.

A saudade não é o amor que fica.

É muitas vezes a vontade de não ter conhecido, de não ter vivido, de não amar como nunca se amou na vida, como ainda desesperadamente se ama.

A saudade é a tortura e a alucinação de quem ama e repousa em uma cama que não deixa dormir.

É o chamado incessante e silencioso de quem deixa o corpo e a alma em chamas.

Eu sou um incêndio vivo.

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Amar é…

O desejo incontrolável de torcer pelo sucesso do outro, independentemente da distância e das saudades.

O desapego, o fim da vaidade, o aplauso do ego.

Ser lembrança e guardar na lembrança com carinho todos os detalhes, todos os momentos, todos os cheiros, todos os gostos, todos os tudos que não cabem em nenhum vocabulário.

Abandonar a raiva, abraçar a despedida como amiga, chorar cada lágrima dorida com dignidade, tal como tributo ao próprio amor.

Agradecer a Deus pelos momentos, pelas oportunidades, pelo crescimento.

Amar é, acima de tudo, aceitar o infortúnio como dádiva.

E eu te amo. E te amarei por toda a eternidade.

Meu amor de ti independe e esta é a essência do próprio amor que veio em mim morar.

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Necessidade

Não sou um poeta;

Sou um necessitado por poesias.

E como nem sempre as encontro

No sabor que eu quero,

Acabo por escrever algumas linhas –

Mesquinhas –

Mas minhas.

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Saudades de mim

Vou te dizer, meu bem:

Pior que estar sem ti

É estar contigo

Sem estar.

Faltava-me a coragem

(ainda falta-me a coragem)

De largar a dor

Que hoje é te amar.

Mas vou te dizer, meu bem:

Pior que estar sem ti

É estar sem mim

Para contigo estar.

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Previsão sem tempo

Olhei no fundo de seus olhos –

Olhos que ela me escondia –

E emiti um alerta.

Estado de atenção:

Lágrimas fortes previstas

Para hoje ou para daqui a 3 anos.

Em algum momento,

Será necessário sentir.

Em algum momento,

Será necessário viver.

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No soro

Eu só te disse adeus porque foi isso que você me pediu. De resto, estou no soro para repor as lágrimas do que eu nunca quis.

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Por ocaso

A falta que me fazes?

Sabes bem dela.

Sabes das dores que carrego no peito.

Sabes que arfo por ti todas as manhãs.

Sabes que me sinto inadequado nos lugares.

Sabes que só pego no sono por pura exaustão.

Sabes que procuro teu cheiro no colchão.

.

Mas não é só tu que sabes.

Não é só tu que vês.

.

Há quem ache graça.

Há quem queira a graça de saber.

E disso tu não sabes,

Ou finges não saber.

.

Por ora é teu o tempo e o espaço.

Por ora é teu o meu querer.

Por ora te demoras.

Por ora espero-te até morrer.

.

Mas todo dia renasço e Deus sabe:

Numa dessas dá-se o ocaso,

E o acaso vem a minha porta bater.

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Vielas do pranto

O pranto por vezes é seco e mudo,

Porque por vezes é medroso.

Porque por vezes falta-lhe a coragem

De ser pranto.

.

Vim e estou aqui!

Vejam-me:

Estou pronto e sou pranto,

Mas escondo-me em sorrisos absintos,

Em obrigações comensais,

Em ratoeiras morais

Sem esperança ou encanto.

.

Mas há vergonha maior do que sorrir

Para não deixar rugir o pranto?

.

Sim, este desencanto

É mais do que motivo

Para o pranto!

E quando não deixo o pranto ser,

Eu mesmo me torno o pranto:

Escondo-me nas vielas da tristeza,

Esmorecido e aturdido,

Esgueirando-me de canto em canto.

.

Que me salve o pranto!

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Mais um domingo

Mais um domingo.

Mais protetor solar.

Mais uma caminhada na praia.

Mais uma água de coco.

Mais uma roda de amigos.

Mais uma cerveja gelada.

Mais uma empada de camarão.

Mais risadas.

Mais um café.

Mais um bombom de chocolate.

Mais doçura.

Mais fé.

Mais gratidão.

Mais um domingo –

E é tão bom estar vivo! –

Se Deus quiser,

Outros tantos domingos virão.

Ilha da Boa Viagem – Niterói/RJ