Teu lábio quente na minha pele desliza, Desperta o fogo que queima o lençol, Teu sussurro suave é como a brisa, Que nos consome antes do pôr do sol.
Minhas mãos te buscam nas sombras escuras, No compasso lento de uma respiração, Nossas bocas provam texturas puras, Na urgência extrema da nossa atração.
O suor brilha no escuro do quarto, Nesse ritmo louco que nos conduz, De cada traço teu eu nunca me farto, Sendo teu corpo minha única luz.
Há pessoas que passam por nossa vida, e há aquelas que permanecem.
Não porque estejam sempre perto, mas porque encontram um lugar que o tempo não consegue alcançar.
Foi assim.
Não uma resposta, mas uma pergunta.
Não uma estrada, mas uma direção.
Durante anos, entre aproximações e silêncios, entre conversas longas e despedidas apressadas, foi desenhando a própria presença num território que nunca pertenceu inteiramente ao sim nem inteiramente ao não.
Há quem ame no conforto das certezas, Mas existem amores que habitam as entrelinhas.
Vivem do que foi dito, do que não foi dito, do que quase aconteceu e do que permaneceu esperando.
E talvez seja por isso que algumas presenças continuem ecoando.
Não pela perfeição.
Não pela facilidade.
Mas porque certas pessoas nos obrigam a olhar para dentro.
A descobrir a coragem, a vulnerabilidade, a esperança, e até as feridas que fingíamos não possuir.
São como aquelas estrelas que nem sempre enxergamos.
Algumas noites desaparecem atrás das nuvens.
Mas continuam lá.
Distantes.
Presentes.
Inalcançáveis às vezes.
E, ainda assim, parte da paisagem.
Talvez um dia os caminhos finalmente se encontrem.
Talvez não.
A vida nem sempre revela seus planos no tempo que gostaríamos.
Mas existem presenças que desafiam o passar dos anos.
Não desaparecem.
Não se tornam lembrança.
Permanecem.
Entre os dias comuns, nas palavras guardadas, nos reencontros inesperados, nas histórias que ainda procuram a própria forma de existir.
E algumas histórias, por mais longas que sejam as pausas, recusam-se a terminar.
Não porque pertençam ao passado, mas porque continuam habitando o horizonte.
Como o mar visto de longe: nem sempre ao alcance das mãos, mas sempre presente aos olhos.
E enquanto houver horizonte, haverá caminho.
E enquanto houver caminho, nenhuma página precisará ser a última.
Faz mais de 20 anos que não posso fazer isso. A vontade de compartilhar continua. A presença continua. O exemplo, a lealdade, a dignidade… Os defeitos também.
Não como marido ou ex-marido no caso. Apenas pai. Entre erros e acertos, meu pai.
Nenhum filho deveria ser obrigado a escolher entre pai e mãe, mãe e pai.
E eu não escolhi.
Decidi ser só filho.
Há o que é do pai. Há o que é da mãe.
Há o que é do marido. Há o que é da esposa.
Um bom pai é um bom pai. Uma boa mãe é uma boa mãe.
E tentar fazer com que o filho veja o pai como marido ou que veja a mãe como esposa, simplesmente não cabe.
São coisas que não se misturam ou não deveriam se misturar.
Quando me recolhes entre os teus braços, o tempo parece esquecer seu ofício. As horas deixam de correr e tudo o que existe é o calor da tua pele junto à minha, o perfume que reconheço de olhos fechados e a certeza silenciosa de que nada me falta.
Poucas pessoas sabem o que é amar alguém a ponto de encontrar paz apenas na sua proximidade.
Eu sei.
Porque existe uma felicidade que mora no som da tua voz, outra no brilho dos teus olhos, mas a mais bonita de todas mora no instante em que me abraças.
Nesse momento, não existe passado. Não existe futuro.
Existe simplesmente o milagre de estar contigo.
Teu abraço tem a delicadeza das coisas que curam sem prometer cura. Ele não apaga as cicatrizes da vida, mas faz com que eu me esqueça delas por alguns instantes. E, enquanto repouso junto a ti, sinto que todos os caminhos que percorri me trouxeram exatamente para ti.
Porque é isso que encontro em teu abraço.
Não apenas carinho.
Não apenas desejo.
Mas a rara e bela combinação dos dois.
A ternura que acalma e a paixão que incendeia.
A paz de quem chegou em casa e a vertigem de quem continua apaixonado.
Em teus braços, não preciso escolher entre abrigo e fogo.
Encontro ambos.
Pertencimento.
E talvez amar seja exatamente isso: passar a vida inteira procurando um lugar onde a alma possa descansar e, um dia, descobrir que esse lugar tem o nome da pessoa amada.
Hoje conversei com uma pessoa que não encontrava havia algum tempo.
Não fisicamente. Nem em fotografias. Nem nas lembranças.
Encontrei na voz.
As vezes a vida é injusta. Acumula cobranças, perdas, preocupações e dias difceis sobre os ombros de alguém até que a própria pessoa passe a acreditar que se resume àquilo que está enfrentando.
Mas ninguém é apenas os seus dias difceis.
Ninguém é apenas a conta que não fecha, a batalha em andamento ou o problema que insiste em não se resolver
Existem pessoas que são maiores do que as circunstâncias que atravessam.
Hoje me lembrei disso.
Enquanto ela falava sobre o próprio trabalho, ouvi novamente o entusiasmo, a curiosidade e a alegria que sempre admirei.
A capacidade de se deixar tocar pelas coisas que dão sentido aos dias.
Foi bom ouvir aquela voz.
Foi bom perceber que algumas presencas permanecem conosco mesmo quando a distância, o tempo ou os problemas tentam escondê-las.
Há pessoas que nunca desaparecem completamente.
Às vezes apenas ficam atrás das nuvens por um tempo.
Há acolhimentos que não perdemos. Porque nunca os tivemos.
Durante muito tempo, pensei que a falta fosse apenas a ausência de algumas pessoas. Hoje acredito que, muitas vezes, o que nos acompanha pela vida não é a saudade de alguém, mas a saudade de algo que nunca chegou a existir. Um elogio que nunca veio. Um pedido de desculpas. Um abraço depois de um dia difícil. Uma simples frase que dissesse: “Você não precisa enfrentar isso sozinho.” Em vez disso, aprendemos a seguir em frente. A suportar. A nos endurecer. Como viajantes que atravessam o inverno por tanto tempo que passam a acreditar que o frio é a condição natural da existência.
Talvez por isso a falta de acolhimento seja tão difícil de reconhecer. Porque ela nem sempre se apresenta como abandono. Às vezes se apresenta como comparação. Como expectativa. Como desaprovação constante. Como a sensação de que quem somos nunca é suficiente e de que seríamos mais amados se fôssemos outra pessoa. Há pessoas que crescem ouvindo quem deveriam ser, com quem deveriam se parecer, qual caminho teria sido melhor seguir. Às vezes a comparação acontece com irmãos. Às vezes com parentes. Às vezes com uma imagem idealizada de sucesso que ninguém consegue alcançar.
E pouco a pouco passamos a acreditar que existe algo errado em quem realmente somos. Não porque nos falte valor, mas porque fomos medidos por uma régua que jamais teve a intenção de nos compreender. Uma forma de rejeição particularmente silenciosa, que não nos diz abertamente que somos indesejados. Apenas nos faz acreditar que seríamos mais amados se fôssemos, de alguma forma, outra pessoa.
Talvez por isso tantas pessoas carreguem um sentimento persistente de inadequação. Não porque tenham fracassado, mas porque passaram anos tentando corresponder a expectativas que nunca foram suas. Existe uma solidão particular em viver sob esse tipo de pressão. A solidão de sentir que cada escolha precisa ser justificada. Que cada desejo precisa ser defendido. Que cada tentativa de autonomia será recebida como erro, ameaça ou ingratidão. E talvez uma das formas mais dolorosas de falta de acolhimento seja justamente esta: a sensação de que precisamos nos tornar outra pessoa para merecer amor.
Gostamos de acreditar que o amor está garantido pelos vínculos de sangue, mas nem sempre é assim. Algumas pessoas encontram na família o primeiro lugar de segurança. Outras encontram o primeiro lugar onde aprendem a medir palavras, esconder desejos, justificar escolhas e pedir licença para serem quem são. Há vínculos que parecem abrigo vistos de fora, mas que, por dentro, podem ser lugares de crítica, culpa, cobrança e diminuição.
Durante muito tempo, tentei separar amor de acolhimento. Tentei acreditar que uma coisa podia existir sem a outra. Talvez pudesse. Talvez, em alguma medida, ainda possa. Mas houve momentos em que essa distinção deixou de ser suficiente. Porque, quando alguém passa anos ouvindo que suas escolhas são ruins, que seus caminhos não prestam, que seus afetos são inadequados, que sua autonomia é uma ameaça e que sua própria forma de existir parece sempre errada, chega uma hora em que a pergunta deixa de ser apenas: “Por que não me acolhem?”. E passa a ser outra, muito mais dolorosa: “Será que me amam?”.
Essa talvez seja uma das dores mais difíceis de admitir. Porque há uma culpa quase automática em formular essa pergunta. Como se reconhecer a ferida fosse uma forma de traição. Mas existem experiências que nos conduzem até ela. Quando o olhar que deveria nos confirmar no mundo passa a nos fazer duvidar do próprio valor, a dúvida sobre o amor deixa de ser uma acusação e passa a ser uma consequência. Nem todo laço familiar é sinônimo de segurança. Às vezes, ele representa exatamente o contrário: o primeiro lugar onde aprendemos a nos defender. Pode haver sangue. Pode haver história. Pode haver convivência. Pode haver cuidado. Mas nada disso garante acolhimento. Fato é que nem toda família consegue ser lar.
Com o tempo, a falta de acolhimento produz um efeito curioso. Deixamos de procurá-lo onde ele poderia ser encontrado e passamos a buscá-lo justamente onde ele nunca esteve. Procuramos compreensão em quem nos julga. Procuramos validação em quem nos diminui. Procuramos carinho em quem oferece apenas migalhas. Procuramos abrigo em lugares onde sempre chove. Talvez porque exista dentro de nós uma esperança antiga e persistente: a esperança de que, desta vez, a porta se abra. De que, finalmente, alguém nos ofereça aquilo que tantas vezes nos foi negado. Mas algumas portas não foram feitas para acolher. E insistir diante delas não transforma sua natureza.
Existe ainda outra armadilha silenciosa. Muitas vezes não buscamos acolhimento em quem nos acolhe, mas em quem nos feriu. Como se uma parte de nós acreditasse que, se conseguirmos finalmente ser compreendidos por quem nos julgou, valorizados por quem nos diminuiu ou amados por quem nos fez duvidar do próprio valor, então todas as feridas anteriores serão corrigidas. Mas raramente funciona assim. O passado não se reescreve quando uma porta fechada finalmente se abre. E insistir nessa busca pode nos impedir de perceber os braços que já estavam e permanecem estendidos ao nosso redor.
Há pessoas que nos fazem sentir maiores. Há outras que nos fazem passar a vida tentando provar que merecemos ocupar um espaço ao seu lado. A diferença entre uma coisa e outra nem sempre é percebida de imediato. Às vezes passamos anos confundindo amor com aprovação, afeto com aceitação, acolhimento com a eterna tentativa de conquistar o direito de sermos quem já somos. Há pessoas que passam tanto tempo tentando merecer acolhimento que esquecem uma verdade simples: acolhimento não é prêmio. Não deveria ser a recompensa por sermos fortes o suficiente, bons o suficiente ou úteis o suficiente. Acolhimento é aquilo que recebemos justamente nos momentos em que estamos feridos, machucados, incapazes de provar qualquer coisa.
Talvez por isso algumas feridas demorem tanto a cicatrizar. Não porque continuem abertas, mas porque insistimos em levá-las ao mesmo lugar onde nasceram, esperando que alguém as cure. Existe uma grande liberdade em compreender que nem todo acolhimento virá das pessoas das quais gostaríamos de recebê-lo. Alguns chegarão de amigos, de amores românticos, e de relações construídas com base no franco interesse, admiração e respeito mútuos. Outros de desconhecidos. Outros ainda nascerão dentro de nós mesmos, quando aprendermos a olhar para nossas próprias fragilidades com menos severidade e mais compaixão.
Os acolhimentos que nunca recebemos deixam marcas. Mas também deixam uma escolha: continuar mendigando abrigo em portas fechadas ou finalmente reconhecer as casas que já estavam abertas o tempo todo. E, às vezes, a mais importante delas é aquela que carregamos dentro de nós.
A busca começa a cessar quando descobrimos que aquilo que procurávamos nas mãos dos outros já existia, silenciosamente, dentro de nós.
Como diria Carl Jung:
“O privilégio de uma vida é tornar-se quem você realmente é.”
Você precisa fazer login para comentar.