Se não sentires vontade de falar comigo quando Morfeu te devolve ao mundo ou mesmo quando ele se prepara para novamente receber-te, vai-te embora.
Se as músicas que ouvimos tantas e tantas vezes juntos não te remetem aos inúmeros pequenos e grandes momentos que vivemos juntos, vai-te embora.
Se a calor do sol que esquenta a tua pele não fizer com que te lembres de todas as loucuras que já vivemos na cama (e em outros lugares também), vai-te embora.
Se os aromas e gostos que tanto nos diziam não forem capazes de fazer com sintas frio na barriga ou arrepios na pele, vai-te embora.
Se eu não estiver na lista daqueles que surgem na tua mente quando estás com um problema ou simplesmente porque precisas desabafar, vai-te embora.
Talvez eu implore para que fiques. Vai me doer, vai me fazer sangrar, mas insisto: vai-te embora.
Porque há muito mais no mundo esperando por mim. Eu sei que há, pois já passei por isso antes. Talvez passe por isso novamente. Eu não sei. Só vai-te embora, porque é chegada a minha hora e a nossa hora morreu de inanição.
Mas acima de tudo, vai-te embora, porque não preciso da tua pena. Não preciso da tua misericórdia. Não preciso da tua caridade, porque sei que ainda que eu caia, jamais ficarei no chão. A verdade não é capaz de me matar. Nunca será.
E se assim for, vai-te embora, porque a tua presença impede o milagre do porvir e de tudo que preciso para viver e me sentir vivo.
Eu quero tudo e quero muito. E quero agora, porque eu vivo e sou o agora.
E agora, vai-te embora. Sem demora. Há pressa diante do que a vida ainda tem para mim.
No mundo das escolhas, No palco das ilusões, No futuro que se altera Diante do sim e do não, A vida segue resoluta, Diante da amarga autossabotagem Que é não tomada de uma decisão.
Qualquer coisa É só culpar o destino E deixar tudo por isso mesmo: Café frio sobre a mesa Adoçado com lágrimas ácidas e salgadas Que brotam do coração.
Sair de cabeça erguida, Brindar a integridade, Degustar a verdade, Manter a sanidade, Ver as luzes da cidade E sentir orgulho do eu que já não mais sou.
Porque este eu, Este que não mais sou, Lutou como sabia, Tentou tudo que lhe cabia, E na sua derrota aparente, Surgiu vitorioso um dia.
Não venceu ninguém, Posto que com ninguém competia.
Não humilhou ninguém, Posto que assim se humilharia.
Foi só um alguém, Que verdadeiramente existia.
E hoje, mais forte, Mais valente, Mais amoroso, Olho para o eu que já não sou E agradeço a Deus de joelhos por já ter sido.
Porque tudo que eu era É hoje pedra fundamental Do que vivo, Do que sinto, Do que acredito, E de tudo mais que eu já sou, E de tudo mais que eu ainda serei.